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segunda-feira, 31 de março de 2025

Lago José Neves: patrimônio natural de Bom Jesus do Itabapoana


Lago José Neves, um dos cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos.

por Paula Aparecida Martins Borges Bastos

     

       Um dos principais cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, o Lago José Neves, também é conhecido como “Laguinho”, “Lago do Trevo” ou, para os mais antigos, “Lago da UFF”, “Lago da entrada da cidade” ou mesmo “Lago da Pecuária”.

      Localizado na área urbana de Bom Jesus, no Bairro Parque do Trevo, cruzamento da RJ 186 com a RJ 230, esse lago artificial, com suas várias décadas de existência, já foi incorporado à paisagem de Bom Jesus do Itabapoana, estando repleto de conteúdos afetivos em nossas memórias.

A RJ 186 passa ao lado o lago, encontrando-se com a RJ 230 no trevo. Fonte: Google Maps, 2025.

De formato arredondado, circundado por um calçadão e medindo aproximadamente 700 metros, o Lago José Neves é muito utilizado como pista de caminhada e aulas de educação física. Contornado por belíssimos coqueiros e uma vegetação basicamente constituída por gramíneas, com uma criação de peixes no local, o atrativo é visitado diariamente por grande número de cidadãos de Bom Jesus do Itabapoana e turistas (1)

O "Laguinho", como é carinhosamente conhecido, é muito procurado para caminhadas e passeio.
Foto: Paula Bastos, 2024.

        O lago é carregado de uma dimensão simbólica e afetiva, além de ser testemunha das transformações históricas decorrentes do crescimento urbano e das alterações das vias comunicacionais de transporte que foram se configurando ao longo do século XX em seu entorno. Se no início de sua existência estava localizado em um local distante e bucólico, o Lago está, atualmente, em grande medida, incorporado à área urbana, e mantém o seu status de principal cartão de boas vindas aos que chegam a Bom Jesus pela RJ-186.

O início: lago como bebedouro para gado

      A história do lago caminha junto com as transformações que foram ocorrendo na área ao longo do tempo. O lago foi criado, provavelmente, durante o período de existência do Posto Agropecuário (ligado ao Ministério da Agricultura), em meados do século XX, como um bebedouro para mitigar a sede dos bovinos que pastavam ao redor. Em pouco tempo foi se convertendo em um ambiente paisagístico para todos que por ali passavam, especialmente depois que a estrada em frente ao lago foi asfaltada, no início da década de 1960.

        As melhorias rodoviárias ocorreram sob a gestão do bonjesuense Roberto Silveira, Governador do estado do Rio de Janeiro, quando deu-se o asfaltamento da estrada que ligava Bom Jesus ao cruzamento de Itaperuna e dali a Campos, havendo também atenção para estruturar uma estrada ensaibrada ligando Bom Jesus a Santo Eduardo e Morro do Côco (2). Esses trajetos melhorados permitiram encurtar distâncias e facilitar o escoamento e chegada de produtos.

      No ponto de chegada a Bom Jesus, essas estradas se encontravam em área próxima ao "Laguinho". Margeado por coqueiros e vegetação rasteira, a área era delimitada por uma cerca de arame farpado, como é comum nas pastagens bovinas, e era apreciado por todos como um marco aos viajantes, que ali tinham sua referência de chegada ou saída de Bom Jesus.

      Em 1970, o Ministério da Agricultura fez a transferência do acervo do Posto Agropecuário para o Município, passando a funcionar no local, "ao lado da rodovia para Santo Eduardo", o Colégio Técnico Agrícola de Bom Jesus, mantido pela Fundação Educacional de Bom Jesus. Logo recebeu o nome de Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB), em homenagem ao Presidente da Fundação, recém falecido. Em 1974, o município fez doação para que o CTAIBB passasse a integrar a Universidade Federal Fluminense, e toda a área, com o lago incluso, voltou a ser considerada de âmbito federal, após quatro anos municipalizada (3) (4) (5). 

   O lago era muito apreciado pelos jovens e adultos que frequentaram, nas últimas décadas do século XX, a churrascaria Pitucão e suas famosas serestas. O Pitucão, na época, funcionava justo em frente ao lago, do outro lado da estrada, próximo onde hoje funciona um posto de gasolina. Isso fazia com que os notívagos pudessem sonhar ao caminhar para casa, especialmente em noites de lua cheia, quando os raios prateados inundavam de sonhos os enamorados que contemplavam as águas plácidas do singelo lago.

    Na década de 1990, com a transferência do Pitucão para novo endereço, passou a funcionar ali o Restaurante Terraço, mantendo serestas e eventos noturnos por muitos anos.

Uma nova ponte e um lago esvaziado

     No final da década de 1980, a construção de uma nova ponte de cimento sobre o rio Itabapoana, em área próxima ao lago, significou mais um avanço no sistema rodoviário que passava por Bom Jesus. Anunciada como um importante ponto de ligação entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, a antiga estrada que passava em frente ao lago foi remodelada, ampliada e inaugurada como Rodovia RJ-186, partindo de Bom Jesus, passando por Santo Antônio de Pádua e indo até a divisa com Pirapetinga, em Minas.

      Para viabilizar todas as obras previstas na região de Bom Jesus, ou seja, a nova ponte, a reforma e a ampliação da estrada no trecho Bom Jesus – Cruzamento para Itaperuna, além da instalação de um trevo rodoviário entre a RJ-186 e a RJ-230, o lago foi esvaziado, a fim de possibilitar a movimentação de máquinas e material ao seu redor. (6)

     A ponte ficou pronta em 1988, porém os aterros de acesso de ambos os lados, capixaba e fluminense, demoraram a ser realizados. Em abril de 1989 os governos ainda estavam envolvidos com a  concorrência das obras (7). Por fim, ficaram prontas a ponte e a rodovia, e a inauguração se deu, do lado capixaba e fluminense, nos dias 04 e 12 de março de 1991, respectivamente. Nos eventos estiveram presentes diversas autoridades, dentre elas os governadores Moreira Franco (RJ) e Max Mauro (ES), além de Tadeu Batista e Carlos Borges Garcia, prefeitos de Bom Jesus do Norte (ES) e Bom Jesus do Itabapoana (RJ), respectivamente (8) (9). Este último, durante o ato de inauguração, destacou a relevância da ponte para a população das duas cidades irmãs:

(...) esses dois povos, embora localizados em Estados distintos, têm uma história comum, uma história entrelaçada de tamanha identidade, uma afinidade cultural e espiritual tão consistente, que não se compreendia porque, por anos e anos, lhes tenha sido negado o direito de possuir mais uma via de união material (9)

Ponte nova sobre o rio Itabapoana: construída em fins de 1980
e inaugurada na década de 1990. Foto: Paula Bastos.
 

       Após a inauguração da ponte, a população aguardava para breve a recomposição do lago, cujas águas são provenientes de nascentes locais e já constituía um ponto de referência para toda a comunidade. Em junho de 1991, matéria jornalística intitulada "Lago não pode acabar", chamava a atenção para a importância do lago para os bonjesuenses, conclamando sua recuperação (6). O retorno, porém, não ocorreu rapidamente, e passado um ano, o lago continuava a ser reivindicado pela comunidade, passando a ser novamente notícia de jornal, com os dizeres “queremos o ‘lago’ de volta”. (10)

Um lago remodelado

      Em 1994, o lago voltou a compor a paisagem, começando a tomar o contorno que permanece até os dias atuais. Através de convênio da UFF com a Prefeitura, o lago artificial, em remodelação, além de seu aspecto paisagístico, é planejado para ser incorporado como um espaço de uso pela população, ampliando sua significação afetiva, sendo “transformado em ponto turístico e de lazer”, pois, “além de destinar-se à criação de peixes, será um ponto de lazer para os bonjesuenses, com pista para cooper e outras atrações” (11). Vale lembrar que foi na década de 1990 que a sociedade brasileira teve ampliada a incorporação dos hábitos de atividades físicas, com as corridas e caminhadas passando a ser um grande atrativo para os que passaram a buscar um estilo de vida considerado mais saudável.

Lago recém remodelado e aberto para caminhadas. Foto: Paula Bastos, década de 1990.

       É nessa época que o lago recebe uma pavimentação ao seu redor, ficando definitivamente aberto ao público o acesso às suas margens, seja para piquenique, caminhadas e mesmo para apreciar os peixes, ali criados pelo CTAIBB-UFF, e que passaram a ser uma das atrações a mais do local, especialmente para as crianças, que vinham com os familiares para alimentar os animais no início e no final do dia.

      Acompanhando os antigos coqueiros, uma nova fileira, agora de coqueiros-anão, foi plantada ao redor do pavimento. As mudas, originárias de Quissamã, foram doadas pela prefeitura daquele município (12).

Jornal O Norte Fluminense, 25/09/1994

As duas fileiras de coqueiros convivem à margem do Laguinho: a mais externa foi plantada em 1994, com mudas oriundas de Quissamã, RJ. Foto: Paula Bastos, 2021.

       Atualmente, às duas fileiras de coqueiros que margeiam as águas lacustres, vem somar-se outras árvores frutíferas, algumas delas plantadas por moradores e apreciadores do lago, que, junto a todos que ali frequentam, compreendem o local com um patrimônio afetivo da população.

Algumas árvores frutíferas compõem a paisagem do "Laguinho"... Foto: Paula Bastos, 2021. 

...e dão sombra aos visitantes. Foto: Paula Bastos, 2021.

      O lago remodelado recebeu o nome de Lago José Neves, quando foi inaugurado em 1994, homenagem ao Auxiliar de Agropecuária que havia falecido recentemente. Antigo funcionário do Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB) – UFF, José Neves se dedicou por muitos anos às atividades de cuidado da terra, ao cultivo e à criação, trabalhando desde os tempos do Posto Agropecuário, junto ao Médico Veterinário Ildefonso Bastos Borges, antes mesmo da conformação do CTAIBB-UFF.

Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto Paula Bastos, 2021.

     A partir da criação dos Institutos Federais, em 2008, deu-se a transformação do antigo CTAIBB-UFF em campus Bom Jesus - Instituto Federal Fluminense (IFF) (5). O convênio com a Prefeitura referente ao uso do Lago como área de lazer e turismo pela comunidade foi mantido e permanece ativo até os dias atuais, ficando ao encargo da municipalidade o cuidado com o paisagismo e a manutenção da limpeza da área.

Um patrimônio natural em área urbana

        Observa-se, assim, que aliado à paisagem natural, já incorporada à memória afetiva da coletividade durante décadas, buscou-se instituir um espaço para lazer e contemplação, em que a presença humana passasse a se integrar à paisagem. A população acolheu de forma extremamente positiva a mudança proposta, e rapidamente o local se converteu em um dos principais pontos urbanos para práticas de atividade física ao ar livre ou simplesmente um passeio para contemplação da natureza. Encontros, piqueniques, brincadeiras infantis, registros fotográficos, leitura à sombra das árvores, variados são os usos que a população tem feito do Lago José Neves ao longo das últimas décadas.

Área para caminhadas e práticas de atividades físicas atrai visitantes ao Lago José Neves.
Foto: Paula Bastos, 2024.

      Entendendo que patrimônio natural é “parte da memória humana, pois adquire significado e sentido para os diversos grupos sociais, torna-se uma referência histórica e é inserido na memória social” (13), podemos considerar o Lago José Neves um patrimônio natural da área urbana de Bom Jesus do Itabapoana.

      Passear às margens do Lago é poder contemplar amostras de algumas das possíveis paisagens do Vale do Itabapoana.

Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2024.

      Em uma de suas extremidades, do lado capixaba, se vislumbra a reconfortante cobertura vegetal que desponta no Morro da Torre e montes adjacentes, em Bom Jesus do Norte; mais além, sobressaindo para os lados de Mimoso do Sul, os enigmáticos Pontões nos atraem em seu azul distante.

A mata no Morro da Torre, em Bom Jesus do Norte (ES): sobranceira na paisagem.
Foto: Paula Bastos, 2024.

Os Pontões, em Mimoso do Sul (ES), despontam na paisagem por sua altitude.
Foto: Paula Bastos, 2021. 

        Caminhando na direção oposta, na outra extremidade, para o lado fluminense, é possível descortinar ao longe montes característicos da região.

Morros ao longe, lado fluminense. Foto: Paula Bastos, 2024.

     Em suas laterais, o "Laguinho" é circundado por dois morros que bem poderiam configurar uma alegoria de situação atual de nossa região. De um lado, um baixo monte de pasto, prometido como área de reflorestamento (14), apresentando, por enquanto, seus primeiros passos nessa direção, em processo ainda incipiente e tímido.

Pequena área de reflorestamento foi iniciada no morro próximo ao "Laguinho".
Foto: Paula Bastos, 2021. 
Área de reflorestamento, em 2024. Foto: Paula Bastos.

   Do outro lado, um morro maior, com trecho desbastado para o desenvolvimento de atividades humanas. Em seu topo, esparsas árvores não dão conta, sozinhas, de deter a visível abertura de valas e pequenas aberturas, em erosão que avança e expõe as entranhas de um morro choroso em vermelho flamejante, bela e intensa cor tão característica de nossa terra.

Um morro recortado, terra vermelha e diversas lojas e galpões de serviço compõem o visual do outro lado da estrada RJ 186 que margeia uma das bordas "Laguinho". Foto: Paula Bastos, 2021. 

Morro com esparsas árvores e terra vermelha em trecho recortado: paisagens que se avista de uma das laterais do Lago José Neves. Foto: Paula Bastos, 2024.

Morro com escassa proteção vegetal e sinais de erosão. Foto: Paula Bastos, 2024.

       Sobre nossas cabeças, no fim da tarde, os pássaros sobrevoam em direção ao rio Itabapoana, esse rio cujas águas continuam rolando sobre as pedras e passam sob a segunda ponte, atualmente convertida em uma madura balzaquiana com seus mais de 30 anos.

      Ao final do passeio, após toda essa contemplação, uma pergunta perpassa o pensamento: que paisagem verão as gerações futuras em suas  caminhadas e passeio ao redor do Lago José Neves?

Atualizado em 07/04/2025

                                                                   ***

É permitia a reprodução do conteúdo deste blog em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Referências

(1) LAGO José Neves (Laguinho).  Disponível em: https://bomjesus.rj.gov.br/site/ponto_turistico/lago_jose_neves_(laguinho)/2 Acesso 29/03/2025.

(2) SERÁ INICIADO em breve o asfaltamento: ótima estrada ligará Bom Jesus a Itaperuna. A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1262, 23/01/1960.

(3) INAUGURADO o Colégio Técnico Agrícola. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1023, RJ, 08/03/1970.

(4) MINISTÉRIO da Agricultura entrega Posto Agro-pecuário ao município. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1026, RJ, 05/04/1970.

(5) 50 ANOS de CTAIBB e a efeméride a ser celebrada.  Disponível em https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/50-anos-do-ctaibb-e-a-efemeride-a-ser-celebrada Acesso 30/03/2025.

(6) LAGO não pode acabar. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1864, 30/06/1991.

(7) UMA OBRA inacabada. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1791, 09/04/1989.

(8) INAUGURAÇÃO da nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1853, RJ, 03/03/1991.

(9) INAUGURADA a nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ,  n. 1854, 17/03/1991.

(10) O LAGO da UFF. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 29/03/1992.

(11) NOVO visual Urbanístico da Cidade. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1944, 07/08/1994.

(12) O LAGO do Trevo. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1948, 25/09/1994.

(13) SCIFONI. Simone. Os diferentes significados do patrimônio natural. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v.10, p.55-78, 2006, p.75.

(14) ÁREA de reserva legal do IFF Bom Jesus recebe mudas nativas e exóticas por meio de parceria com UENF. Disponível em: https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/area-de-reserva-legal-do-iff-bom-jesus-recebe-mudas-nativas-e-exoticas-por-meio-de-parceria-com-uenf Acesso 31/03/2025.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Memórias do século XX: Dercilio do Banjo, uma vida musical

 

Dercilio do Banjo e Luiz na clarineta, com grupo musical
em apresentação no Colégio Rio Branco, em 21/10/1983


Dercilio do violão ou Dercilio do banjo, como ficou conhecido, foi “uma figura que se incorporou definitivamente à história musical bonjesuense” (1). Suas memórias (2), escritas em 1979, ajudam a retratar o ambiente musical de sua época, e têm sua origem assim explicada por Luciano Bastos:

No afã de preservar para os póstumos uma fase do passado propus ao Dercilio uma gravação em que de viva voz perpetuasse suas lembranças, os acontecimentos. Qual não foi minha surpresa quando meses após recebi dele um caderno onde narra o que afirma ser “minha humilde história” (1).

Infância e juventude

Dercilio de Souza Pires (3) nasceu em Salgado (4), um pequeno povoado às margens fluminenses do rio Itabapoana, que hoje existe apenas na memória e, talvez, em vestígios arqueológicos que aguardam maiores pesquisas.

O ano era 1902, e Salgado vinha perdendo sua gente, desde que o Porto da Limeira, razão de sua existência, praticamente deixara de operar, em fins do século XIX (5). O êxodo também chegou para a família de Dercilio, depois que seu pai, Francisco Baptista Pires, carpinteiro, se acidentou quando trabalhava em uma obra na próspera São José do Calçado (ES), o que fez com que a esposa, Saturnina de Souza Pires, arrumasse a mudança e fosse cuidar do esposo.

Junto com os sete filhos, sendo dois de colo, D. Saturnina saiu de Salgado, em 1910, numa madrugada de verão, a pé, em direção a S. José do Calçado, carregando os poucos pertences da família em uma carroça. Dercilio tinha, nessa época, oito anos de idade, e se recorda de ter visto, no caminho, o lugarejo Ponte de José Carlos (6), na outra margem do rio, e passado por Bom Jesus do Itabapoana (7).

A travessia do rio foi feita em uma ponte em ruínas (8), com a carroça tendo que ser conduzida por pessoas. A chegada a São José do Calçado, depois de muita caminhada, se deu no fim da tarde.

Em virtude de outro acidente de trabalho, em uma obra perto do Córrego do Jacá, o Sr. Francisco Baptista Pires acaba falecendo. Dercilio, com idade entre dez e onze anos, conta que já se “virava”, e dentre as atividades que foi desenvolvendo na vida esteve a de marceneiro, tipógrafo, pescador, aprendiz de alfaiate, padeiro e, é claro, tocador de violão.

Às margens do Itabapoana

No mês de maio de 1926, aos 24 anos de idade, Dercilio e um irmão se mudam para Bom Jesus do Itabapoana (RJ), onde haviam alugado do Sr. Jácomo Cavichini uma padaria que estava fechada. Fabricando pão de sal, roscas de vários tipos, pão sovado, entre outros, logo a padaria viu sua freguesia consolidada. Dercilio era o vigia da massa, que começava a ser fabricada às seis horas da tarde e ficava em descanso até três ou quatro horas da manhã.

E era justamente nesse intervalo, enquanto sua massa “descansava”, que o jovem Dercilio se envolvia com uma grande paixão: a música. Nesse tempo eram muito comuns as serenatas, e os companheiros se reuniam no Bar do Sr. Carlos Hirsch (9), ponto de referência na época para a juventude local.

Bom Jesus - Jornal, 1928

Os músicos eram o maestro Clovis Brandão (10), Antonio Carlos Paiva na clarineta, Carlos Hirsch no violino, Levy Xavier no piston-surdina e o jovem Dercilio no violão. Os cantores eram muitos, sendo os “firmes nas serenatas” o Amory Silveira, o Ricardo Soares, o Jorge Teixeira (vulgo “Juvêncio”), o José Fraga e o Licínio da Silva. Como toda serenata tem seus ouvintes, os apreciadores infalíveis lembrados por Dercilio eram o Homero (vulgo “Tijolo”), o José Megre e o Amador Pinheiro. Outro ouvinte sempre presente, o Dr. Otacílio de Aquino, além de apreciador, também foi autor de um Fox Canção de muito sucesso na época, “Ano Bom”, cantado por Jorge Juvencio.

Conjunto Jazz São Geraldo

Em uma das costumeiras serenatas, Dercilio conta que, após a execução de uma valsa, o maestro Clovis Brandão o convida para integrar o conjunto Jazz São Geraldo, tocando banjo (11), já que ele entendia de variações de acordes, e o banjista da época só fazia a primeira, a segunda e a terceira, e apenas de alguns tons. Convite aceito, Dercilio passou a integrar o grupo com muita alegria.

O Jazz , sob a batuta do maestro Clovis Brandão, animando festividades locais
O Momento, 1932

Na década de 1930, por vontade do irmão, o negócio da padaria é encerrado e os dois entram para o negócio de marcenaria. Dessa forma, Dercilio começa a trabalhar no fabrico de móveis, após ter passado alguns meses em Cachoeiro de Itapemirim (ES).

A turma da música, nessa época, já é outra, sendo composta pelo maestro Agnes de Aquino no saxofone, Levy Xavier no piston-surdina, Jader Silva no sax, tendo como cantores, Delbio Fragoso, Salim Elias, Amelio Medina e Diogenes Martins.

Em 1937, mais um acidente de trabalho marca a vida da família. O irmão perde dois dedos da mão direita em uma das máquinas e passa a fazer tratamento. Sem poder continuar com o negócio, Dercilio vai para o Rio de Janeiro em busca de oportunidade de emprego. Passa a trabalhar como lustrador em uma fábrica de cama, adquirindo aí sua carteira profissional de trabalho.

Depois de um tempo trabalhando no Rio de Janeiro, Dercilio retorna a Bom Jesus do Itabapoana, trazendo consigo um novo companheiro, o banjo-tenor...

No campo da música, novas mudanças na cidade (12). Logo o banjista se reintegrou ao Jazz São Geraldo, que estava agora sob a direção do Maestro Levy Xavier (13), no piston, junto com Bininho Xavier no trombone, Chiquito do Carmo no violino e Pedro Lino no piano, além de baterista e pandeirista.

O conjunto tocava no Cine Teatro São Geraldo, na Bom Jesus capixaba “terça, quinta, sábado e domingo para a moçada dançar antes da sessão cinematográfica das sete às oito horas da noite”. Isso quando não havia noite de baile no salão do cinema. O conjunto também tocou, na Bom Jesus fluminense, no Palace-Club (14), no Aero Clube, na Rádio Bom Jesus e no Ginásio Rio Branco. Além disso, o Jazz S. Geraldo era convidado para fora, “pelos quatro lados de Bom Jesus” (15).

Quatro bailes marcantes na memória:

Baile da emancipação do município, no dia 1º de janeiro de 1939, realizado, segundo Dercilio, na antiga casa Firmo, na Praça Governador Portela (16).

Inauguração do Bar Itamaraty (17), de propriedade do Sr. Leovergilio Nunes da Silva, conhecido como “Dodô Elias”. Dercilio, no banjo, tocava com um quinteto famoso composto dos três irmãos Xavier, Levy Xavier no piston, Homero no clarinete, Bininho no trombone, além de Manoelzinho Reis na bateria.

Inauguração do Bar Itamaraty, em 1939, que ficou conhecido como bar do Dodô Elias. Sentados, a partir da esquerda, Dercílio de Souza Pires (Dercílio do Banjo), Homero Xavier (clarinete), Levy Xavier (piston), Manoelzinho Reis (bateria), e Bininho Xavier (trombone). Foto: Galeria Histórica, Jornal O Norte Fluminense.

O Boletim, 1939

Baile em benefício à reabertura do Hospital São Vicente de Paulo, realizado no Ginásio Rio Branco, em 1939. O baile foi organizado pela Diretoria do Centro Popular Pró-Melhoramentos de Bom Jesus, cujo presidente, à época, era Olívio Bastos.

Bailes de Micareme no Aero Clube (18), em 1952, ao som do Trio composto por Dercilio, no banjo, Christóvão Pires na bateria e Pedro Augusto (vulgo “Macuco”) no pandeiro.

Carnavais, festas juninas e festas populares

Dessa época em diante, Dercílio conta não ter tocado mais em bailes sociais, a não ser em carnavais fora de Bom Jesus. Com a carteira profissional da Ordem dos Músicos, passou a tocar também em bailes de cabaré, nunca deixando de frequentar, é claro, as serenatas.

Entre 1952 e 1970, mesmo com Agnes de Aquino (19) não morando mais em Bom Jesus, este se fazia presente na cidade em toda Festa de Agosto, com seu sax. Junto com Dercilio no banjo e Jader Silva, também no saxofone, costumavam formar um trio.

A partir de 1968, Delcidio passa a tocar sem compromisso profissional, com seus companheiros acordeonistas Elóis Teixeira dos Santos e Romeu T. Sobrinho, fazendo show em almoço de recepções e festas juninas, em locais como o Colégio Rio Branco, o Clube do Ordem e Progresso e o Olímpico Futebol Clube.

O violeiro Dercilio é destaque no convite da Festa Junina
publicado no jornal do Colégio Rio Branco

No período em escreve suas memórias, em 1979, Dercílio toca com um companheiro de sopro, Manuel Portugal, com sua flauta de seis furos, e continua a animar festas juninas e outros festejos. Luciano Bastos destaca sua eterna juventude ao contar que no carnaval daquele ano, após tratamento médico, com seus 77 anos,

Dercilio saiu pelas ruas da cidade, em sua bicicleta, batendo um tambor. Em sua passagem com rosto feliz e alegre saudava e brincava sozinho o carnaval. Confesso que me emocionei. Que mensagem maravilhosa você estava enviando, meu bom amigo Dercilio, na simplicidade daquele desfile solitário. Nenhum livro ou palavras falariam melhor (1).

Dercilio do Banjo e Luciano Bastos, no Colégio Rio Branco, em 21/10/1983

Seus 90 anos foram festejados ao lado da esposa, Sra. Aleixina Furtado de Souza, familiares e amigos, em sua residência em Bom Jesus do Norte (20)

Dercilio deixou um legado de encantamento aos que o ouviram tocar e, nas palavras do próprio músico, deixou registradas as recordações dos “velhos tempos em que levei muitos músicos embaixo das minhas palhetadas e acordes” (2).

Em sua homenagem foi criada, em Bom Jesus do Norte (ES), a "Banda Musical Dercilio Pires" (21).

Paula Aparecida Martins Borges Bastos

(atualizado em 09/06/2025)



Notas e referências

(1) Dercilio do Violão, por Luciano Bastos. O Norte Fluminense. Bom Jesus do Itabapoana, 12/08/1979.

(2) “Nas margens do Itabapoana: minha humilde história” é o título das memórias de Dercilio do Banjo, de 1979. O original, manuscrito, integra o acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos. Grande parte das informações constantes no presente texto tem por base essa autobiografia.

(3) Segundo o músico, seu nome correto seria Dercilio de Souza Pires, porém, de forma inadvertida, na segunda via do registro passou a constar Dercilio Baptista de Souza.

(4) Dercilio indica que Salgado ficava no lado fluminense, em torno de dois quilômetros de distância de Santo Eduardo (atual distrito de Campos dos Goytacazes) e Ponte do Itabapoana (atual distrito de Mimoso do Sul), estando localizado ao longo da estrada que ligava essas duas localidades ao povoado de Limeira, também no lado fluminense. Salgado era composto de um grupo de casas dos dois lados da estrada, bem como uma pequena Capela, no alto de um discreto morro.

(5) O transporte ferroviário, ao ser implantado na região, fez com que o transporte fluvial fosse decaindo economicamente, o que teve forte repercussão negativa nos povoados que gravitavam em torno do Porto da Limeira. Saiba mais: http://gerson-franca.blogspot.com/2010/10/curiosidade-limeira-e-os-correios.html .

(6) Atual José Carlos, distrito de Apiacá (ES).

(7) O encantamento infantil com a primeira visão da fluminense Bom Jesus, levou Delcídio a afirmar ter continuado a viagem “levando no meu coração Bom Jesus do Itabapoana”. Veja mais sobre essa parte da viagem no subtítulo “Memórias dos primeiros anos do século XX” da matéria a seguir : https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2021/05/pracas-amaral-peixoto-e-governador.html .

(8) Segundo Dercílio, a ponte ficava próximo a uma fazenda da família Matias e, na época em que escreveu suas memórias, a ponte já não existia mais.

(9) A Confeitaria Hirsch, situada na atual Praça Governador Portela, era bastante frequentada nas décadas de 1920 e 1930 e, segundo notícias de jornais da época, possuía uma carta de vinhos variados, além de sorvetes, refrescos, doces e outras iguarias. Carlos Hirsch, além de proprietário, participava dos eventos musicais com seu violino, como narra Dercílio.

(10) O maestro Clovis Brandão foi o autor da composição musical “Ordem e Progresso”, com letra de Otacílio de Aquino. A marcha, composta para o Ordem e Progresso Futebol Clube, foi executada pelo conjunto Jazz, sob direção do maestro compositor, em festividade no Cine Teatro São Geraldo em 08/01/1934, durante posse da nova diretoria do Clube desportivo. Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12/01/1934. Disponível aqui

(11) Banjo-tenor: Banjo de quatro cordas, com pescoço curto, normalmente tocado com uma palheta, mas também pode ser dedilhado com os dedos. Foi um instrumento muito popular no Tango e em outras bandas de dança das décadas de 1920 e 1930, sendo atualmente mais comum no jazz originário de Nova Orleans. Saiba mais aqui .

(12) Segundo Dercilio, os maestros e pianistas Clovis Brandão e Carlos Paiva já não moravam em Bom Jesus do Itabapoana nessa época.

(13) Para saber mais sobre a biografia e carreira musical de Levy Xavier e sua família: https://onortefluminense.blogspot.com/2018/06/hoje-o-maestro-levy-xavier-completaria.html .

(14) Fundado por Salim Tannus, o Palace-Club era um salão de bailes localizado na Praça Governador Portela, porém não teve vida longa, indica Dercilio.

(15) O  músico faz menção, aqui, aos quatro distritos que compunham o município  de Bom Jesus do Itabapoana, na época: Bom Jesus do Itabapoana - sede, Calheiros, Rosal e Liberdade.

(16) As festividades de instalação do município ocorreram ao longo de todo o dia 1º, na Praça Governador Portela e o evento contou com a presença de políticos locais e da região, além de grande público.  A solenidade oficial ocorreu no prédio onde hoje é o Big Hotel. Segundo Francisco Camargo Teixeira, a Lyra dos Conspiradores, da cidade de Macaé, também se fez presente. A Casa Firmo, onde Dercílio indica haver ocorrido o baile da festa, foi posteriormente demolida, tendo sido construído no local o prédio do Cine-Teatro Monte Líbano, hoje com tombamento pelo INEPAC. Saiba mais em: Bom Jesus do Itabapoana, de Francisco Camargo Teixeira, 3ª ed. ampliada por Georgina Mello Teixeira, 2005; e em: http://onortefluminense.blogspot.com/2015/12/os-76-anos-de-nossa-2-emancipacao.html .

(17) Localizado na esquina da Rua Roberto Silveira com a Travessa R. T. José Teixeira, indica o músico.

(18) Segundo Dercilio, com a promoção de bailes no salão do Monte Líbano, organizado pela Rádio Bom Jesus, a “moçada do Aero”, resolveu na última hora “separar o bloco e fazer os Bailes do Aero Clube”, solicitando ao seu Diretor, Sr. Salim Tannus, sua realização. Foram duas noites, conta o músico, surpreendentes, em que a “moçada vibrou de alegria”.

(19) Agnes de Aquino fez carreira musical, tendo gravado em disco (78 RPM) a música “Caminho Errado”, junto com Carlos Magno, em 1956. No disco “As Valsas de Ontem e a Banda Campesina de Nova Friburgo”, gravou a música “Vitória Régia”, sem data. Fonte: IMMub, Catálogo online da música brasileira. Conferir aqui ,  aqui e aqui .

(20) Dercilio Batista Pires. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 27/09/1992.

(21) A Banda de Música Dercilio Pires consta no cadastro  de Bandas da Funarte: https://sistemas.funarte.gov.br/consultaBandas/listagem.php?uf=ES Acesso em 16/02/2022



Atualização em: 24/02/2022


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domingo, 12 de julho de 2020

Memórias do século XX: "Tangará e Andorinha"

Tangará e Andorinha: apresentação em Iconha (ES), 1960. 
Acervo particular: Dejanira Pettersen.

"TODO ARTISTA TEM DE IR AONDE O POVO ESTÁ"

Dejanira Pettersen nasceu em Cambuci e hoje vive em Bom Jesus do Itabapoana, estando às margens de um tempo centenário. Não há como escutar suas histórias sem viajar no tempo e no espaço: com elas voltamos ao século XX e percorremos terras fluminenses, capixabas e mineiras, viajando sobre os trilhos do trem, no constante prenúncio das alegrias do palco e na certeza de que a vida do artista é sempre ir aonde o povo está.

Dejanira Pettersen, em 2015

Em seu tempo de menina, Dejanira morava em São João do Paraíso, distrito de Cambuci, sonhando com uma vida em que pudesse percorrer o mundo e conhecer pessoas. Quando Geraldo Silva, de nome artístico "Tangará", chegou à cidade, junto com um grande circo, a vida da jovem começou a tomar o rumo que ela quis construir. O circo vai embora, mas tempos depois, após uma grande enchente da qual se recorda muito bem, Geraldo retorna à cidade, preocupado com a jovem. O casal se declara apaixonado e para Dejanira começa a experiência dos palcos. Em breve, assume o nome artístico "Andorinha", e assim nasce a dupla "Tangará e Andorinha".

Anúncio de show em circo, com participação de Tangará - a lápis: dia 2 em Bananeiras.

CANTORIA NAS ONDAS SONORAS DO RÁDIO


Campos: Dejanira conta terem feito apresentações aos domingos, cantando músicas a pedido dos ouvintes, na Rádio Cultura de Campos.  


Itaperuna: Durante três anos, na década de 1950, Tangará esteve a frente do programa matutino diário "Sertão em Flor", na Rádio Itaperuna Ltda - ZYM-2. Dejanira recorda que antes de iniciar o programa, este era anunciado por José Luiz com a seguinte chamada: “- E vêm aí os inimigos da tristeza! Sertão em Flor”.


Para a estreia de Andorinha na rádio, Tangará compôs a música A saracura em que ela teria uma pequena participação, para ir se acostumando ao microfone:


A saracura

Tangará: Você já viu a saracura dançar?
Andorinha: Não!!!
Tangará: Então você vai ver, você vai rir de escangalhar...
                A saracura quando dança lá no galho
                vira festa
                que os galhos chegam a quebrar


Como era comum na época, diversos artistas eram chamados a compor material que auxiliasse na divulgação de nomes políticos, em campanhas eleitorais. Tangará não foi exceção e um dos candidatos para quem compôs foi o bonjesuense Roberto Silveira, na época candidato a governador. 




No período em que Dejanira e Geraldo viveram em Itaperuna, sua moradia foi no Hotel Meirelles, no andar térreo. Foi nesse local que o músico preparou um cenário que pudesse acompanhar a dupla em suas viagens pela região: pintou em tecido uma cidade imaginária com muitos prédios. O cenário, assim, cabia em uma mala, podendo ser facilmente transportado e montado a cada apresentação.


O TEATRO MAMBEMBE SEGUE OS TRILHOS DO TREM

Após deixar o programa na Rádio Itaperuna, o casal passa a se apresentar em várias localidades. Seguir o roteiro da dupla é perceber a importância das linhas ferroviárias como meio de transporte e de comunicação entre as cidades durante grande parte do século XX no interior brasileiro, em especial na confluência entre os estados do Rio, Minas e Espírito Santo. E assim, Dejanira vai indicando uma série de lugares em que "Tangará e Andorinha" percorreram com suas apresentações teatrais, tais como: Pirapetinga, Patrocínio do Muriaé, Muriaé, Leopoldina e Juiz de Fora (MG); Murundu, Santa Margarida, Chave do Paraíso, Gargaú, Travessão de Campos, Baixa Grande, Santo Amaro, Saturnino Braga, Tocos, Capão, Chave Santa Maria, Usina Santa Izabel (RJ); Iurú, Mimoso do Sul e Iconha (ES). Nessa lista é possível perceber o nome ou local de muitas das estações ferroviárias que compunham as linhas da época.

Onde se apresentar? O primeiro lugar a buscar era o cinema, se não houvesse cinema, buscava-se um clube, ou um local em que se pudesse fazer o show, montando o cenário "portátil". No local, apresentavam um "Carta de recomendação" assinada por pessoas que haviam recebido os artistas em suas cidades. Em alguns casos, como em Iurú, a apresentação ocorreu na própria estação ferroviária, no salão da estação, por não haver cinema ou clube que pudesse recebê-los. Também era comum receberem convite para apresentação em algumas fazendas, em áreas rurais mais afastadas.

Apresentação de Tangará e Andorinha em Iconha, década de 1960, tendo ao fundo o cenário composto por uma pintura em tecido feito por Tangará e que era transportado pelos artistas em uma mala de viagem. Acervo particular: Djanira Pettersen.

Uma carta de recomendação era importante para facilitar a recepção da dupla em novas localidades.

A HORA DA PARADA

Quando Geraldo Silva começou a ter problemas de saúde, não foi possível manter a vida itinerante e os tempos de apresentações terminaram. Dejanira arrumou trabalho em uma fazenda em Batelão da Barra, São Francisco do Itabapoana, onde o casal viveu por alguns anos, antes de se mudar para Bom Jesus do Itabapoana. Hoje, viúva, Dejanira continua vivendo seu tempo de artista nos palcos da memória, onde os aplausos não param. Sempre disposta a nos brindar com suas histórias, essa mulher, que nasceu para a vida artística, nos transporta a um mundo onde o real e o mágico se entrelaçam, e da terra surgem vozes distantes nos contando de um tempo e de um lugar que, afinal, nos trouxeram até aqui.

O SONHO NÃO PODE PARAR

A doença impossibilitou Tangará a continuar em seu contato com o povo em apresentações teatrais. Em uma carta ao radialista, locutor e cantor Gilberto Lima, Geraldo se descreve como "compositor, cantor, violonista e humorista da Velha Guarda" e acrescenta "há 52 anos que realizo shows pelos sertões do meu Brasil". Seu sonho era ter um disco gravado com suas composições, e para isso chegou a enviar cartas solicitando apoio a prefeitos, governador e presidente.

Alguns dos títulos de suas músicas: Exaltação a Petrópolis, Sabiá e João de Barro, Mandamentos das moças, Sapo dentro do saco, Batizado da bicharada, Futebol dos bichos, A mulher e o automóvel, É bonito isso, Flor de maracujá, Ladrão de passarinho, O homem e o cão, Boi amarelinho, Cobra surucucú, Rio Muriaé, Crime de Muriaé, Vida de casado, Cigana, O tatu tá no buraco, Mulher não, Gavião, O vento vai, Alegria de caboclo, Tão lindo não há, Pato e o Marreco, Bicho doido, Por causa do marreco, Vou pra lua, O vento vai, Como é bonito ver, O sapo e o saco, Siri jogando bola, Totó apaixonado (1957), Como é bonito ver (1960), Fiel companheira (1970), Tristeza (1976), Bebê de proveta (1979), Faniquito (1980).

É só mentira (Tangará do Sul)
Geraldo Silva nasceu em Petrópolis (1917)
e faleceu em Bom Jesus do Itabapoana (1984).
Acervo particular: Dejanira Pettersen.

Ah meu compadre
Essa eu vou contá pro povo
Eu vi lá na fazenda
Galo véio botá ovo

A lua tá cheia  (Tangará do Sul)

A lua agora não fica vazia
Tem gente lá
morando noite dia
Pra lua agora
a coisa ficou feia
vai ter que andar
só cheia


Texto: Paula Aparecida Martins Borges Bastos

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