quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Exibição de “A Igualdade é Branca” – 06 de Dezembro de 2016









































Era para ter sido exibido no dia 24 de novembro, mas tivemos problemas técnicos e o longa exibido nessa data foi o excelente “A Fraternidade é Vermelha”.

O filme "A Igualdade é Branca" será exibido no Espaço Cultural Luciano Bastos no próximo dia 06 de dezembro, Terça-feira, às 19h. 






sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Roda Literária homenageia Fernando Pessoa































Nossa Roda Literária terá mais uma edição no próximo dia 07 de dezembro, às 19h30min, no Espaço Cultural Luciano Bastos, e dessa vez o homenageado é o escritor Fernando Pessoa.

Ao longo da programação, em ambiente de muita descontração, os participantes se revezam lendo poemas, tocando música e trocando ideias sobre a vida do autor português e sua importância para a literatura.

A entrada é franca e o programa, imperdível, anote na agenda!


Roda Literária Fernando Pessoa
Quarta-feira, 07/12
Às 19h30min
Local: Espaço Cultural Luciano Bastos

domingo, 20 de novembro de 2016

Silva Monarca, um dos pioneiros da colonização de Bom Jesus


Silva Monarca construiu seu casebre por volta de 1842 na área da atual Praça Governador Portela onde surgiram, posteriormente, os dois prédios centrais da foto. 


















     Manoel da Silva Fernandes, conhecido como Silva Monarca, foi um dos primeiros colonizadores negros que se tem notícia, do que é hoje a cidade de Bom Jesus do Itabapoana.

      O pouco que sabemos sobre ele, nos vem de relatos de Padre Mello (1863–1947) que, ao chegar em Bom Jesus, buscou resgatar a história dos primórdios do lugar a partir do relato oral de antigos moradores.

      E assim ficamos sabendo que Silva Monarca veio de Rio Novo (Minas Gerais) junto com as famílias de Antonio José da Silva Nenem e de Manoel Gomes Alves, português.

      No período de 1842-1850, segundo Padre Mello, a futura Bom Jesus era ocupada apenas pelos ranchos dessas três famílias mineiras. Os casebres, construídos com material da própria mata, eram cobertos de pindoba, e seus moradores desenvolviam principalmente uma economia de subsistência, vivendo da caça e da pesca, envoltos pela mata reinante da região.


Fonte: www.terrabrasileira.com.br

Silva Monarca tinha seu casebre construído em local próximo a atual Praça Governador Portela, nas proximidades de onde, hoje, se inicia a Rua República do Líbano, entre a Bombocado Lanchonete e o prédio histórico, da esquina, que pertenceu ao Coronel Pedro Gonçalves da Silva (Pedroca). 

As outras duas famílias ocuparam área próxima à atual Praça Amaral Peixoto e à ponte de cimento que liga as duas Bom Jesus. 

Como era Silva Monarca? Um homem negro, robusto e bom trabalhador. Essa é a descrição que dele faz D. Francisca de Paula Figueiredo Soares, nascida por volta de 1860 em Bom Jesus, e que conheceu Monarca em sua infância, contando sobre ele vários episódios a Padre Mello. 

Desses episódios, que poderiam trazer mais luz sobre a figura de Silva Monarca, um de nossos primeiros colonizadores, não temos conhecimento. Sabe-se que Padre Mello pretendia escrever um livro sobre os primórdios de Bom Jesus, porém não temos notícia de sua publicação. É de se supor que nesses escritos poderiam estar registradas histórias relativas a um desses primeiros colonizadores mineiros que aqui chegaram na primeira metade do século XIX,



REFERÊNCIAS


MELLO, PADRE. Patrimonio de Bom Jesus (continuação) – Coluna Meu Campinho. In: A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, n. 226, 09 abr 1938.

REVISTA Comemorativa do Centenário da Paróquia de Bom Jesus do Itabapoana, Estado do Rio de Janeiro, Brasil (1862-1962). Tipografia Almeida, Bom Jesus do Itabapoana, 1962.






segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O Movimento Republicano em Bom Jesus

    
Charge de Angelo Agostini: "A Pátria repele os escravocratas". Revista Illustrada













 



     No Estado do Rio de Janeiro, o movimento republicano viveu momentos de grande efervescência no período que antecedeu o 15 de novembro de 1889. Nesse contexto, Bom Jesus do Itabapoana foi palco de um conflito que teve repercussão nacional, envolvendo um dos grandes defensores do regime republicano da época, Nilo Peçanha.

     Com o avanço da campanha republicana após o fim da escravidão no Brasil, formaram-se diversos clubes e centros republicanos no território fluminense. O Clube Republicano de Campos foi criado em 1888, sob a liderança de Nilo Peçanha, que passou a percorrer diversas localidades do extenso município, pronunciando conferências a favor da instalação da república e estimulando a criação de clubes locais1.



1888: Conferência Republicana em Bom Jesus do Itabapoana



    Uma conferência em Bom Jesus do Itabapoana é organizada no mês de outubro de pelos simpatizantes do lugar, sendo anunciada por José Xavier Bastos no jornal Monitor Campista:

     “A população do Bom Jesus do Itabapoana ansiosa aguarda o 21 do corrente, para ouvir a voz autorizada do propagandista republicano Dr. Nilo Peçanha.

        É indescritível o entusiasmo do povo, não só do lugar como das circunvizinhanças. Se o Dr. Nilo Peçanha em outros lugares tem tido bom acolhimento, de certo que guardará com grata reminiscência a atenção com que será ouvido pelos verdadeiros republicanos do Bom Jesus, em número avultado, que associados ao povo saberão condignamente associar uma ideia que a passos agigantados caminha e que em breve terá lançado por terra o já esboroado edifício da estulta monarquia.

       Bem vindo seja o Dr. Nilo Peçanha que, com o fogo do seu talento, saberá convencer a quem duvidar do progredir da pátria quando se emancipar do jugo da monarquia”2.

     E assim, no dia 21 de outubro de 1888, Nilo faz conferência em Bom Jesus do Itabapoana, onde “a maioria do povo é republicana, entrando nesse número as principais pessoas do lugar, tanto conservadores como liberais”3



          Agressão Policial durante a Conferência



     Em determinado momento, porém, a polícia pratica agressão contra alguns dos presentes, o que inicia dias de tensão na região. 


        O Juiz de Paz de Bom Jesus do Itabapoana, Dr. Leonides Peixoto de Abreu Lima relata o acontecido: 

      “Bom Jesus, 22 de outubro. O sr. Dr. Nilo Peçanha realizou ontem aqui uma conferência republicana, falando com muita moderação. Em frente à porta da casa de minha residência a policia agrediu fisicamente o importante fazendeiro Francisco Pinto de Figueiredo por ter aderido à ideia republicana e provocava José Carlos de Campos e mais pessoas pelo mesmo fato. Travou-se um conflito e a policia investiu de rifle contra o povo. O subdelegado de policia que estava presente foi desatendido e espancado pelos soldados. Intervim como primeiro juiz de paz para restabelecer a ordem e fui desacatado pela policia que tentou agredir-me. Fiz dispersar o povo que quis atacar o quartel em desforço das ofensas recebidas. Os ânimos estão exaltadíssimos. Ausencia completa de garantias”4.

        Também Nilo Peçanha explica o ocorrido: 

     “Bom Jesus, 22 de outubro. A autoridade mandou recolher a bandeira que flutuava na sacada do edifício onde realizei a minha conferencia de propaganda republicana. Recolhi a bandeira a pedido das famílias e dos cidadãos que concorreram à conferencia. A polícia, logo que concluí a conferencia, agrediu o importante fazendeiro republicano Francisco Pinto de Figueiredo e provocava o povo porque manifestava o seu entusiasmo pela república. Travou-se um conflito entre a força e o povo. O subdelegado de policia foi esbordoado pelos policiais que trouxeram ordens superiores. Eu e o prestimoso juiz de paz Dr. Leonides Peixoto de Abreu Lima fomos desacatados. Os ânimos estão exaltadíssimos”4.




Destacamento policial de Campos x Apoio republicano de São José do Calçado


      Ciente do ocorrido, o Chefe de Polícia da Província do Rio de Janeiro, Dr. Barreto de Aragão, entra em contato com o delegado de polícia de Campos e ordena a ida do tenente Firmo à freguesia para inquirir o destacamento5. Com a divulgação da notícia do deslocamento do tenente, um grupo de São José do Calçado (ES) parte para Bom Jesus do Itabapoana, a fim de defender os republicanos3.

     Dr. Abreu Lima informa que “Continua a agitação nesta freguesia. Um bando de mais de 100 cavaleiros armados de garruchas e espingardas percorreu à meia noite o povoado em busca da policia vinda da cidade, para desafrontar a agressão feita ao povo. A força, porém, que tinha vindo, já se havia retirado. O povo despertado acolheu os cavaleiros com vivas à republica. Foram dadas descargas no quartel. Os cavaleiros prometeram voltar em maior numero. O subdelegado está impossibilitado para acalmar a indignação do povo. Providencias”6.

     Segundo Dr. Barreto de Aragão, Chefe de Polícia da Província do Rio de Janeiro, os cavaleiros eram em número de quarenta e tantos, procedentes do Espírito Santo, e davam tiros e vivas a república, coagindo a autoridade e tentando assassinar os praças5.

     O clima na região continua tenso, pois vários correligionários republicanos da região apontam que, caso haja a instauração de inquérito realizado pelo subdelegado, haverá invasão do cartório.

     De Campos, o delegado de polícia Comendador João Gonçalves, parte para Bom Jesus do Itabapoana, levando consigo o Capitão Sampaio a comandar 30 praças7, tendo a recomendação do Dr. Aragão de realizar “rigoroso inquérito para punição dos implicados no conflito”. Nenhum outro conflito, porém, é relatado, informando o delegado ter "o arraial restituído à tranquilidade"5.




Manifesto do Clube Republicano de Bom Jesus


No dia 27 de outubro o Clube Republicano de Bom Jesus do Itabapoana divulga no Monitor Campista o seguinte protesto:

     “Aconteça porém o que acontecer: o santuário das nossas ideias é inviolável, aí não tem poder o rifle do esbirro. Que importa que se queira manchar com o nosso sangue, mais uma vez a fronte do Imperador? A monarquia qual Rolemberg cairá sob o peso dos seus próprios crimes, erros e atrocidades. Estamos firmes no nosso posto de honra. Não cederemos uma linha sequer: custe muito embora esta altivez, o sacrifício das nossas vidas e o futuro das nossas famílias! 
Bom Jesus do Itabapoana, 27 de Outubro de 1888 - DIRECTORIA DO CLUB REPUBLICANO – Presidente José Carlos de Campos; Vice-Presidente Francisco Teixeira de Siqueira Sobrinho; Secretario Antonio Simplicio de Salles; Thesoureiro José Xavier Bastos; Procurador Francisco Aquino Xavier”3.



Repercussão Nacional sobre os eventos em Bom Jesus


Na Câmara dos Deputados e na Assembleia Provincial, os acontecimentos em Bom Jesus do Itabapoana são tema de pauta: O. de Campos solicita do Ministério da Justiça explicações sobre a interrupção, realizada pela força pública, da conferência realizada por Nilo Peçanha em Bom Jesus do Itabapoana
8, enquanto o deputado por Campos, Francisco Portella, leva ao conhecimento dos presentes o desacato policial ocorrido em Bom Jesus do Itabapoana9, e pede explicação sobre as providências tomadas sobre o fato7.

Enquanto a ocorrência em Bom Jesus do Itabapoana ganha repercussão em vários jornais do país, Nilo Peçanha se manifesta no Monitor Campista e afirma a continuação de sua jornada em favor do movimento republicano: 

     “Orientada por telegramas insuspeitos e não contestados, a opinião nacional já condenou com severidade os atos de vandalismo da polícia no Itabapoana. E quem há por aí que ingênua e covardemente duvide ter sido o povo na pessoa dos seus maiores o provocado, infamado e fisicamente agredido, pela polícia, um dos poderes independentes e desmoralizados do país? 

     Não me fatigarei porém em demonstrar-se a responsabilidade do desacato que sofreram os republicanos e as consequentes, legítimas e certas represálias, cabe ao sr. Delegado do termo ou ao sr. Subdelegado da paroquia. Tais indivíduos são instrumentos inconscientes de vontade superior, e deles não me ocupo senão para rir-me de sua cegueira e de sua inépcia.
         [...]

     A despeito porém de todo o acanalhamento policial no BJ, o partido republicano ficou ali constituído, tendo a maioria do eleitorado e as simpatias do povo. Agora, uma nota final: Continuo a fazer conferencias no interior e depois na cidade; desafio o poder representado pelos seus esbirros a desacatar-me. Ainda não estou cansado de confiar na altivez e energia cívica dos meus concidadãos. Nilo Peçanha”10.



1889: Nilo Peçanha refugia-se em Bom Jesus


Em 1889, Nilo Peçanha é ferido durante conferência em Lage do Muriaé, indo refugiar-se das forças policiais em Bom Jesus do Itabapoana, desta vez em um de seus distritos. Sobre o local exato em que se abrigou Nilo Peçanha em Bom Jesus, encontramos duas versões: uma indica ter sido em Santana do Arrozal (atual Rosal)1 enquanto outra indica ter sido na Fazenda Boa Fortuna, em Calheiros11.



15 de novembro: instauração da República


No dia 15 de novembro de 1989, dá-se a queda da monarquia e a proclamação da república, havendo a destituição do imperador D. Pedro II. A Presidência é assumida pelos militares, na figura do Marechal Deodoro da Fonseca.




Telegramas de Ribeirão do Pirapetinga: família Boechat saúda Marechal Deodoro




Doze dias após a proclamação da república, o jornal Cidade do Rio publica telegramas recebidos de Ribeirão do Pirapetinga, freguesia de Bom Jesus do Itabapoana, saudando o Governo Provisório:

     “Tenham paciência, mas deixem-nos transcrever, integralmente, estes telegramas, dirigidos ao chefe do Poder provisório; tenham paciência, repito.

     «Estados Unidos do Brasil – Telegramas ao cidadão marechal Deodoro da Fonseca. – Capital. 
Os abaixo-assinados, saúdam ao marechal e seus dignos companheiros, o Governo provisório, pelo ato do dia 15 de novembro, o mais brilhante da História contemporânea do Brasil, que trouxe a regeneração da nossa Pátria.
Os mesmos aderem à Republica dos Estados Unidos do Brasil, cheios de prazer e com todo o entusiasmo.
Viva o Governo Provisório.
Viva o Exercito d’Armada.
Viva a soberania do Povo.
Viva Saldanha Marinho!
Vivam as classes acadêmicas!
Francisco Boechat. José Maria Boechat. Leopoldo E. Boechat. João E. Boechat. João Pedro Lemgruber Junior. Henrique José Boechat. Norberto E. Boechat. Nestor Boechat. Eugenio Henrique Boechat. Antonio José Boechat. Julio Augusto Boechat. 
Estado do Rio de Janeiro – Ribeirão do Pirapetinga, freguesia do Bom Jesus do Itabapoana, 23 de novembro de 1889.»


     «Rio – Saldanha Marinho – Saudamol-o pelos seus esforços em prol da regeneração da Patria. 
Leopoldo Boechat & Irmão. Raul E. de Souza, R.H.S. , Eugenil H. Boechat, Francisco Boechat, Julio Augusto Boechat. Bom Jesus do Itabapoana, Ribeirão do Pirapetinga, 23 de novembro de 1889.»



Pedimos, por favor, que nos comuniquem se existe mais algum Boechat, no Brasil, para agrega-lo à lista ut-supra. Mas desde já protestamos; porque são muitos Boechats para um Deodoro só.


Agora, falando sério, essa família tem para nós um mérito: o de lembrar-se do velho Saldanha Marinho, digno, no nosso entender, de um bocadinho de menos esquecimento ou de menos ingratidão. 12




As Contradições do recém criado regime republicano no Brasil


      Esses são alguns dos acontecimentos em nossa região envolvendo a passagem do regime monárquico para o regime republicano. As condições e interesses envolvidos nesse período de transição têm sido objeto de pesquisa de muitos estudiosos como Laidler (2010), que indicam que “o regime republicano no Brasil nasceu em meio a contradições fundamentais. Correspondia, a um só tempo, ao movimento de ideias que via a república como a possibilidade de construção de um sistema de maior participação política e de real representação de interesses, às pretensões de setores que respaldavam economicamente o Estado e que viam, no novo regime, a possibilidade de ampliar o poder local e garantir sua autonomia, e às ambições dos militares de expandir o seu papel na política nacional”13.

     Essas contradições também se manifestam em nossa região, e um exemplo está na sequência dos acontecimentos pós 15 de novembro: Bom Jesus do Itabapoana, freguesia de Campos, foi alçado à condição de município em 24 de novembro de 1890 (com o nome de “Itabapoana”), através de ato do presidente da Província do Rio de Janeiro, Francisco Portela. Menos de dois anos depois, em 08 de maio de 1892, quando assume a presidência da Província o sr. José Tomaz Porciúncula, este emite Decreto extinguindo a autonomia do município, que passa a condição de distrito do município de Itaperuna14.




Octacílio de Aquino: Éramos Assim



Um resumo de toda essa história foi escrito por Octacílio de Aquino, em crônica de 1943, intitulada “Éramos Assim”:

     “Em 1888 formávamos aqui, aqui em Bom Jesus, o nosso Clube Republicano. E já em outubro ouvíamos, por entre escaramuças com a política, uma conferência de Nilo Peçanha, propagando os princípios, que já então marcavam os derradeiros dias do Império. Sabíamos defender ideias e convicções. Púnhamos em prova a fibra de verdadeiros soldados. Descíamos às ruas para o batismo de sangue, a que o nosso entusiasmo não fugiu.

     Obrigávamos a retroceder, fazendo-os reentrar, vencidos, no quartel, destacamentos inteiros, que se haviam desmandados em torno das tribunas, para espaldeirar o povo e desacatar juízes. E sofremos as garrafadas, processo posto em voga pelos chamados redentoristas contra os repúblicos vibrantes, arregimentados na fina flor das escolas, das profissões, e das letras.

     A história que se desenrolava por todas as Províncias falava em Bom Jesus também, fixando nomes para todo o sempre caros à nossa grande saudade, ao sacrário das nossas famílias, a cuja sociedade que representamos”15.





REFERÊNCIAS


1 PEÇANHA, CELSO. Nilo Peçanha e a Revolução Brasileira. Emebê Editora: Rio de Janeiro, 2 ed., 1978.
2 Reunião Republicana. In: Monitor Campista, Campos, RJ, 12 out 1888.
3 Em busca de Canaã. In: O Cachoeirano, ES, 11 nov 1888.
4 Conferência Republicana. In: Jornal O Monitor Campista, 23 out 1888.
5 Gazeta da Tarde, 27 out 1888.
6 Agitação no BJI. In: Monitor Campista, 26 out 1888.
7 Agitação em BJI. In: Monitor Campista, 30 out 1888.
8 Diário das Câmaras, Câmara dos Deputados, 24 out 1888.
9 Assembleia Provincial. In: Diário de Notícias, 24 out 1888.
10 Conflitos no BJ. In: Monitor Campista, 27 out 1888.
11 Sessão do ILA revela fato histórico desconhecido da historiografia. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana (RJ), 21 mai 2015. Disponível em http://onortefluminense.blogspot.com.br/2015/05/sessao-do-ila-revela-fato-historico.html
12 Cidade do Rio, 27 nov 1889.
13 LAIDLER, CHRISTIANE VIEIRA. Disputas Oligárquicas e Participação Popular na República Velha. In: Anais do Colóquio Nilo Peçanha e o Rio de Janeiro no Cenário da Federação. Org: Andréa Telo da Côrte. Niterói, RJ, Imprensa Oficial, 2010, p. 39-57.
14 BASTOS, LUCIANO AUGUSTO. De Município a Distrito: Primeira Emancipação de Bom Jesus do Itabapoana (1890-1892). Coleção Histórias de Bom Jesus v.1: Bom Jesus do Itabapoana, 2008.
15 AQUINO, OCTACILIO. Antologia. Editada por Delton de Matto, Rio de Janeiro. 2 ed., 2013.





quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Cemitérios em Bom Jesus





















A forma como se cultua e reverencia os mortos reflete os aspectos culturais de um povo. Os rituais dos puris e coroados, habitantes comuns nas paragens do Vale do Itabapoana em séculos passados, seguiam hábitos e costumes distintos daqueles que foram instalados na região pelos colonizadores que aqui chegaram no século XIX. Com estes últimos se deu início ao ritual de sepultamento dentro ou próximo de capelas e igrejas, sendo posteriormente esse hábito sido substituído pelo enterro em cemitérios.

Os primeiros habitantes do povoamento de Bom Jesus foram sepultados junto à Capela de Santa Rita, construída em 1853, no denominado Alto de Santa Rita (atual Praça Amaral Peixoto).


Alto de Santa Rita (seta amarela): local onde os primeiros habitantes de Bom Jesus foram sepultados.



















Na última década do século XIX, quando deu-se a primeira emancipação de Bom Jesus (1890-1892), constam nas atas da Intendência, segundo Luciano Augusto Bastos, a existência de quatro cemitérios no então 1º Distrito: um público (localizado no povoado, atual Bom Jesus) e três particulares (localizados nos atuais Carabuçu, Pirapetinga e Serra do Tardin):

O Cemitério Público do povoado estava localizado em Bom Jesus, tendo por Inspetor, em 1890, o Sr. Antonio José dos Santos Lisboa, que, ao assumir o cargo, prestou juramento ante a municipalidade. Em 1892 o cargo de Inspetor passou a ser ocupado pelo sr Rodozino Rodrigues da Silva.

Em Carabuçu, o cemitério particular São João Batista, estava localizado na Serra da Liberdade, na fazenda pertencente aos herdeiros do então falecido Jacob Furtado Mendonça. Nos anos de 1890 e 1891, foram Inspetores do Cemitério o sr. João Climaco Barroso e o sr. Antonio Vicente Pereira, respectivamente.

Em Pirapetinga, o cemitério particular estava localizado na Fazenda do sr. João Pedro Lemgruber, sendo este o próprio Inspetor do cemitério.

Na Serra do Tardin, o cemitério particular tinha por Inspetor o sr. Francisco Tardin.

                     
Antigo Cemitério na Serra do Tardin. Foto: Blog Jornal O Norte Fluminense, 2016


Antigo Cemitério na Serra do Tardin. Foto: Blog Jornal O Norte Fluminense, 2016


O 2º Distrito da época da Primeira Intendência, Santo Antonio do Itabapoana (atual Calheiros), possuía cemitério com inspetor específico para o local.

Os cemitérios refletem seu tempo histórico, como atesta o enterro do Padre João Mendes Ribeiro: atuando na paróquia de Santo Antonio do Itabapoana desde 1867, por ser negro, não foi enterrado no cemitério local, mas sim em área de mato próxima ao cemitério. No ano de 2007, a população procedeu um desagravo ao ocorrido, e os restos mortais do Padre foram trasladados para a Capela de Santo Antonio, em Calheiros, 120 anos após sua morte.
                                  
Antigo Túmulo do Padre João Mendes. Calheiros. Foto: Jornal O Norte Fluminense (2007)




Em Bom Jesus do Itabapoana, sede, o primeiro cemitério que se tem notícia existiu no Alto de Santa Rita. Quem nos dá informação desse cemitério é Romeu Couto, em crônica intitulada "O cemitério no Alto de Santa Rita", publicada originalmente no jornal A Voz do Povo:


       O Alto de Santa Rita, por exemplo, já foi um silencioso e melancólico cemitério. O seu terreno, agora, profanado por nossos pés pecadores, já serviu de abrigo a centenas de corpos sem vida. Ainda hoje, quem se der ao trabalho de revolver algumas camadas de terras daquele local, poderá inteirar-se de sua santa utilidade em tempos idos. Tíbias, crânios e costelas encontradas em tais pesquisas, constituirão testemunho desta minha afirmativa.

Nesse cemitério existiam dois gigantescos eucaliptos, tendo sido um cortado a golpes de machado, enquanto outro ainda deslumbrava por seu porte quem por ali passava na década de 1930.

Quando terá sido desativado esse cemitério não podemos afirmar, mas segundo Padre Mello, em 1891 já existia um cemitério no Monte Calvário, estando este, no ano de 1899, um verdadeiro "capoeirão". 

Mediante tal situação de abandono, relata o Padre ter assumido para a Paróquia a responsabilidade e cuidado pelo cemitério, com apoio de várias pessoas da comunidade.


Em 1930 já existia um "Cemitério Novo" (o atual cemitério de Bom Jesus), em oposição ao ainda existente "Cemitério Velho" (no Monte Calvário), o que gerou algumas críticas e desagrados, como podemos observar em artigo assinado por Carvalho Junior no jornal A Voz do Povo:


           O cemitério velho é triste no seu abandono. É um cemitério que se aposenta; seu terreno sagrado, dentro em breve, tornar-se-á área construtiva. Em um futuro bem próximo, ali teremos novas praças com seus jardins, e ruas com casas a grimpar pelas encostas do Monte Calvario. Por sobre os túmulos dos que ali repousam, pisarão animais, rolarão veículos e passarão transeuntes na indiferença egoística de sua felicidade. É uma ironia bem triste à paz da morte e ao sono calmo da tumba!


Em 1935 os dois cemitérios, velho e novo, ainda coexistem, como podemos depreender de artigo de Romeu Couto, publicado originalmente no jornal A Voz do Povo, intitulado "Cemitério Novo", apontando as diferenças entre o cemitério "de cá" e o "de lá":

           E no dia da festa, dos que deixaram de viver, no dia de finados? A necrópole de cá é toda movimento. As flores, onde se encontra, até aí, a diferença da sorte, deixam um ar impregnado de um odor cheio de doce tristeza, tristeza essa mais comovente por causa da luz cadavérica desprendida das mil-e-uma velas piedosamente acesas. A gente, enlevado, ouve até o cantochão. Lá, não há festa. Os poucos moradores não se dão ao luxo de tal solenidade. É por isso tudo que os defuntos gostam mais de morar do lado de cá. Aqui há conforto, visitas e outras cousas que constituem a felicidade do homem morto.

Hoje, no século XXI, os resquícios dos cemitérios antigos do Alto de Santa Rita e do Monte Calvário encontram-se imersos sob a terra, e em documentos e imagens que iluminam nossas memórias sobre tempos e pessoas que aqui permanecerão para sempre.


BIBLIOGRAFIA

BASTOS, LUCIANO AUGUSTO. De Município a Distrito: Primeira Emancipação de Bom Jesus do Itabapoana (1890-1892). Coleção Histórias de Bom Jesus v.1: Bom Jesus do Itabapoana, 2008. 115p.

COUTO, ROMEU. “Primavera do poeta” e mais 89 crônicas de Romeu Couto. Editadas por Delton de Mattos, Rio de Janeiro: Textus, 2004.

PE. JOÃO MENDES RIBEIRO, O PADRE NEGRO. Jornal O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 06 jul 2007. 

CARVALHO JUNIOR. O Cemiterio Velho. In: Jornal A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 01 nov 1930.

PADRE MELLO. O Cemiterio Velho. In: Jornal A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22 nov 1930.



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Irmãs pianistas fazem Recital no ECLB


Ana Luiza Xavier

Eliza Xavier

O Espaço Cultural Luciano Bastos promoveu, na sexta-feira (28), o Recital de Piano com as irmãs e pianistas Ana Luiza Xavier e Eliza Xavier. O evento aconteceu no Auditório do ECLB.

O recital contou com a participação especial da Professora e Diretora da Escola de Música Cristo Rei, Marise Xavier, avó das jovens pianistas, e de Rômulo Setenareski Lopes.

A apresentação trouxe grandes clássicos, incluindo obras de Carlos Gomes, Zequinha de Abreu, Bach, Chopin, Mozart e Beethoven.

Eliza e Ana Luiza começaram seus estudos de piano ainda pequenas, aos quatro anos de idade, com a avó Marise Figueiredo Xavier, sempre participando de audições musicais promovidas pela Escola de Música Cristo Rei.


Marise Figueiredo Xavier

Rômulo Setenareski Lopes








A Liberdade é Azul: Cinema no ECLB



Estreou no dia 27/10, no ECLB, o I Ciclo de Exibições e Discussões Cineclube Debates - Espaço Cultural Luciano Bastos (I CEDCEC), com a apresentação do primeiro filme da Trilogia das Cores, de Krzvstof Kieslowski, "A Liberdade é Azul".

Após a exibição, o público presente compartilhou vivamente suas impressões e reflexões sobre o filme, permitindo a todos perceberem a riqueza e diversidade das abordagens que um clássico cinematográfico pode proporcionar. Aspectos filosóficos, históricos e comportamentais foram alguns dos temas destacados pelos participantes.

O debate foi mediado pelo professor de filosofia do IFFluminense, Rafael Tardin, que destacou no filme a possibilidade de "olhares sobre a liberdade e suas implicações em meio a vida humana". 

Confiram abaixo a íntegra do texto "Um olhar com cuidado sobre 'A Liberdade é Azul', de Kieslowski", de Rafael Tardin. 
                          





Um olhar com cuidado sobre "A Liberdade é Azul" de Kieslowski.

Rafael Tardin*

Enquanto proposta, o I Ciclo de Exibições e Discussões Cineclube Debates – Espaço Cultural busca promover um contato mais íntimo entre imagem e pensamento, cinema e reflexão, onde pessoas possam compartilhar de suas apreensões, ideias e emoções num ambiente livre e democrático.
O cinema então se apresenta como um pretexto para o encontro de olhares apurados sobre as entrelinhas da existência, no caso do primeiro filme exibido (“A Liberdade é Azul”) no I CEDCEC, olhares sobre a liberdade e suas implicações em meio a vida humana.

A premissa ou ponto de partida do filme é uma perda que implica à Julie uma liberdade forçada. Sem sua família, ela se vê desprovida de laços que, ao mesmo tempo que cativam sua existência, delimitam suas ações sempre numa direção de abandono de si em detrimento do compartilhamento do tempo livre com os mesmos. Ela se depara com um tempo livre que converge em tempo para si. Tempo esse de liberdade e, na mesma medida, de solidão. Nesse sentido, uma constatação emerge desse paradoxo: diante da perda há sempre um ganho. 

Não se trata de um ganho desejado, mas de um ganho imprevisível e incontrolável, que brota de dentro de cada evento ou fato compartilhado por nós em nossa existência, que parece efêmera e poderosa na película de Kieslowski. Desprovida do contato com seu marido e sua filha, Julie tem seus laços rompidos. Laços esses que sobrevivem em sua memória que teima em arrastá-la para uma dor profunda, prova de humanidade máxima, que é o sentimento de ausência. Perda essa irreparável, incontrolável, irreversível. Sua humanidade lhe trai. Diante da mesma, desaba e tenta acabar com o jogo. 

O fracasso de seu suicídio condiciona sua existência para uma situação além: incapaz de se matar, Julie (sobre)vive no embate constante de (re)significar sua relação com as pessoas, com a vida e com as coisas. Mesmo não procurando um novo sentido para sua existência, Julie se encontra a mercê da busca. Há como viver desprovido de qualquer laço?

Naquela condição, Julie percebe que as adversidades e os infortúnios da vida acabam ganhando tons irônicos. Em dias normais, ficar presa fora de sua casa ou apartamento numa noite fria poderia ser motivo de transtorno, raiva ou desespero. No entanto, após se deparar com o maior dos infortúnios, qualquer perda não impacta tanto assim. Cada nova adversidade é uma experiência inédita, pois é isso que ela constata no dia seguinte após sobreviver ao acidente: um novo dia, uma nova experiência. 

Não se trata de amar os infortúnios da vida, e sim de uma certa resiliência que de uma forma ou de outra é vida, é ganho. Até mesmo diante do infortúnio se ganha algo, pois não há como não ganhar: vida é transformação pura, nada se perde integralmente, tudo se transforma num fluxo de novos sentidos e significados.

A resiliência que se ganha é a tranquilidade do "deixar a vida bater (pelo menos naquele momento) pois não há o que fazer". Tranquilidade que é o render-se ao determinismo da vida sobre nós. Determinismo esse que se revela na falta de controle sobre as coisas que sempre nos escapam. Liberdade? Há liberdade diante das imensas possibilidades de eventos e fatos nos ocorrerem? Podemos controlar quando seremos felizes, tristes, ou quando coisas boas e ruins irão nos acontecer? Abdicar do controle sobre a vida é uma demonstração de resiliência que poucos conhecem. 

Quando abdicamos do controle nos libertamos do medo. Perdemos o medo da perda: o infortúnio não assusta tanto. A dor, as adversidades não nos machucam tanto. Nos tornamos resistentes à vida ao senti-la em sua máxima força nos momentos de perda. Quando algo nos é tirado, deparamos com o vazio natural que é ausência de sentido. 

A contribuição deixada para nós pelos eternos investigadores (filósofos) é que sempre estamos em busca de sentido. Não nos contentamos com sua ausência, pois é na presença de sentido que damos o passo inicial para construirmos as coisas que são importantes para nós.

Diante da perda há sempre um abalo, e nele um equívoco. Buscamos um parâmetro para o recomeço, que não é um novo início e sim continuidade. Lidar com os momentos de adversidade enquanto pontos de partida para novos ciclos é ignorar o seguinte fato: que faz parte de um mesmo ciclo os momentos de adversidade. Para a Filosofia, o sentido da crise não é a de apenas ruptura, mas sim de transição. Processo esse exemplificado na vida por meio do movimento incessante de destruição e construção de sentidos: estar vivo é se fazer presente na ausência de sentido, pois quando (se) tudo fizer (fizesse) sentido não haverá (haveria) mais necessidade de mover-se para além dele.

Não nos conformamos com aquilo que não tem sentido, logo que queremos sempre tornar seguro terrenos hostis que podem esconder os grandes mistérios da vida e do universo. Julie opta pelo desapego. Tenta, em vão, não construir laços, pois os vê como armadilhas, oportunidades para a dor entrar. Nesse processo, o desapego revela o valor material como mero detalhe. Revela que o valor da matéria não vem da matéria e sim de nós! O que se revela no desapego material não é a falsidade ou superficialidade que tais coisas representam e sim o processo pelo qual nós percebemos que o valor dado às mesmas vem de nós e não das coisas: uma laranja é fruta, mas para o garoto que anseia em jogar bola com os amiguinhos e não a tem (bola), laranja se torna bola. Afinal, o que é então a laranja? Fruta ou bola?

No desapego de Julie é possível perceber seu apego a certa esperança: a de que é possível viver sem ser triste. Novamente, não há como não ganhar nada. Em cada lágrima que derramamos ganhamos, na mesma medida, algo. Cabe a cada um de nós olhar com cuidado sobre as mesmas e lá, em algum lugar, encontrar aquilo que é só nosso. Um presente, um tesouro, um aprendizado. Mesmo que não se queira, há sempre um ganho na perda.

* Professor de Filosofia / Coordenador do Projeto de Extensão Cineclube Debates - Instituto Federal Fluminense