domingo, 3 de março de 2013

D. Amélia Gomes de Azevedo: uma escritora no Monte Himalaia


Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é justo fazer homenagem a uma escritora de nossa região, praticamente desconhecida por muitos. Sobre esse tema já mencionava o Sr. Antonio de Souza Dutra, no jornal A Voz do Povo, de 23/04/1966:
 .

D. Amelia Azevedo

A. Sousa Dutra

Escritora e romancista Campista, injustamente esquecida entre nós, onde residiu por muitos anos, D. Amelia Gomes de Azevedo, filha do fazendeiro Jacintho Antonio de Azevedo e esposa do também fazendeiro João Lucas da Costa, nasceu a 15 de Abril de 1866 na fazenda do Monte Himalaia, distrito de Limeira, 15 º do município de Campos a que pertencia todo o território do nosso e do de Itaperuna.

Fez seus estudos na Côrte, como, então, era chamado o Rio de janeiro, iniciando-os aos 9 anos, como interna em um dos melhores colégios ali existentes. 

Para se chegar ao Rio a viagem era feita a cavalo de "Monte Himalaia" até Campos e dali até São João da Barra, onde se tomava um vapor para lá destinado. 

Foi assídua colaboradora do "Jornal do Comércio" em 1891 e do "Monitor Campista" em 1892, onde estampou a quase totalidade de seus trabalhos em português. 

Escrevendo em francês tomou parte em concursos disputadíssimos da revista "Les Causeries Familières" de Paris, tendo obtido o primeiro prêmio (Medalha de Ouro) no primeiro e no seguinte o segundo, causando grande admiração em um dos redatores o ter recebido de "um paiz tão longínquo páginas escritas em francês tão correto". 

Em 1894 publicou seu livro "Rumorejos do Himalaia" no qual enfeixou seus principais trabalhos em português e em francêz, e em 1896 seu romance "Mercedes", cuja ação se desenrola em uma praia campista que ela descreve com muita arte e minudência. 

A ilustre escritora que, como se vê, muito contribuiu para a difusão de nossa literatura no maior centro cultural do mundo que era, então, Paris, faleceu em 24 de setembro de 1929 aos 63 anos na fazenda de "São João", vizinha do "Monte Himalaia", então propriedade de seu esposo João Lucas da Costa. 


De seu talento disse Silvio Fontoura, que não foi pródigo em elogios: 

"D. Amelia é um dos mais radiosos talentos femininos no Brasil, o que há manifestado exuberantemente no "Mercedes", trabalho de um estilo leve e harmonioso em que transparece também sua alma feita de lírios olorando as outras almas submissas dos escravisados de outrora". 
  

Acervo: Espaço Cultural Luciano Bastos
Dedicatória de D. Amelia Gomes de Azevedo a seu pai,no livro "Rumorejos do Himalaia"

 



"Rumorejos do Himalaia" faz parte do acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos. Neste livro estão reunidos escritos publicados pela autora no Monitor Campista e na Gazeta Itaperunense, além dos premiados textos escritos em francês para a Revista Les Causeries Familières.

A apresentação do livro foi realizada por Affonso Celso, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em que aponta sobre a autora:



"basta dizer-vos que, solteira, em plena mocidade, privada de seu pae, administra com admiravel tino e energia um importantissimo estabelecimento agricola que d'elle herdou; conhece tão superiormente, como o proprio, varios idiomas estrangeiros; serve-se da palheta com verdadeira perfeição artística, escreve deliciosas composições, em que a correcção da fórma só é ultrapassada pela elevação do pensamento..."



  Sobre temas universais (guerra, exílio, as navegações), a autora construiu personagens masculinos que apontam para o reconhecimento da dignidade do universo familiar. À mulher reivindica-se sua importância histórica, como no escrito de 12 de outubro de 1892, em que não por acaso, ao final de "Christovão Colombo", lemos:
   
   Chistovão Colombo, o heróe por tanto tempo desconhecido e hoje acclamado, venceu, porque o coração generoso e magnanimo de uma mulher não repudiou suas aspirações, e, confiante como elle, estendeu-lhe mão protetora, murmurando-lhe também: - "Vai, confia!"
      Essa mulher chamou-se Isabel 

   O que impressiona em seus escritos é a maturidade com que abraçou o estilo romântico, tão em voga em seu tempo. 

  É nos escritos em francês, participando de concursos literários, que a especificidade regional e brasileira desponta, com as construções dignas de nosso romantismo: a natureza é exaltada em sua grandiosidade e até um velho índio sobrevivente vem contar sua história de fuga e extermínio. Não por acaso encontramos também Gonçalves Dias cantando o sabiá de nossas terras.

   Para os que buscam na literatura um pouco de história e crônica social, D. Amélia nos brinda com "Três dias no Himalaia". Escrito em francês em 1893, recebeu o primeiro prêmio no concurso literário Causeries Familières em Paris.

  Abaixo segue um trecho em transcrição livre, onde a personagem  descreve uma visita à fazenda produtora de café no Monte Himalaia. Após passarem pelas instalações onde estão as máquinas para o trabalho industrial onde se prepara o café para venda, visitam as casas dos colonos:

   Essas casas são bastante grandes, divididas em quatro ou seis partes, de acordo com o comprimento; e cada família, de acordo com o número de pessoas que possua, ocupa de 4 a 6 quartos, vivendo independente de seus vizinhos. Esses colonos são portugueses, e como era domingo e estávamos sendo esperados, suas casas estavam adequadamente arrumadas. Na sala, onde em geral são recebidas as visitas, se encontra sobre uma mesa encostada à parede a imagem de uma santa de sua devoção, cercada de vários objetos que as crianças gostam de colocar para enfeitar a mesa, tendo ao lado duas longas folhas de palmito, palmeira natural da terra.
   [...]
  Nas maiorias das fazendas, esse é o sistema adotado pelos proprietários rurais: as famílias que trabalham e que, ao fim do ano, dão ao proprietário a metade do que conseguem com a venda do café. A colonização europeia está em todo lugar; ela substituiu a escravidão subitamente interrompida por um ato do governo. Ainda que possa parecer que os proprietários rurais possam estar descontentes com a mudança, isso não ocorre, pois eles têm mais tranquilidade e liberdade que no tempo da escravidão, quando suas vidas estavam geralmente nas mãos dos escravos (...).