sábado, 21 de janeiro de 2017

Patrono do ECLB, Luciano Bastos faria 89 anos neste sábado

                          

Este ano marca os 89 anos de nascimento do dr. Luciano Bastos. Nascido a 21.01.1928, em Carangola, MG, o decano dos advogados de nossa cidade morreu aos 83 anos, no dia 08 de fevereiro de 2011, em Bom Jesus do Itabapoana, que o acolheu desde os 5 anos de idade.

Nosso patrono - aquele apaixonado pela advocacia, lutando sempre pelos direitos individuais e coletivos, continua atual.

A atualidade de Luciano está nas suas ideias, nas lições do homem público, do advogado, professor e jornalista; nos conceitos de ética, moral, justiça, direito; nas instituições que ajudou a idealizar e concretizar em nossa terra.

No dia 22.08.1993, o jornal O Norte Fluminense estampou numa de suas páginas uma reflexão do dr. Luciano Bastos na passagem do Dia do Advogado, "Luta pelo Direito", que transcrevemos a seguir:




                          Luta pelo direito

      Todos nós vivemos um drama constante quando o nosso direito é violentado. O que fazer? Aceitar pacificamente, resignar-se sob pretexto íntimo de comodidade? Ou reagir ante a violência, embutida sob vários atos e aspectos?

      Os ataques ao direito individual, e mesmo coletivos, se repetem frequentemente. Jhering, em suas convicções, dizia que não preconizava a luta pelo direito em todas as contendas mas somente naquelas em que o ataque ao direito implica conjuntamente um desprezo da pessoa. A condescendência, a resignação, a suavidade e o amor da paz, a transigência e até a renúncia a fazer valer o direito de qualquer pessoa é de ser aplicado. Repele unicamente a indigna tolerância de injustiça, que é o efeito da cobardia, da indolência, do amor ao descanso.

     Quando o arbítrio e a ilegalidade se aventuram audaciosamente a levantar a cabeça, é sinal certo de que aqueles que tinham por missão defender a lei não cumpriram o seu dever. E, afirma o mestre citado, que quem defende o seu direito defende todo o Direito. O interesse e as conseqüências do seu ato dilatam-se além de sua pessoa. E arremata que a paz é o fim que o direito tem em vista, a luta é o meio de que se serve para o conseguir.

      Nesta hora tão conturbada em que todos vivemos, nos entre choques das lutas e das paixões, cabe até lembrar Sobral Pinto: “Nos momentos de crise, o difícil não é cumprir o seu dever; é saber onde é que ele está.“

     Na passagem do Dia do Advogado, abraçando cordialmente os meus colegas, levo-lhes estas reflexões, e que estendo a todos que convivem em nossa comunidade.


                                         



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

"Parker 51": Neumar Monteiro relembra o Ginásio Rio Branco



Da escritora e poetisa Neumar Monteiro, reproduzimos texto postado nas redes sociais: “Parker 51”, em que relembra a época em que estudou no Ginásio Rio Branco.





UMA PARKER 51
  

Neumar Monteiro, Nov. 2006

Há dias escrevi a crônica “Uísque com Guaraná”, quando retirei do baú da memória saudosas imagens dos anos sessenta e setenta. Um fio puxa o outro, e lá vieram recordações ainda mais antigas que muito me emocionaram. Lembrei-me das elegantes canetas-tinteiro, dos clássicos lápis Johan Faber e dos inesquecíveis papéis mata-borrão, usados para absorver o excesso de tinta que ficava do uso das canetas-tinteiro.
Nunca possuí uma caneta-tinteiro, pois crianças só escreviam com lápis sob pena de ficar de castigo. Papai tinha uma, bem como o senhor da Tipografia e o dono do armazém em que fazíamos compras, que ficavam no bolso da camisa dando - lhes imponência e um certo ar aristocrático. Homem elegante usava Parker 51, sonho de consumo de todo jovem alguns anos depois.
É bom resgatar essas páginas perdidas. Sentir, ainda hoje, o cheiro de caderno novo encapado com papel-manteiga, mais tarde substituído pelo papel jornal. E as caixas de lápis, para desenho, de 24 cores? Uma cobiça nunca realizada! Caros demais para as mãos da criança pobre. Até hoje fico fascinada quando vejo alguma. Culpa da infância descolorida e desbotada.
Dos primeiros anos do colégio Rio Branco então chamado Ginásio Rio Branco, lembro-me dos famosos “combates” realizados aos sábados pela manhã, que consistiam na divisão da turma em dois partidos, debatendo, um contra o outro, sobre determinada matéria ensinada durante a semana. À turma vencedora cabia um Mapa-Múndi ou caixas de lápis de seis cores. De cada sabatina saíamos mais afiados, aptos a repetir, no decorrer da vida, as lições aprendidas tantos anos antes.
Até as carteiras eram especiais, por possuírem um orifício para acomodar o tinteiro, usado, por nós, como depósito de borrachas ou giletes. Recordo-me, também, dos nomes escritos nas carteiras, às vezes de conteúdos menos elegantes que coravam as meninas e provocavam a ironia dos meninos. Certo é que algumas estampavam inocentes declarações de amor dos enamorados da sala. Era terrível e gostoso desnudar, aos olhos da turma, sentimentos guardados a sete chaves. A vergonha era tanta que doía com dor de queimar por dentro. Assim é como posso descrevê-la.
Tudo é passado, mas não perdido. Até hoje busco os ensinamentos daqueles tempos para aplicação no dia-a-dia. Da Literatura dos bancos escolares sorvi o gosto e conheci autores famosos. Do Latim do Dr. Ilis Carlos Machado ao Português do Dr. José Ronaldo do Canto Cyrillo, um universo de conteúdos sempre atuais, conquanto ministrados décadas atrás.
De tudo que vi aprendi um pouco, o que me faz cidadã capaz de contornar muitos conflitos, respeitar diferenças e sobreviver com dignidade num mundo de tantas inconveniências. No mais, passo um mata-borrão na saudade enquanto escrevo com a minha Bic azul estas mal traçadas linhas que, certamente, seriam bem melhores se redigidas com uma autêntica e poderosa Parker 51.



   
        Neumar Monteiro. Aluna e Professora do Colégio Rio Branco.                          Foto: Cris Izidoro / Diadorim Ideias


A poetisa Neumar Monteiro da Silveira, autora de Devaneios (2003) e Sempre a Primavera (2011) herdou o gosto pela literatura, e em especial pela poesia, de seu pai, o poeta parnasiano Athos Fernandes.
Filha mais nova, ela acompanhava o pai a todos os compromissos, principalmente aos relacionados à literatura. Desde sempre, ela escreve onde estiver, em qualquer papel. "A inspiração vem do nada e, ao mesmo tempo, de tudo o que está à minha volta. A emoção pode brotar de um simples olhar, até mesmo de um animal", conta. 
A poesia de Neumar fala sobre as agruras da vida, os sonhos irrealizados e as recordações do tempo de criança. A mais recente obra foi um desafio: escrever e ilustrar o haicai Sempre a Primavera. Neumar buscou na arte milenar japonesa a inspiração para compor 63 pequenos poemas, todos em três versos, que falam de gestos, astros, pássaros, caminhos, sonhos e esperanças. 


Texto reproduzido do facebook da autora:

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Folia de Reis do Estado do Rio de Janeiro e o Patrimônio Cultural Brasileiro


Encontro de Folia de Reis em Muqui, 2011. 
Considerado o mais antigo do país, ocorrendo desde 1950, o evento reúne grupos de reisado fluminenses, capixabas e mineiros que, além de receberem a benção na Igreja, percorrem as ruas do centro histórico da cidade.


O reconhecimento da Folia de Reis do Estado do Rio de Janeiro como Patrimônio Imaterial Brasileiro está em estudo no IPHAN, que recebeu, em junho de 2016, o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) das Folias de Reis do Estado do Rio de Janeiro, realizado pelo Departamento Cultural (Decult) da UERJ, demonstrando a importância dessa manifestação cultural fluminense para nosso país (1)


 40 ANOS ATRÁS: IV ENCONTRO DE FOLIAS DE REIS EM BOM JESUS DO ITABAPOANA

      
    Em Bom Jesus do Itabapoana, a Folia de Reis sempre esteve presente junto à população, permanecendo na memória de seus moradores como uma das mais destacadas manifestações culturais da região
(2).

Um desses momentos memoráveis nos remete a 40 anos atrás, quando Bom Jesus do Itabapoana (BJI) sediou o IV Encontro de Folias de Reis (3). O evento ocorreu nos jardins da Praça Governador Portela, em frente a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus, onde estava montado um presépio e um palanque. Ali se reuniram e apresentaram diversas Folias de Reis no dia 06 de janeiro de 1977.

Dentre os atos iniciais, o Mestre-Folião Sr. Fernando Amaral, pediu a todos "minuto de silêncio" em memória dos foliões já falecidos.

Em seguida as Folias de Reis se apresentaram, cantando e louvando o nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos. Depois foi a vez dos Palhaços realizarem suas décimas e malabarismos, numa alusão ao simbolismo relacionado com o Rei Herodes. As apresentações estiveram sob direção do Sr. Eneas da Silva Pinto, Coordenador da festividade.

A Classificação das Folias e Palhaços foi a seguinte:

FOLIAS DE REIS


1° lugar: Folia de Reis Nossa Senhora Aparecida, da Rua dos Mineiros (BJI), dirigida pelo Mestre-Folião Sr. Agenor Francisco Dias.
2° lugar: Folia de Reis Estrela do Oriente, da Rua Aristides Figueiredo (BJI), presidida pelo Sr. Norival Rita da Silva e dirigida pelo Mestre-Folião Sr. Dermindo Gomes da Silva.
3° lugar: Folia de Reis Sete Irmãos, de Itaperuna, presidida pelo Sr. Geraldo Gonçalves de Moraes e dirigida pelo Mestre-Folião Sr. Ademar Tots.
4° lugar: Folia de Reis São Sebastião, da Rua Gonçalves da Silva (BJI), presidida pelo Sr. Anizio Rosa e dirigida pelo Mestre-Folião Sr. Antonio Florencio da Rosa.
5° lugar: Folia de Reis Estrela do Oriente, de Iurú (Apiacá), dirigida pelo Mestre-Folião Sr. Waldemiro Ropne.
6° lugar: Folia de Reis do Monte Calvário (BJI), dirigida pelo Mestre-Folião Sr. João Gomes da Silva.

PALHAÇOS

1° lugarCatapora, da Folia de Reis São Sebastião, BJI.
2° lugarPinga Fogo, da Folia de Reis Sete Irmãos, de Itaperuna.
3° lugar: Malagueta, da Folia de Reis Estrela do Oriente, de Iurú, Apiacá.
4° lugar: Pimentinha, da Folia de Reis Nossa Senhora Aparecida (BJI).
5° lugar: Sete Casaca, da Folia de Reis Sete Irmãos, de Itaperuna.
6° lugar: Pimenta, Folia de Reis Nossa Senhora Aparecida (BJI).
7° lugarPinga Fogo, da Folia de Reis Monte Calvário (BJI).
8° lugarBeleza, da Folia de Reis Estrela do Oriente (BJI).
9° lugar: Riachão, da Folia de Reis São Sebastião (BJI).


      A Comissão julgadora foi presidida pelo Major Enio Nascimento dos Reis, sendo o júri composto por: Sr. Rubens José Lopes, Sr. José Carvalho Mota, Dr. Marco Antonio Ribeiro Seródio, Sr. José Manoel Araújo, Sr. Reinaldo Pinto Dias, Prof. Francisco Gomes Sobrinho.

      Além das Folias que se apresentaram, o evento contou também com a presença de representantes de Folias de diversos municípios fluminenses e capixabas e também de Minas Gerais, dentre os quais foram registrados:

- Elpidio Freitas (F.R. Nossa Senhora da Boa Morte, de Bonsucesso, Mimoso do Sul, ES)

- José Sprung Harlich (F.R. Nossa Senhora de Conceição do Muqui, ES)
- Aloizio Louzada Reis (F.R. Três Reis Magos, Alegre, ES)
- Joaquim Nunes (F.R. Santana, Duque de Caxias, RJ)
- Helio Jaury de Souza (F.R. Mestre Jesus, de Lins do Vasconcelos, Rio de Janeiro, RJ)
- Domingos Cabral das Neves (F.R. Estrela D'Alva, de Apiacá, ES)
- Alirio Cardoso dos Santos (F.R. Guaritá, de Itaperuna, RJ)
- Itamar Monteiro (F.R. Divino Mestre, de Muriaé, MG) 

O evento foi organizado com o apoio do então Prefeito Noé Vargas e da Comissão Municipal de Cultura.

                                  ***

Em 1986, um bonjesuense publicava, através do Projeto Folias de Reis, um Cordel intitulado:



Capa de Cordel sobre a Folia de Reis, de autoria do bonjesuense Flávio Fernandes Moreira, o Poeta. Imagem: http://cibertecadecordel.com.br/pop_up.html?foto=arquivos/capas/5118.jpg
                                                           




POESIA EM VERSO COM A ORIGEM DO REIZADO (4)


Autor: Flávio Fernandes Moreira, o Poeta

Com inspiração divina
Faço meu verso rimado
Levando ao meu leitor
O presente e o passado

Falando sobre os reis magos
E a origem do Reizado
[...]

Depois de muito viajarem
A estrela foi parando
Por cima de uma cabana
E os magos foram chegando
Com amor e com respeito
Foram se aproximando

[...]

Porque quero aproveitar
Esta mesma ocasião
Pra falar sobre o Reizado
E sobre o mestre fulião
Que é devoto aos três Magos
E cumpre sua missão
[...]

Alguém diz que é fulia
Mas na verdade é jornada
Eles relembram os três Magos
Naquela longa caminhada
Que procuraram e encontraram
A Santa Familia Sagrada
[...]

Vinte e cinco de dezembro
É o início da jornada
Dos três Reis do Oriente
Com a Família Sagrada
Até seis de janeiro
Reza várias embaixadas
[...]

Leitor vou terminar
Essa rima altaneira
Se quiseres mais detalhes
Desta obra verdadeira
Comunique-se com o poeta
Flávio Fernandes Moreira
                              

Contra Capa do Cordel "Poesia em Verso com Origem do Reizado". 



Flávio Fernandes Moreira, o Poeta

     Flavio Fernandes Moreira, conhecido como Poeta, nasceu em Bom Jesus do Itabapoana, sendo que aos 19 anos já morava em Duque de Caxias, e trabalhava como motorista de ônibus.

     Com 15 anos era palhaço de Folia de Reis e, aos poucos, foi se firmando como Mestre. Foi a Folia de Reis que levou Flávio a escrever "quando comecei a brincar de palhaço eu falava muitos livros de outros: Lampião, Antonio Silvino, Zé Pretinho, etc. Depois passei a fazer versos improvisados na hora, depois chegou a um ponto de só falar o que era meu. O passo seguinte foi escrever".(5) Daí nasceu o amor pelo Cordel, o que levou Flávio a escrever e publicar vários títulos, sendo sua produção reconhecida nacionalmente.(6)



Notas e Referências


(1) Departamento Cultural da UERJ conclui Inventário Nacional de Referências Culturais das Folias de Reis fluminenses. Publicações UERJ em Dia, 20 a 26 de junho de 2016: http://www.uerj.br/publicacoes/uerj_emdia/751/



(2) A Folia de Reis em Nossa Cultura: 

(3) A descrição do evento, nome das Folias e ganhadores tem por base matéria publicada no jornal O Norte Fluminense, Ano XXXI, nº 1.295, de 16 de janeiro de 1977Bom Jesus do Itabapoana, RJ.



(4) A obra completa de "Poesia em Verso com a Origem do Reizado", de Flávio Fernandes Moreira, está disponível em: Cordelteca 
http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=cordel&pagfis=54712&pesq=


(5) "O Cordel do Grande Rio", Rio de Janeiro, Secretaria Estadual de Educação e Cultura, Inelivro, 1978, apud Meyer, Marlyse, "Caminhos do Imaginário do Brasil", EDUSP, 2ª ed, 2001.


(3) O nome de Flávio Fernandes aparece em obras como "Retrato do Brasil em Cordel", de Mark J. Curran. Seu nome também é mencionado por outros cordelistas, como é o caso do "A Arte do Cordel" (conhecidos ou amigos / como Flavio Fernandes Moreira):