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quinta-feira, 17 de abril de 2025

Memórias do séc. XX: Arlindo Lirio do Vale, um Amanagé no Vale do Itabapoana

No centro: Esio Bastos (E) e Arlindo Lirio do Vale (D), em Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 1959. Acervo ECLB.

Por Paula Aparecida Martins Borges Bastos

         

       No momento em que a população local se regozijava com a instalação do município de Apiacá, ES, (a), em 1959, a cidade contava com a presença de um visitante especial. Esse homem era Arlindo Lirio do Vale (b), indígena Amanagé (c), nascido na região amazônica, e a quem a revista Cigarra Magazine se referia, em 1956, nos seguintes termos: “índio autêntico, o Capitão Arlindo Lírio do Vale é chefe político” (1).

       Arlindo Lirio do Vale, nascido na última década do Oitocentos, tem uma história de vida que bem merece ser mais conhecida por todos nós. Como homem indígena e político de seu tempo, depois de atuar em sua região natal, migrou para a capital do Brasil, à época o Rio de Janeiro, na expectativa de poder interferir de forma mais incisiva junto às instâncias de poder e conseguir melhorias para a população indígena a qual dizia representar. Contava, para isso, com as conexões que tinha com políticos de renome nacional, e também com o conhecimento que dizia ter com Cândido Rondon (d), a quem admirava, e que era reconhecido no país como protetor dos povos indígenas.

    A partir de artigos e informações dispersas que encontrei sobre Lirio do Vale, buscarei traçar um esboço de sua trajetória, para seguirmos seus passos até sua chegada ao Vale do Itabapoana.

A origem: filho da Morubixaba Damasia

        Arlindo Lirio do Vale se apresentou em Bom Jesus do Itabapoana como sendo Amanagé e “nascido em terras banhadas pelo rio Ararandêua” (2). Natural do sudeste do Pará, teria nascido em 1895 (3).

         Sua mãe Damasia, de possível origem quilombola, ainda nova foi integrada à comunidade indígena, sendo chefe morubixaba dos Amanagé que habitavam o iguarapé Ararandeua, desde final do século XIX até a década de 1930 (4) (5).

      Damasia teve três filhos: os irmãos Arlindo Lirio do Vale, Filomena e Balbino. Esse último assumiu a chefia dos Amanagé após a morte da mãe, sendo conhecido como Capitão Balbino (4).

         Lirio estudou em um seminário de padres, onde lhe foi ensinado “agricultura tanto pratica como teoria”. No ano de 1922, porém, foi obrigado “a abandonar os estudos”, pois “precisava da carteira de reservista” (4, p.73). Com os conhecimentos adquiridos no colégio, Arlindo passou a integrar o ainda restrito grupo de pessoas  alfabetizadas no Brasil, que na década de 1920 era estimado em 35% do total da população (6).

Atuação nos Postos Indígenas do Serviço de Proteção ao Índio (SPI)

      A experiência de Lirio do Vale com o órgão de Estado precursor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), parece ter começado nos anos iniciais de existência do SPI. Em sua fundação, em 1910, pelo Presidente Nilo Peçanha, o órgão tinha a sigla SPILTN (e), estando desde sua criação sob a direção de Cândido Rondon.

      A primeira atuação de Lirio do Vale teria sido um trabalho não remunerado, em 1911. Atuou em Postos Indígenas de sua região, e detectando vários problemas, passou a fazer criticas ao que considerava inadequado. O Posto Indígena (PI) do rio Capim, por exemplo, segundo Lirio, se encontrava completamente inoperante, enquanto outros se encontravam ausentes de recursos e de condições de trabalho, o que era necessário para garantir a proteção da população indígena do entorno (4).

     O exemplo de sua mãe como liderança indígena local e a admiração por Cândido Rondon devem ter sido as principais influências que levaram Lirio do Vale a trilhar o caminho que o levou a se compreender como um homem político voltado para a defesa da população indígena. Além disso, sua experiência inicial nos Postos Indígenas deve lhe ter dado condições de ampliar sua consciência na observação da realidade local e dos desafios por que os povos indígenas da região passavam.

   Consciente da importância da política nacional e suas consequências para os povos indígenas, Lirio não hesitou e, consequente com suas expectativas, apoiou a candidatura de Getúlio Vargas para Presidente da República. Sua viagem ao Rio de Janeiro, em 1929, junto com o deputado federal José Joaquim Seabra, ex-governador da Bahia, para fazer campanha a favor de Vargas, pode ser lida como uma demonstração de que nessa época os homens políticos de seu tempo já distinguiam Arlindo como alguém a ser considerado, pois seu apoio poderia significar um potencial capital político (4) (f).

Presidente Getúlio Vargas, quadro pertencente ao antigo Colégio Rio Branco. Acervo ECLB.


       Em 1932, já estando o Brasil sob a presidência de Getúlio Vargas, Lirio está de volta a sua terra e continua desenvolvendo seu trabalho no PI do Rio Capim. Alguns anos depois é nomeado Delegado do Serviço de Proteção aos Índios, e nessa condição passou a “prestar assistencia aos índios do posto de alcobaça, e os índios anaubés do rio cariri”. (4, p. 73)

         Com uma atitude propositiva frente aos Postos Indígenas e suas contínuas demandas e reinvindicações, parece ter havido desconfiança por parte de alguns trabalhadores não indígenas do SPI em relação a Arlindo. Além disso suas críticas, muitas vezes explícitas, quanto à ineficiência de alguns Postos, podem ter gerado algum desconforto nos que ali ocupavam algum cargo (4).

No Rio de Janeiro, capital da República

          A década de 1940 parece ter sido um momento decisivo na vida de Lirio do Vale. Com seu grupo Amanagé sendo liderado pelo irmão Capitão Balbino, Lirio parece ter assumido de vez sua condição de político junto às instâncias de poder da capital, usando sua tática de, como indígena representante de seu povo, lutar por melhorias nas ações das estruturas de Estado voltadas para as questões indígenas.

           Arlindo acabou voltando ao Rio de Janeiro, onde procurou o SPI. O órgão registrou, em 1943, que Lirio ali “ressurge como tendo vindo tratar com o Governo a respeito de assuntos agrícolas e transportes de produtos das duas tribos de índios de quem se diz capitão ou pagé” (4, p.94).

       É possível que ao se decidir por retornar ao Rio de Janeiro, Arlindo Lirio do Vale tenha pensado em conseguir um encontro com o Presidente, na expectativa de expor a situação indígena de sua região e apresentar, na condição de indígena letrado, competente e experiente, as soluções que poderiam advir do que considerava serem ações corretas e concretas a serem tomadas pelo SPI.

      Em 1945, Lirio estava morando, com seus dois filhos mais velhos, no bairro Vaz Lobo, subúrbio do Rio de Janeiro. Ao convencer-se da impossibilidade de tal encontro, naquele mesmo ano, restou-lhe a opção de escrever uma carta ao Presidente da República: “[...] estou nesta capital para falar diretamente com Vossa Ex. e tenho certeza de que Vossa Ex. compreenderá os sentimentos de um índio brasileiro” (4, p.80).

Carta a Getúlio Vargas: "[...] quem pode dar proteção ao índio é o próprio índio (4, p.84)

        Na carta enviada ao Presidente, em 1945, junto com um memorial sobre sua vida e suas experiências nos Postos Indígenas, expunha os problemas que percebia nesses Postos e nas ações do SPI. Nesse contexto, reivindicava ser nomeado para o cargo de Inspetor Geral do Pará, afirmando na carta ter

competência para ser nomeado inspetor em minha terra, como provas de trabalhos prestados ao SNPI e não bastante provarei com documentos, que venho trabalhando sem nada ganhar em prol da grandeza do Brasil” (4, p.81).

      Lirio afirmava que cumpriria com responsabilidade as atribuições referentes ao trabalho do SPI, tais como proteção e assistência indígena, o que, criticava, não ocorria em muitos postos que conhecia e eram comandados por não indígenas. Afirmava-se apto e capaz pois, além de ter estudado matérias básicas e profissionais na juventude, possuía experiência sobre como vinha se dando a atuação dos PI em sua região e, argumento principal, era indígena (4).

      Com sua retórica e argumentação, Lirio do Vale procurava demonstrar que, sendo indígena, possuía melhor capacidade de compreender e organizar os povos da região e, conhecendo suas realidades, atuaria no sentido de buscar apoio e assistência a todos eles, citando algumas das ações as quais se propunha realizar:

farei a união dos índios turis do rio acara, e os índios ananbés do rio carari, com os índios tenbés e amanajás de minha taba em minha terra, pacificarei os índios gaviões e urubus que constantemente atacam o posto de alcobaça, onde com meus próprios olhos pude observar a falta de patriotismo daquele posto” (4, p.79).

        Esses ataques, indicava, não eram gratuitos: “os índios gaviões e urubus que vivem em constantes guerras com os brancos, que invadem os seus domínios” (4, p.82).

       Para Ribeiro (7), muitas situações ocorridas durante o Regime Vargas são exemplares do modo como os indígenas vão redimensionar a tutelagem e elaborar dinâmicas próprias, a partir de suas culturas, cosmologias e territorialidades”. Nesse sentido, aponta, Lirio do Vale é um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade. 

Um discípulo do Marechal Cândido Rondon

         Admirador de Rondon desde seus tempos de atuação nos Postos Indígenas no norte do país, Lirio também enviou, em 1945, uma carta ao então General Cândido Rondon. Nela, solicita apoio para sua indicação ao cargo de Inspetor Geral do Pará, explicando ter enviado carta ao Presidente. Na carta a Getúlio, Lirio do Vale se refere a Rondon como alguém com uma “digníssima carreira protetora”, dizendo-se discípulo capaz de seguir os exemplos de suas façanhas, caso seja nomeado para o cargo pleiteado (4).

Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958)

      Em 1955, Arlindo Lírio do Vale esteve presente, no Rio de Janeiro, ao evento que comemorou os 90 anos de Candido Rondon, quando o Congresso Nacional, no Palácio Tiradentes, outorgou ao nonagenário o título de Marechal do Exército Brasileiro. Em um vídeo da coleção do “Conselho Nacional de Proteção aos Índios” (CNPI), disponível numa rede social, é possível vislumbrar Lirio do Vale, ao final do ato, seguindo atrás e a direita do Marechal ao iniciar a descida das escadarias do Prédio (veja aqui). Em uma fotografia do lado de fora do Palácio, publicada na parte central de uma página da Revista Manchete, estão o Marechal Rondon e Arlindo Lirio do Vale em primeiro plano, posando para a foto, estando em segundo plano o Senador Nereu Ramos (veja aqui). Arlindo porta um belo cocar e diversos colares com amuletos, confirmando a todos os presentes, com orgulho, sua identidade indígena.

Percorrendo Minas Gerais: difusão das tradições ancestrais e defesa dos povos indígenas

Conferências para difusão da cultura indígena

     Lirio do Vale percorreu diversas cidades mineiras, como Conselheiro Lafaiete e Barbacena, na décadas de 40, fazendo conferências que abrangiam a difusão das culturas e línguas indígenas, bem como das ações e políticas indigenistas de Getúlio Vargas (g). Em um dos panfletos da época, consta a divulgação de uma conferência a ser feita por Lirio do Vale e o indígena Guaicurú Umburaé “em uma das Casas de Diversões da cidade”, onde os dois tratariam de “assuntos inteiramente indígenas, discutindo a língua nativa: TUPÍ E GUARANÍ (...) atenderão com satisfação a todos os interessados (...)”. O panfleto termina fazendo uma ressalva para a população: “Não se trata de feitiçaria nem de bruxaria”.

     No geral, parece que esses eventos eram apreciados pela população, como é possível deduzir pelo ocorrido no Cine Brasil, em Barbacena, em que Lirio é mencionado como “o simpático índio”, que após ter falado “sobre cousas e fatos peculiares à sua gente”, foi “muito aplaudido”. A matéria ressalta que “O cacique Lírio do Vale mostrou ser um grande patriota e amante do crescente desenvolvimento de nossa querida Pátria (...)" (4, p.86).

Em território Xakriabá: apoio à luta pelo direito à terra

       Na década de 1950, Lirio continuava pela região sudeste, percorrendo especialmente o extenso território mineiro. Sua permanência em determinadas localidades, porém, não agradava a todos os moradores, como se observa no ocorrido nos então distritos de Itacarambi e Missões, onde ele e seu filho, Lirio Arlindo do Vale Filho, se envolveram no apoio a indígenas locais que defendiam seu direito à terra. Sua ação de dirigirem-se “aos moradores que não eram descendentes indígenas para orienta-los a se mudarem daquelas terras” (4, p.64) gerou um indiciamento policial, em 1951, no qual eram acusados de ameaçar agricultores e pecuaristas “com a justificativa de que aquelas terras pertenciam aos descendentes dos índios Tupinambá”.

      Os Xakriabá, nesse tempo, se organizavam e tomavam providências para conseguir a posse legal de suas terras. Para isso, suas lideranças faziam viagens ao Rio de janeiro “em busca de apoio, ajuda e informações que nos defendessem”. É possível que Lirio do Vale tenha conhecido algumas dessas lideranças, “como Rosalino e Rodrigo, que denunciaram invasões no território Xakriabá”, dirigindo-se à região para contribuir com seu apoio, consequente com a missão que se propunha na defesa do povo indígena (8).

             O ambiente daquela época, na região, é resumido na seguinte reportagem recente: 

Quando o agricultor José Fiuza Xakriabá nasceu, em 1950, as leis de proteção aos territórios indígenas no Brasil eram frágeis. A Terra Indígena Xakriabá, que hoje abrange 54 mil hectares no norte de Minas Gerais, ainda não havia sido regularizada e era cobiçada por grileiros. Ataques e invasões eram frequentes. Assim, cedo Fiuza entendeu o que era a sina indígena de que seu pai tanto falava: ter de lutar pelo direito à própria existência.” (9)

        A relação de Lirio do Vale com a região do São Francisco parece ser persistente, pois, anos depois, em 1956, Lirio aparece em uma reportagem sobre as Carrancas do rio São Francisco, com uma narração de viagem de barco pelo velho Chico. Dentre as várias fotografias que ilustram a matéria, feitas durante a viagem, consta uma de Lirio do Vale, de perfil, com a legenda: “índio autêntico, o Capitão Arlindo Lírio do Vale é chefe político” (veja aqui). Nenhuma outra menção a ele é encontrada no texto jornalístico, o que permite algumas perguntas: estaria Lirio fazendo a mesma viagem ou estaria em algum dos lugares de parada do barco? Sem resposta, podemos apenas perceber que sua figura chamou a atenção do fotógrafo e do repórter a ponto de terem inserido sua imagem na revista.

Apoio aos Krenak e crítica a Juscelino Kubistchek

       Sempre atento às questões indígenas, Lirio do Vale foi um grande crítico das ações do Presidente Juscelino Kubistchek em território mineiro, “acusando-o estar tomando as terras dos índios Crenaque” (2).

           Com efeito, na década de 1950, os Krenak sofreram o primeiro de “dois episódios de reassentamento forçado promovidos pelo Estado brasileiro” no século XX (h). No ano de 1957,

“foram retirados de suas terras de forma violenta pelos agentes do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e deslocados para as terras indígenas dos Maxacali, em Águas Formosas, no município de Santa Helena de Minas/MG. Eles retornaram em 1959 para seu território tradicional, numa caminhada que durou três meses.” (10)

No Vale do Itabapoana: Bom Jesus do Itabapoana e Apiacá 

       Quando Lirio do Vale esteve em Bom Jesus do Itabapoana, no verão de 1959, um dos lugares que visitou foi a redação de um jornal local, O Norte Fluminense, cujo fundador e diretor, Esio Bastos, era à época vereador em seu terceiro mandato. Como cartão de apresentação, além do documento pessoal, Lirio apresentou a fotografia publicada na Revista Manchete, de 1955, em que aparece ao lado do Marechal Rondon, de quem se dizia amigo, e do senador Nereu Ramos. Essa informação, contida no periódico bonjesuense, permitiu resgatar esse momento de Lirio no Rio de Janeiro, uma vez que a revista carioca não apresenta nenhuma legenda ou menção em texto que possa identifica-lo.

        A matéria de jornal, repleta de adjetivos elogiosos, destaca o "português correto" de Lirio do Vale, o qual é apresentado como “um autêntico chefe indígena” que utiliza "vestes atraentes à altura de sua alta posição". É apresentado como "uma figura forte, vivaz, espetacularmente adornado com colares, penas e pulseiras" (2).

Acervo ECLB
      

       A visita a Bom Jesus se deu numa sexta-feira e movimentou a cidade, com os moradores interessados em conhecer o chefe indígena, em especial as crianças, que o acompanharam por todos os lugares por que passou. É possível perceber na fotografia em que aparece com o jornalista e vereador Esio Bastos (no topo desse artigo), adultos e crianças rodeando os dois homens, entre curiosos e atentos.

Ervas medicinais tradicionais

      Os conhecimentos ancestrais dos Amanagé sobre o uso das plantas para fins medicinais era preservado por Arlindo Lirio do Vale, que muitas vezes empregava e divulgava o uso de receitas de ervas em suas andanças pelo interior do país (4). Em uma sociedade que sempre preservou em suas práticas cotidianas a memória rural do uso de fitoterápicos, as ervas de Lirio do Vale devem ter sido muito consideradas nos lugares por onde passou. Em Bom Jesus do Itabapoana, o Amanagé divulgava “«sua» Erva do Índio (Carucaxá), afirmando a excelência para a cura de diversos males” (2).

Apiacá, Vargas e Lirio

       Lirio do Vale se estabeleceu, no Vale do Itabapoana, em uma localidade que teve sua nomenclatura alterada na onda do movimento modernista que se iniciou no Brasil na década de 1920 e que ganhou maior expressão na Era Vargas, “uma época em que os topônimos de origem indígena foram abundantemente criados no país” (11).

     Foi nesse período que o Presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 5.901, de 21/10/1943 (12), instituindo as normas para nomenclaturas de cidades, com a indicação, em seu art. 7º, III, de que, para as localidades em que houver alteração de nome, é “recomendável a adoção de nomes indígenas”.

        Apenas dois meses após a criação dessa Lei Federal, o Estado do Espírito Santo emitiu o Decreto-lei Estadual nº 15.177, de 31/12/1943, determinando as alterações dos antigos nomes das localidades de Boa Vista e Barra Alegre para Apiacá e Iurú, respectivamente (13).

     Em 1959, vivenciando o clima de satisfação e esperança da população local com a recente emancipação de Apiacá, é possível que Lirio do Vale tenha vislumbrado na localidade a possibilidade de se estabelecer de forma mais permanente na região, pois o redator do jornal O Norte Fluminense destacou estar o indígena naquele momento “residindo em Apiacá onde possivelmente fixará residência” (2).

Vale do Itabapoana, um recanto de memórias Macro-Jê

     

Antiga Fazenda dos Puri, Apiacá, ES. Foto: Paula Bastos, 2023.

        É possível que por suas andanças pela região, Lirio tenha, altivo e ativo, conversado com diversas pessoas sobre ancestralidade e herança indígena, interessado em descobrir sobre vivências e memórias dos povos indígenas de nossa região. É possível que tenha encontrado antigos trabalhadores da Fazenda dos Puri e outros moradores e moradoras que, inspirados, lhe tenham contado sobre sua origem indígena, e com ele tenham trocando receitas com plantas locais.

Antiga Fazenda dos Puri, Apiacá, ES. Foto: Paula Bastos, 2023.
      

     É possível que quando Lírio contasse de sua terra de origem, na região amazônica, o povo do Vale do Itabapoana, entre curioso e atento, tirasse do fundo de suas memórias encobertas, sons de um tempo distante com gosto de presente, passado e futuro.

      Passados 78 anos da demanda de Lirio do Vale ao Presidente Vargas, no ano de 2023 foi empossada a primeira indígena à frente da FUNAI, Joenia Wapichana (11). Nesse mesmo ano, se deu a criação do Ministério dos Povos Indígenas, tendo como Ministra a indígena Sonia Guajajara (12).

***

É permitia a reprodução do conteúdo deste blog em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Notas 

(a) Elevado a município em 1958, a partir da emancipação de Mimoso do Sul (ES), foi instalado em 29/01/1959, constituído por dois distritos: Apiacá (sede) e Iuru. Ver: https://site.apiaca.es.gov.br/paginas/191

(b) Também grafado em algumas fontes como Lyrio do Valle ou Lirio Arlindo do Vale.

(c) Integrante da família linguística Tupi-Guarani, Amanagé teria como significado "associação de pessoas". Também conhecidos como Amanayé, habitam atualmente o alto curso do Rio Capim. A denominação Ararandeuara foi assumida pelos Amanagé que habitam o igarapé Ararandeua. Lirio do Vale, na década de 1940, também se apresentava como indígena Tembé, povo que ocupava grande área do território onde os Amanagé de Lirio do Vale se encontravam naquela época. Ver: https://antropos.org.uk/5-amanaye-amanage/ ; https://www.etnomuseudigital.com.br/povo/amanaye/ ; https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Amanay%C3%A9 

(d) Militar e sertanista, nasceu em Mato Grosso, em 1865. Participou da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, e nesse trabalho fez contato com diversos povos indígenas, ao andar pelo interior do Brasil. "Embora tenha sido adepto de uma perspectiva integracionista, em voga na época, sua conduta pacifista é admirável", tendo como lema "morrer se preciso for, matar nunca!". Seu trabalho com os indígenas resultou na criação do "Serviço de Proteção ao Índio" (SPI) e depois no "Conselho Nacional de Proteção aos Índios" (CNPI). Faleceu em 1958. Ver: https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/calendario-de-fevereiro-destaca-marechal-rondon-e-a-criacao-do-servico-de-protecao-aos-indios-spi/ 

(e) "Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais".

(f) As relações de Arlindo Lirio do Vale com políticos do período do Governo Vargas podem ser lidas dentro de um movimento geral “como comenta Seth Garfield, [em que] os indígenas foram praticamente convocados por Getúlio Vargas e seus correligionários (políticos e intelectuais) enquanto recurso simbólico do regime que moldava certas representações, discursos e práticas estatais nesse cenário” (7).

(g) Garfield (3) aponta que Lirio criticava “não a missão do Estado de proteger e integrar os índios, mas seu modus operandi” (p.30). O autor aponta as complexidades da época da era Vargas, e remetendo ao conceito de Gramsci sobre “conscientização contraditória”, indica que “o discurso de Valle revela como os índios brasileiros, como outros grupos subalternos, tanto apropriaram-se dos símbolos dominantes como os desafiaram” (p.31).

(h) O segundo episódio se deu em 1972, sob gestão da FUNAI e apoio do Estado de Minas Gerais (10).

Referências

(1) CIGARRA Magazine, SP, ed. 6, junho 1956. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=003085&pagfis=58490 Acesso 09/04/2025.

(2) CACIQUE indígena esteve em Bom Jesus. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 01/02/1959.

(3) GARFIELD, Seth. As raízes de uma planta que hoje é o Brasil: os índios e o Estado-nação na era Vargas. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 20, n. 39, p.15-42, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/5WGW9qddWRkHSnkrckzLHrx/?lang=pt  Acesso 15/04/2025.

(4) ROSA, Roberta Cristina Silva. Os índios brasileiros e o Serviço de Proteção aos Índios: a atuação de Lyrio Arlindo do Vale (1942-1945). Dissertação (mestrado) Programa de Pós-Graduação em História, UERJ, Rio de Janeiro, RJ, 2016.

(5) GOMES, Jussara Vieira. Grupos indígenas Amanayé e Anambé, do Pará (Relatório), RJ, 28/06/1984. Publicado no Boletim do Museu do Índio, documentação nº 7, dezembro 1997.

(6) TAVERNA, Aline Rosenente; TAVERNA, Maria Rosenente; MELLO, Eloisa Helena. Processo histórico do analfabetismo no Brasil (1500-1945). Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.8, n.9, p.62250-62265, 2022. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/52006 Acesso 15/04/2025.

(7) RIBEIRO, Benedito Emilio. Povos indígenas e o Regime Vargas: tutelagem, resistência e agenciamentos, 16/05/2024. Disponível em: https://www.geledes.org.br/povos-indigenas-e-o-regime-vargas-tutelagem-resistencias-e-agenciamentos/ Acesso 06/04/2025.

(8) XAKRIABÁ. Povos Indígenas no Brasil. Disponivel em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Xakriab%C3%A1 Acesso 15/04/2025.

(9) O GLOBO - https://oglobo.globo.com/ - 27/07/2024. Disponível em: https://www.terrasindigenas.org.br/en/noticia/224888 Acesso 15/04/2025.

(10) MG – Povo indígena Krenak segue lutando por reconhecimento e demarcação total de seu território tradicional (atualização 04/08/2018). Disponível em: https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/mg-povo-indigena-krenak-segue-lutando-por-reconhecimento-e-demarcacao-total-de-seu-territorio-tradicional/ Acesso 06/04/2025.

(11) NAVARRO, Eduardo de Almeida. A toponímia indígena artificial no Brasil: uma classificação dos nomes de origem tupi criados nos séculos XIX e XX. Revista Letras Raras. Campina Grande, v. 9, n. 2, p. 252-267, jun. 2020. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/A_topon%C3%ADmia_ind%C3%ADgena_artificial_no_Brasil  Acesso 15/04/2025.

(12) BRASIL. Decreto-Lei nº 5.901, de 21/10/1943. Diário Oficial da União - Seção 1 - 23/10/1943, p. 15750. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5901-21-outubro-1943-415891-publicacaooriginal-1-pe.html Acesso 15/04/2025.

(13) ESTADO do Espírito Santo. Decreto-Lei nº15.177. Imprensa Oficial - Vitória - 1944. Disponível em: https://www3.al.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/Decreto%2015177%20de%201944.pdf Acesso 15/04/2025.

(14) JOENIA Wapichana é nomeada Presidente da Fundação dos Povos Indígenas (FUNAI). Disponível em:https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2023/joenia-wapichana-e-nomeada-presidente-da-fundacao-nacional-dos-povos-indigenas-funai Acesso 16/04/2025.

(12) MINISTÉRIO dos Povos Indígenas. Disponível em: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/acesso-a-informacao/institucional Acesso 16/04/2025.



segunda-feira, 31 de março de 2025

Lago José Neves: patrimônio natural de Bom Jesus do Itabapoana


Lago José Neves, um dos cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos.

por Paula Aparecida Martins Borges Bastos

     

       Um dos principais cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, o Lago José Neves, também é conhecido como “Laguinho”, “Lago do Trevo” ou, para os mais antigos, “Lago da UFF”, “Lago da entrada da cidade” ou mesmo “Lago da Pecuária”.

      Localizado na área urbana de Bom Jesus, no Bairro Parque do Trevo, cruzamento da RJ 186 com a RJ 230, esse lago artificial, com suas várias décadas de existência, já foi incorporado à paisagem de Bom Jesus do Itabapoana, estando repleto de conteúdos afetivos em nossas memórias.

A RJ 186 passa ao lado o lago, encontrando-se com a RJ 230 no trevo. Fonte: Google Maps, 2025.

De formato arredondado, circundado por um calçadão e medindo aproximadamente 700 metros, o Lago José Neves é muito utilizado como pista de caminhada e aulas de educação física. Contornado por belíssimos coqueiros e uma vegetação basicamente constituída por gramíneas, com uma criação de peixes no local, o atrativo é visitado diariamente por grande número de cidadãos de Bom Jesus do Itabapoana e turistas (1)

O "Laguinho", como é carinhosamente conhecido, é muito procurado para caminhadas e passeio.
Foto: Paula Bastos, 2024.

        O lago é carregado de uma dimensão simbólica e afetiva, além de ser testemunha das transformações históricas decorrentes do crescimento urbano e das alterações das vias comunicacionais de transporte que foram se configurando ao longo do século XX em seu entorno. Se no início de sua existência estava localizado em um local distante e bucólico, o Lago está, atualmente, em grande medida, incorporado à área urbana, e mantém o seu status de principal cartão de boas vindas aos que chegam a Bom Jesus pela RJ-186.

O início: lago como bebedouro para gado

      A história do lago caminha junto com as transformações que foram ocorrendo na área ao longo do tempo. O lago foi criado, provavelmente, durante o período de existência do Posto Agropecuário (ligado ao Ministério da Agricultura), em meados do século XX, como um bebedouro para mitigar a sede dos bovinos que pastavam ao redor. Em pouco tempo foi se convertendo em um ambiente paisagístico para todos que por ali passavam, especialmente depois que a estrada em frente ao lago foi asfaltada, no início da década de 1960.

        As melhorias rodoviárias ocorreram sob a gestão do bonjesuense Roberto Silveira, Governador do estado do Rio de Janeiro, quando deu-se o asfaltamento da estrada que ligava Bom Jesus ao cruzamento de Itaperuna e dali a Campos, havendo também atenção para estruturar uma estrada ensaibrada ligando Bom Jesus a Santo Eduardo e Morro do Côco (2). Esses trajetos melhorados permitiram encurtar distâncias e facilitar o escoamento e chegada de produtos.

      No ponto de chegada a Bom Jesus, essas estradas se encontravam em área próxima ao "Laguinho". Margeado por coqueiros e vegetação rasteira, a área era delimitada por uma cerca de arame farpado, como é comum nas pastagens bovinas, e era apreciado por todos como um marco aos viajantes, que ali tinham sua referência de chegada ou saída de Bom Jesus.

      Em 1970, o Ministério da Agricultura fez a transferência do acervo do Posto Agropecuário para o Município, passando a funcionar no local, "ao lado da rodovia para Santo Eduardo", o Colégio Técnico Agrícola de Bom Jesus, mantido pela Fundação Educacional de Bom Jesus. Logo recebeu o nome de Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB), em homenagem ao Presidente da Fundação, recém falecido. Em 1974, o município fez doação para que o CTAIBB passasse a integrar a Universidade Federal Fluminense, e toda a área, com o lago incluso, voltou a ser considerada de âmbito federal, após quatro anos municipalizada (3) (4) (5). 

   O lago era muito apreciado pelos jovens e adultos que frequentaram, nas últimas décadas do século XX, a churrascaria Pitucão e suas famosas serestas. O Pitucão, na época, funcionava justo em frente ao lago, do outro lado da estrada, próximo onde hoje funciona um posto de gasolina. Isso fazia com que os notívagos pudessem sonhar ao caminhar para casa, especialmente em noites de lua cheia, quando os raios prateados inundavam de sonhos os enamorados que contemplavam as águas plácidas do singelo lago.

    Na década de 1990, com a transferência do Pitucão para novo endereço, passou a funcionar ali o Restaurante Terraço, mantendo serestas e eventos noturnos por muitos anos.

Uma nova ponte e um lago esvaziado

     No final da década de 1980, a construção de uma nova ponte de cimento sobre o rio Itabapoana, em área próxima ao lago, significou mais um avanço no sistema rodoviário que passava por Bom Jesus. Anunciada como um importante ponto de ligação entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, a antiga estrada que passava em frente ao lago foi remodelada, ampliada e inaugurada como Rodovia RJ-186, partindo de Bom Jesus, passando por Santo Antônio de Pádua e indo até a divisa com Pirapetinga, em Minas.

      Para viabilizar todas as obras previstas na região de Bom Jesus, ou seja, a nova ponte, a reforma e a ampliação da estrada no trecho Bom Jesus – Cruzamento para Itaperuna, além da instalação de um trevo rodoviário entre a RJ-186 e a RJ-230, o lago foi esvaziado, a fim de possibilitar a movimentação de máquinas e material ao seu redor. (6)

     A ponte ficou pronta em 1988, porém os aterros de acesso de ambos os lados, capixaba e fluminense, demoraram a ser realizados. Em abril de 1989 os governos ainda estavam envolvidos com a  concorrência das obras (7). Por fim, ficaram prontas a ponte e a rodovia, e a inauguração se deu, do lado capixaba e fluminense, nos dias 04 e 12 de março de 1991, respectivamente. Nos eventos estiveram presentes diversas autoridades, dentre elas os governadores Moreira Franco (RJ) e Max Mauro (ES), além de Tadeu Batista e Carlos Borges Garcia, prefeitos de Bom Jesus do Norte (ES) e Bom Jesus do Itabapoana (RJ), respectivamente (8) (9). Este último, durante o ato de inauguração, destacou a relevância da ponte para a população das duas cidades irmãs:

(...) esses dois povos, embora localizados em Estados distintos, têm uma história comum, uma história entrelaçada de tamanha identidade, uma afinidade cultural e espiritual tão consistente, que não se compreendia porque, por anos e anos, lhes tenha sido negado o direito de possuir mais uma via de união material (9)

Ponte nova sobre o rio Itabapoana: construída em fins de 1980
e inaugurada na década de 1990. Foto: Paula Bastos.
 

       Após a inauguração da ponte, a população aguardava para breve a recomposição do lago, cujas águas são provenientes de nascentes locais e já constituía um ponto de referência para toda a comunidade. Em junho de 1991, matéria jornalística intitulada "Lago não pode acabar", chamava a atenção para a importância do lago para os bonjesuenses, conclamando sua recuperação (6). O retorno, porém, não ocorreu rapidamente, e passado um ano, o lago continuava a ser reivindicado pela comunidade, passando a ser novamente notícia de jornal, com os dizeres “queremos o ‘lago’ de volta”. (10)

Um lago remodelado

      Em 1994, o lago voltou a compor a paisagem, começando a tomar o contorno que permanece até os dias atuais. Através de convênio da UFF com a Prefeitura, o lago artificial, em remodelação, além de seu aspecto paisagístico, é planejado para ser incorporado como um espaço de uso pela população, ampliando sua significação afetiva, sendo “transformado em ponto turístico e de lazer”, pois, “além de destinar-se à criação de peixes, será um ponto de lazer para os bonjesuenses, com pista para cooper e outras atrações” (11). Vale lembrar que foi na década de 1990 que a sociedade brasileira teve ampliada a incorporação dos hábitos de atividades físicas, com as corridas e caminhadas passando a ser um grande atrativo para os que passaram a buscar um estilo de vida considerado mais saudável.

Lago recém remodelado e aberto para caminhadas. Foto: Paula Bastos, década de 1990.

       É nessa época que o lago recebe uma pavimentação ao seu redor, ficando definitivamente aberto ao público o acesso às suas margens, seja para piquenique, caminhadas e mesmo para apreciar os peixes, ali criados pelo CTAIBB-UFF, e que passaram a ser uma das atrações a mais do local, especialmente para as crianças, que vinham com os familiares para alimentar os animais no início e no final do dia.

      Acompanhando os antigos coqueiros, uma nova fileira, agora de coqueiros-anão, foi plantada ao redor do pavimento. As mudas, originárias de Quissamã, foram doadas pela prefeitura daquele município (12).

Jornal O Norte Fluminense, 25/09/1994

As duas fileiras de coqueiros convivem à margem do Laguinho: a mais externa foi plantada em 1994, com mudas oriundas de Quissamã, RJ. Foto: Paula Bastos, 2021.

       Atualmente, às duas fileiras de coqueiros que margeiam as águas lacustres, vem somar-se outras árvores frutíferas, algumas delas plantadas por moradores e apreciadores do lago, que, junto a todos que ali frequentam, compreendem o local com um patrimônio afetivo da população.

Algumas árvores frutíferas compõem a paisagem do "Laguinho"... Foto: Paula Bastos, 2021. 

...e dão sombra aos visitantes. Foto: Paula Bastos, 2021.

      O lago remodelado recebeu o nome de Lago José Neves, quando foi inaugurado em 1994, homenagem ao Auxiliar de Agropecuária que havia falecido recentemente. Antigo funcionário do Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB) – UFF, José Neves se dedicou por muitos anos às atividades de cuidado da terra, ao cultivo e à criação, trabalhando desde os tempos do Posto Agropecuário, junto ao Médico Veterinário Ildefonso Bastos Borges, antes mesmo da conformação do CTAIBB-UFF.

Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto Paula Bastos, 2021.

     A partir da criação dos Institutos Federais, em 2008, deu-se a transformação do antigo CTAIBB-UFF em campus Bom Jesus - Instituto Federal Fluminense (IFF) (5). O convênio com a Prefeitura referente ao uso do Lago como área de lazer e turismo pela comunidade foi mantido e permanece ativo até os dias atuais, ficando ao encargo da municipalidade o cuidado com o paisagismo e a manutenção da limpeza da área.

Um patrimônio natural em área urbana

        Observa-se, assim, que aliado à paisagem natural, já incorporada à memória afetiva da coletividade durante décadas, buscou-se instituir um espaço para lazer e contemplação, em que a presença humana passasse a se integrar à paisagem. A população acolheu de forma extremamente positiva a mudança proposta, e rapidamente o local se converteu em um dos principais pontos urbanos para práticas de atividade física ao ar livre ou simplesmente um passeio para contemplação da natureza. Encontros, piqueniques, brincadeiras infantis, registros fotográficos, leitura à sombra das árvores, variados são os usos que a população tem feito do Lago José Neves ao longo das últimas décadas.

Área para caminhadas e práticas de atividades físicas atrai visitantes ao Lago José Neves.
Foto: Paula Bastos, 2024.

      Entendendo que patrimônio natural é “parte da memória humana, pois adquire significado e sentido para os diversos grupos sociais, torna-se uma referência histórica e é inserido na memória social” (13), podemos considerar o Lago José Neves um patrimônio natural da área urbana de Bom Jesus do Itabapoana.

      Passear às margens do Lago é poder contemplar amostras de algumas das possíveis paisagens do Vale do Itabapoana.

Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2024.

      Em uma de suas extremidades, do lado capixaba, se vislumbra a reconfortante cobertura vegetal que desponta no Morro da Torre e montes adjacentes, em Bom Jesus do Norte; mais além, sobressaindo para os lados de Mimoso do Sul, os enigmáticos Pontões nos atraem em seu azul distante.

A mata no Morro da Torre, em Bom Jesus do Norte (ES): sobranceira na paisagem.
Foto: Paula Bastos, 2024.

Os Pontões, em Mimoso do Sul (ES), despontam na paisagem por sua altitude.
Foto: Paula Bastos, 2021. 

        Caminhando na direção oposta, na outra extremidade, para o lado fluminense, é possível descortinar ao longe montes característicos da região.

Morros ao longe, lado fluminense. Foto: Paula Bastos, 2024.

     Em suas laterais, o "Laguinho" é circundado por dois morros que bem poderiam configurar uma alegoria de situação atual de nossa região. De um lado, um baixo monte de pasto, prometido como área de reflorestamento (14), apresentando, por enquanto, seus primeiros passos nessa direção, em processo ainda incipiente e tímido.

Pequena área de reflorestamento foi iniciada no morro próximo ao "Laguinho".
Foto: Paula Bastos, 2021. 
Área de reflorestamento, em 2024. Foto: Paula Bastos.

   Do outro lado, um morro maior, com trecho desbastado para o desenvolvimento de atividades humanas. Em seu topo, esparsas árvores não dão conta, sozinhas, de deter a visível abertura de valas e pequenas aberturas, em erosão que avança e expõe as entranhas de um morro choroso em vermelho flamejante, bela e intensa cor tão característica de nossa terra.

Um morro recortado, terra vermelha e diversas lojas e galpões de serviço compõem o visual do outro lado da estrada RJ 186 que margeia uma das bordas "Laguinho". Foto: Paula Bastos, 2021. 

Morro com esparsas árvores e terra vermelha em trecho recortado: paisagens que se avista de uma das laterais do Lago José Neves. Foto: Paula Bastos, 2024.

Morro com escassa proteção vegetal e sinais de erosão. Foto: Paula Bastos, 2024.

       Sobre nossas cabeças, no fim da tarde, os pássaros sobrevoam em direção ao rio Itabapoana, esse rio cujas águas continuam rolando sobre as pedras e passam sob a segunda ponte, atualmente convertida em uma madura balzaquiana com seus mais de 30 anos.

      Ao final do passeio, após toda essa contemplação, uma pergunta perpassa o pensamento: que paisagem verão as gerações futuras em suas  caminhadas e passeio ao redor do Lago José Neves?

Atualizado em 07/04/2025

                                                                   ***

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Referências

(1) LAGO José Neves (Laguinho).  Disponível em: https://bomjesus.rj.gov.br/site/ponto_turistico/lago_jose_neves_(laguinho)/2 Acesso 29/03/2025.

(2) SERÁ INICIADO em breve o asfaltamento: ótima estrada ligará Bom Jesus a Itaperuna. A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1262, 23/01/1960.

(3) INAUGURADO o Colégio Técnico Agrícola. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1023, RJ, 08/03/1970.

(4) MINISTÉRIO da Agricultura entrega Posto Agro-pecuário ao município. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1026, RJ, 05/04/1970.

(5) 50 ANOS de CTAIBB e a efeméride a ser celebrada.  Disponível em https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/50-anos-do-ctaibb-e-a-efemeride-a-ser-celebrada Acesso 30/03/2025.

(6) LAGO não pode acabar. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1864, 30/06/1991.

(7) UMA OBRA inacabada. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1791, 09/04/1989.

(8) INAUGURAÇÃO da nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1853, RJ, 03/03/1991.

(9) INAUGURADA a nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ,  n. 1854, 17/03/1991.

(10) O LAGO da UFF. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 29/03/1992.

(11) NOVO visual Urbanístico da Cidade. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1944, 07/08/1994.

(12) O LAGO do Trevo. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1948, 25/09/1994.

(13) SCIFONI. Simone. Os diferentes significados do patrimônio natural. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v.10, p.55-78, 2006, p.75.

(14) ÁREA de reserva legal do IFF Bom Jesus recebe mudas nativas e exóticas por meio de parceria com UENF. Disponível em: https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/area-de-reserva-legal-do-iff-bom-jesus-recebe-mudas-nativas-e-exoticas-por-meio-de-parceria-com-uenf Acesso 31/03/2025.



terça-feira, 25 de março de 2025

Memórias do Modernismo em Bom Jesus: o "Prédio dos Bancários"

"Prédio dos Bancários", primeiro conjunto habitacional de Bom Jesus do Itabapoana, RJ.
Vista da Rua República do Líbano. Foto: Paula Bastos, 2025.
 
por Paula Aparecida Martins Borges Bastos 

   

   A história de alguns imóveis contribui para a compreensão de como os processos de urbanização de uma cidade vão sendo delineados ao longo do tempo. Esse é o caso, por exemplo, do "Prédio dos Bancários", em Bom Jesus do Itabapoana

   Com seus quase 66 anos de idade, para além de um projeto urbanístico local, a construção do edifício fez parte de um conjunto de obras realizadas por uma autarquia federal, o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários, o IAPB.

  Assim como os demais Institutos de Aposentadoria e Pensão de outras categorias profissionais, o IAPB surgiu no período do primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945). Estes órgãos executaram “as primeiras iniciativas públicas de produção de moradia” e possuíam fortes tendências modernistas (1).

   E o que caracteriza o modernismo? Segundo Palhas (2)

A produção arquitetônica do movimento moderno geralmente é associada quase que exclusivamente a determinados princípios estéticos, muitas vezes traduzidos em uma descrição estilística dos objetos: edifícios modernos são construções com coberturas planas sem qualquer ou pouca ornamentação, de geometria pura, fachadas transparentes e clareza construtiva, enquanto a espacialidade e o próprio conteúdo social e teórico geradores desta linguagem plástica têm sua compreensão reduzida. (p.19)

"Prédio dos Bancários", fachada no estilo modernista, vista da Rua República do Líbano,
Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos, 2025.

    Os ideais modernistas de arquitetura e urbanismo logo foram incorporados ao setor habitacional brasileiro, integrando as questões técnicas de construção ao objetivo governamental de modernizar a nação (3).

  Nesse contexto é que se delineou o primeiro edifício habitacional vertical no espaço urbano de Bom Jesus do Itabapoana. Esse tipo de construção vinha se expandindo por todo o país, a ponto de existirem em diversas cidades, grande parte deles com características muito semelhantes:

O IAPB teve o privilégio de implantar suas obras residenciais em áreas centrais e, muito frequentemente, adotou como partido edifícios em altura ou blocos isolados de quatro pavimentos, integrados à malha urbana. Foram empregados nesses projetos elementos típicos do movimento moderno no Brasil, tais como cobogós, brise-soleils, pilotis, fachadas envidraçadas, modulação da estrutura e equipamentos coletivos na cobertura. Tais edifícios ficaram conhecidos como "edifícios dos bancários" e estão presentes em várias capitais brasileiras, mas também em cidades de pequeno e médio porte, sobretudo na região Sudeste. Quando implantados em terrenos maiores, sempre dispunham de áreas verdes e livres. Por essa razão, associa-se a atuação do IAPB ao processo de verticalização de inúmeras cidades brasileiras e à difusão do movimento moderno. (4)

   Dentre os "Edifícios dos Bancários" construídos no estado do Rio de Janeiro, podemos destacar o de Niterói e o do bairro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro. Em Brasília, uma das obras do IAPB foi o Conjunto Habitacional Presidente Juscelino Kubitschek, composto de 11 blocos projetados por Oscar Niemeyer (2, 5).

   É claro que especificidades foram consideradas em cada localidade, e seria interessante um estudo sobre o projeto arquitetônico realizado em Bom Jesus. Percebe-se que um pequeno espaço de área verde foi projetado no entorno da construção, e talvez uma de suas mais curiosas singularidades esteja no modo de nomeação do imóvel, pois se em vários lugares a denominação é “Edifício dos Bancários”, em Bom Jesus, a edificação  ficou conhecida como “Prédio dos Bancários”.

"Prédio  dos Bancários", vista da Rua Coronel Luiz Vieira Rezende. Foto: Paula Bastos, 2021.

O início: 1º semestre de 1957

   A história do edifício se inicia em 1957, quando os bancários bonjesuenses têm suas demandas habitacionais reforçadas por um conjunto de fatores facilitadores.

   Naquela época o Rio de Janeiro era a capital do país, a sede da presidência da República. O presidente era Juscelino Kubstichek, que vinha implementando uma política desenvolvimentista em seu governo. Ao mesmo tempo, figuras políticas bonjesuenses vinham ocupando postos de destaque no governo estadual, como era o caso de Roberto Silveira, então vice-governador do Rio de Janeiro, a quem se credita o êxito da realização da construção.

O bonjesuense Roberto Silveira
Foto: jornal O Norte Fluminense, 19/10/1958 

   Apesar de ser uma demanda antiga dos bancários, as conversas que iniciaram efetivamente a concretização de um projeto habitacional para a categoria, em Bom Jesus, ocorreram em fevereiro de 1957.  Nessa  data, em uma reunião de ampla participação, no Aero Clube da cidade, estiveram presentes (6):

- Pelo IAPB: o Delegado de Niterói, Walter Favila Nunes, e o Procurador da autarquia, Dr. Palmyr Silva;

- o Secretário particular do Vice-Governador Roberto Silveira, o bonjesuense Ely Nunes;

- Bancários

- Políticos bonjesuenses,  tais como: os vereadores Esio Martins Bastos e Jayme Rodrigues do Carmo; o suplente de deputado estadual, Tito Nunes da Silva; Dermevaldo Bastos Tavares, do PTB local, mesmo partido do Vice-Governador Roberto Silveira. 

   Dentre os resultados da reunião, definiu-se a fundação de um Sindicato dos Bancários de Bom Jesus, além de serem discutidas questões referentes a empréstimos e assistências médica e hospitalar. Outro tema da pauta foi a construção de um núcleo residencial para os bancários, tendo sido levantadas diversas possibilidades, como construção de casas ou edifício, estudando-se as condições em que ocorreria o pagamento dos imóveis adquiridos pelos bancários. (6)

  Nessa reunião montou-se uma Comissão dos bancários para estudar o assunto e consultar todos os interessados. A Comissão foi composta pelos seguintes representantes (6):

Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais: Zilton Citeli Assad;

Banco do Brasil: José de Almeida e Lauro Hipólito da Silva;

Banco do Estado: Antonio Castro;

Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo de Bom Jesus do Norte: Sebastião Laxe Gouvêia;

Caixa Econômica Federal, agência de Bom Jesus: José Ferreira Catharina.

    O jornal A Voz do Povo, em sua reportagem, indica que, por parte do IAPB havia preferência pela construção de um edifício, ao invés de casas. (6)

     Com efeito, essa vinha sendo a linha do Instituto empregada naquela década:

A partir de 1950, o IAPB consolidou uma política particular para os seus projetos habitacionais, caracterizada por edifícios de grande altura ou blocos únicos de quatro pavimentos implantados em terrenos de menores dimensões, integrados à malha urbana central das cidades, denominados “Edifícios dos Bancários” que acabaram se consolidando como um elemento de identidade da categoria. (7)

     Observamos assim, que a construção da obra em local próximo ao centro da cidade estava integrada às linhas diretrizes do IAPB, de forma que, quando os bancários encaminharam a escolha do local de construção do imóvel em um terreno na Rua República do Líbano, provavelmente conversações prévias para entendimento sobre essa localização já teriam ocorrido, especialmente entre bancários, políticos e gestores.

   Os jornais locais apontavam uma realização relativamente rápida, com previsão, ainda no primeiro semestre de 1957, da realização dos estudos necessários para a compra do terreno e lançamento do Edital de concorrência para a construção do "Edifício dos Bancários" (8, 9).

Lançamento da Pedra Fundamental: Festa de Agosto de 1957

Programação da Festa de Agosto, jornal O Norte Fluminense, 1957.
  

   A expectativa avançou com o lançamento da pedra fundamental do conjunto residencial no início do segundo semestre, durante a Festa de Agosto de 1957, ocasião em que se esperava a presença de diversas autoridades, dentre elas o Vice-Governador Roberto Silveira, havendo ainda a expectativa de estar este acompanhado do Vice-presidente, João Goulart, e do Ministro do Trabalho, Pascifal Barroso. (10) (11)

   Nessa ocasião, noticiava o jornal O Norte Fluminense, os bancários iriam oferecer um banquete aos visitantes, no Colégio Rio Branco. Além disso, as representações locais contavam apresentar as principais reivindicações da região: “transporte ferroviários (volta ao tráfego dos trens da C.F. Itabapoana) e do aproveitamento do potencial hidrelétrico do rio Itabapoana. Dois velhos e angustiantes problemas que manietam, que dificultam, a nossa marcha ascensional em demanda de dias mais prósperos.” (10)

Jornal O Norte Fluminense, 11/08/1957


   A visita das autoridades estaduais e federais a Bom Jesus durante a Festa de Agosto foi noticiada em diversos órgãos de imprensa do estado do Rio de Janeiro como tendo ocorrido no dia 15 de agosto, sendo anunciada também a visita do Governador do Rio de Janeiro, Miguel Couto. (12)

Visita do Sr. João Goulart a Bom Jesus. Na foto: 1. João Goulart, 2. Roberto Silveira, 3. José de Oliveira Borges, 4. Tito Nunes, 5. Miguel Couto, 6. Dermevaldo Bastos Tavares, 7. Parsival Barroso.
Imagem e Legenda: Álbum de Fotos Históricas - Acervo ECLB.

Legenda original identificando alguns dos integrantes da fotografia do Álbum de Fotos Históricas referente à visita do Sr. João Goulart a Bom Jesus do Itabaapoana, RJ. Acervo: ECLB. 

   O Diário Carioca dá mais detalhes da visita do vice-presidente ao Norte do Estado do Rio, destacando ter João Goulart passado por Itaperuna, onde inaugurou uma agência do SAPS e conversou com bancários locais. Em Bom Jesus do Itabapoana, "depois de presidir à inauguração de um armazém do SAPS, foi conhecer o local onde o IAPB vai construir um edifício de apartamentos  para bancários"*. Antes de regressar ao Rio de Janeiro, Jango e sua comitiva  participaram de um "banquete com que foram homenageados nos salões do Ginásio Rio Branco". (13)

   Com base nessas informações, que dão conta da  presença de João Goulart e Roberto Silveira juntos na Festa  de Agosto de 1957, participando da inauguração de um armazém do SAPS e do lançamento da pedra fundamental do Prédio dos Bancários, na Rua República do Líbano, tudo leva a considerar que a famosa fotografia publicada pelo jornal O Norte Fluminense em seu blog (veja aqui), em que é possível observar os dois políticos acompanhados de personalidades bonjesuenses nas imediações da Praça Governador Portela (14, 15) é referente ao mesmo evento. É possível observar que ambos portam a mesma roupa nas duas imagens. Bom Jesus teria, assim, recebido na época os dois políticos quando ocupavam o cargo de vice-presidente e vice-governador, respectivamente.

A construção 

  O Edital de concorrência pública nº 8/58 foi lançado pelo IAPB em 10/05/1958, sendo publicado em jornais de grande circulação no país. O objetivo era "a construção de um edifício na cidade de Bom Jesus do Itabapoana, Estado do Rio de Janeiro, à Rua República do Líbano e Coronel Luiz Vieira de Rezende", sendo a data da concorrência, após adiamento, marcada para 15/06/1958. (16)

    Com valor do contrato de sete milhões e duzentos e  dez mil cruzeiros, foi dado início às construções em 20/10/1958. O prazo estimado para a conclusão foi de dez meses. A execução ficou a cargo da Empresa Nacional de Saneamento e Obras (ENSO S.A.), tendo sido o engenheiro responsável pela obra o sr. Antonio Monteiro de Barros. Atuou no local como engenheiro encarregado o sr. José de Alencar, que permaneceu em Bom Jesus durante o período dos trabalhos. (17)

"Prédio dos Bancários" em construção. Jornal A Voz do Povo, 1959.
   Sete meses depois, em maio de 1959, foi comemorada a festa da Cumieira no edifício (18), indicando que a obra já estava no seu ápice, pois essa festa, de antiga tradição, era realizada quando a construção alcançava o ponto mais alto do telhado da casa.
   Ao ficar pronta a obra, seu custo alcançou dez milhões e cem mil cruzeiros (19). Foi entregue à cidade um prédio de três andares, “todos de concreto armado”, em um total de 12 apartamentos, sendo três deles com três quartos e os demais com dois quartos cada, “afora dependências para empregados” (17). Como os bancários constituíam à época um grupo de trabalhadores com salários relativamente altos em relação à população geral, os projetos do IAPB muitas vezes eram pensados para essa “parcela socialmente mais abastada de associados”, o que poderia explicar a construção de “dependência para empregados”(3).
   Com excelente localização, próximo à Praça Governador Portela, o Prédio foi considerado a “obra de maior monta que possuímos” (19), criando a expectativa de acrescentar à incipiente Rua República do Líbano o dinamismo e a perspectiva que dela esperavam os que se aplicaram em sua abertura, iniciada na década de 1940.

Inauguração do Prédio dos Bancários: Festa de Agosto de 1959

"Prédio dos Bancários" recém construído. Jornal A Voz do Povo.

  A inauguração, com desatamento de fita e descerramento de placa comemorativa, ocorreu no dia 14, durante a Festa de Agosto de 1959, ao som da Banda da Política Militar do Estado, que tocou “um vibrante dobrado” (20) (21).

   Dentre os presentes que fizeram uso da palavra estavam (20):

- Lauro Hipólito da Silva, representando os bancários bonjesuenses;

Jornal O Norte Fluminense, 1959

- Professor David Gebalie, em nome da colônia libanesa local e do Clube Libanês, de Niterói;

- J. Costa, em nome dos bancários de Campos;

- O deputado Tito Nunes da Silva, representante na Assembleia Estadual;

- O Prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, Gauthier Pontes Figueiredo;

Jornal O Norte Fluminense, 1959

- O Presidente do IAPB, Ennos Sadock de Sá Motta;

Jornal O Norte Fluminense, 1957

- O bonjesuense Roberto Silveira, na condição de Governador do Estado do Rio de Janeiro.

Edifício Octacilio de Aquino

Edifício Octacilio de Aquino dá nome ao "Prédio dos Bancários" e consta em seu pórtico de entrada.
Foto: Paula Bastos, 2021.

   Em sua fala, o Governador Roberto Silveira sugeriu que, ao invés de colocarem seu nome no Edifício, como constava no Programa, que este recebesse o nome do recém falecido Octacilio de Aquino, “cuja memória é grata aos bonjesuenses, não apenas como grande intelectual que foi, mas também como Juiz de Direito Substituto da Comarca e um dos mais ilustres filhos de nossa terra” (20) (saiba mais). A sugestão foi aceita, perdurando o Edifício com esse nome até os tempos atuais, conforme pode-se observar no pórtico da entrada de acesso ao Prédio voltado para a rua Coronel Luiz Vieira Rezende.


O nome Octacilio de Aquino para o prédio foi sugestão de Roberto Silveira, como homenagem ao famoso bonjesuense, recém-falecido à época. Foto: Paula Bastos, 2021.


   A fala de Lauro Hipólito da Silva, representante dos bancários de Bom Jesus, além dos agradecimentos gerais, expressou bem o sentimento que deve ter atingido a muitos dos que contemplaram o prédio naquele momento: “o regozijo da classe é plenamente justificável, pois se o nosso edifício carece, em suas linhas, de arrojo funcional que caracteriza a arquitetura hodierna, oferece a segurança e o conforto, requisitos por nós considerados essenciais”. (21). É possível que, em sua fala, o bancário estivesse pensando nas novas casas que vinham sendo construídas no centro da cidade, em especial as de propriedades dos vários libaneses que vinham dinamizando a arquitetura urbana das casas com suas novas e rebuscadas construções pelas ruas do centro da cidade e na Praça Matriz, onde inclusive um Edifício ao estilo eclético havia sido inaugurado no início da década, o imponente Cine Teatro Monte Líbano (22)(23).

   Apesar de inaugurado, o Edifício dos  Bancários ainda não se encontrava pronto para ser habitado, pois havia a indicação de que necessitava de algumas finalizações, que estavam previstas para serem concluídas em um mês.

    Em fins de 1959, matéria do jornal A Voz do Povo indica que, apesar de habitável, o “edifício que tanto veio embelezar e enriquecer a rua República do Líbano, continua até hoje sem moradores. É que o aluguel dos apartamentos, em alguns casos, atinge a mais de seis mil cruzeiros, preço exorbitante mesmo para os associados que percebem melhores vencimentos”. Uma solicitação dos bancários bonjesuenses foi encaminhada ao IAPB solicitando que “o assunto fosse estudado com mais cautela e espírito de equidade”, havendo a expectativa de se fizesse uma “revisão no peço dos aluguéis, para que os mesmos sejam estipulados em bases mais justas” (24).

  A situação parece não ter sido resolvida de imediato, pois em julho de 1960, o mesmo jornal informa que o prédio conta com vários apartamentos desocupados, o que seria decorrente do alto preço dos aluguéis e do alto valor necessário para aquisição. Estariam morando no local apenas três bancários e um particular, porém não na condição de compradores, mas sim de inquilinos. O pagamento de água e luz, bem como o do zelador e do síndico estavam a cargo do Instituto dos Bancários, para garantir a conservação da obra (19).

Os elogios da imprensa 

   A forma como a imprensa se refere ao prédio, seja durante sua construção ou após finalizado, é sempre elogiosa, reforçando a convicção de que sua relevância não está apenas na função habitacional, mas também no impulso ao progresso. Assim, a expectativa é de que a obra “virá cooperar em muito para o maior desenvolvimento da cidade, com a edificação de um prédio de linhas modernas numa de suas ruas principais” (9). Essa construção “será um relevante serviço à classe e também à nossa terra que tanto necessita de iniciativas dessa natureza para o seu maior desenvolvimento” (6). No mesmo sentido, afirma-se que “Além de atender às aspirações da classe, virá concorrer para o maior desenvolvimento de nossa terra”. O conjunto residencial ganha adjetivos como “suntuoso” (17), “imponente” (18), “magnífico”, sendo a obra “majestosa” (19). Ao final de sua realização, a afirmação é de que a “obra cara e suntuosa, veio, sem dúvida, cooperar para o embelezamento de Bom Jesus e para o enriquecimento de seu parque imobiliário (26).


Memórias do modernismo local

"Prédio dos Bancários", na esquina entre as ruas República do Líbano e Coronel Luiz Vieira
de Rezende. Foto: Paula Bastos, 2021.

   Podemos perceber que o “Prédio dos Bancários” de Bom Jesus possui uma característica arquitetônica peculiar integrada a um projeto nacional que envolveu as políticas nacionais habitacionais.

    Ao pesquisar sobre o Edifício dos Bancários de Passo Fundo (RS), Souza destaca a importância de se pesquisar tais imóveis, afirmando que

(...) o estudo da atuação dos Institutos de Aposentadoria e Pensões no campo habitacional, sobretudo, em cidades distantes das capitais, se faz necessário frente a necessidade do resgate histórico de suas ações e, especialmente, da salvaguarda do patrimônio arquitetônico moderno. (3)

  Podendo ser considerado o primeiro prédio habitacional modernista da cidade, o "Prédio dos Bancários" não é o único imóvel de Bom Jesus projetado sob influência modernista. 

    A  fachada do Hospital São Vicente de Paulo voltada para a  Avenida Fasbender, na época de sua inauguração,  "se constituía como uma evidente arquitetura do período modernista, possuindo um conjunto de elementos clássicos do movimento e que, atualmente, encontra-se completamente descaracterizada" (26).

   Não parece descabido imaginar que um estudo mais detalhado do patrimônio local poderia apontar outros imóveis com características alinhadas com o conceito modernista que tanto influenciou arquitetos e engenheiros daquela época.

   Reconhecer o passado nos conteúdos de memórias que persistem na atualidade pode contribuir para reflexões sobre o futuro que queremos para nossa vida em comum nos centros urbanos. Esse futuro deveria pensar a arquitetura de uma cidade compreendendo os usos e expectativas de seus moradores, de forma a garantir uma área urbana que preserve o bem estar de seus habitantes.


* A inauguração do Posto do SAPS  (Serviço de Alimentação da Previdência Social) ocorreu na Praça Governador Portela (jornal O Norte Fluminense, n. 500, 01/09/1957)

(atualizado em 31/03/2025)

                                       ***

Agradeço aos meus irmãos Claudia Bastos do Carmo e Gino Borges Bastos por suas pesquisas, que sempre contribuem com dicas preciosas para os estudos que tenho feito na área da memória local.

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Referências 

(1) LIMA, Bruno Avellar Alves; ZANIRATO, Silvia Helena. Uma revisão histórica da política habitacional brasileira e seus efeitos socioambientais na metrópole paulista. In: I Seminário Internacional de Pesquisa em Políticas Públicas e Desenvolvimento Social, Franca (SP), 2014.

(2) PALHAS, Ana Cristina Menezes. Os blocos de Niemeyer para o IAPB em Brasília: memória e preservação da SQS 108. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo). Universidade de Brasília, Brasília, 2022.

(3) SOUZA, Edgar. O Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários e a habitação moderna brasileira: o caso do Edifício dos Bancários em Passo Fundo/RS. Cadernos PROARQ, UFRJ, 2021. Disponível em: https://cadernos.proarq.fau.ufrj.br/public/docs/Proarq36_10_Instituto%20de%20Aposentadoria_Junho2021.pdf Acesso 23/03/2025.

(4) BONDUKI; KOURY, 2014, p.179, apud PALHAS, 2022, p.41 (ref.2).

(5) FERREIRA, Marcílio Mendes.  GOROVITZ, Matheus. A invenção da superquadra, 2ª edição, Brasília, IPHAN, 2020. p. 52. Acesso 23/03/2025. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/ainvencaodasuperquadra2aed.pdf Acesso 25/03/2025.

(6) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 16/02/1957.

(7) BONDUKI; KOURY, 2014, p., apud SOUZA, 2021, p.192 (ref.3)

(8) O Norte FluminenseBom Jesus do Itabapoana, 21/03/1957, n.47.

(9) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22/03/1957.

(10) O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 11/08/1957, n. 498.

(11) O Fluminense, Niterói, 14/08/1957, n.22849.

(12) Jornal do BrasilRio de Janeiro, 14/08/1957, n.187.

(13) Diário Carioca, Rio de Janeiro, 16/08/1957, n.8924. 

(14) A visita histórica de João Goulart a Bom Jesus. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2014/03/a-visita-historica-de-joao-goulart-bom.html Acesso 23/03/2025.

(15) As polêmicas sobre a foto da Rua República do Líbano. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2015/07/as-polemicas-sobre-foto-da-rua.html Acesso 23/03/2025.

(16) Diário da Noite, Rio de Janeiro, 02/06/1958.

(17) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 01/11/1958, n. 1204.

(18) O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 03/05/1959, n.579.

(19) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 09/07/1960.

(20) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22/08/1959.

(21) O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 30/08/1959.

(22) A história do Cine Teatro Monte Líbano. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2021/09/a-historia-do-cine-teatro-monte-libano.html Acesso 23/03/2025.

(23)  Praças Amaral Peixoto e Governador Portela: Bom Jesus do Itabapoana e seus centros históricos. Disponível em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2021/05/pracas-amaral-peixoto-e-governador.html Acesso 23/03/2025.

(24) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, xx/12/1959.

(25) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 27/02/1960.

(26) LETTIERI, Ana Paula Pereira de Campos. Breve descrição das fachadas do Hospital São Vicente de Paulo e Capela Nossa Senhora do Rosário. Disponível em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2023/09/breve-descricao-das-fachadas-do.html Acesso 24/03/2025.