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quinta-feira, 17 de abril de 2025

Memórias do séc. XX: Arlindo Lirio do Vale, um Amanagé no Vale do Itabapoana

No centro: Esio Bastos (E) e Arlindo Lirio do Vale (D), em Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 1959. Acervo ECLB.

Por Paula Aparecida Martins Borges Bastos

         

       No momento em que a população local se regozijava com a instalação do município de Apiacá, ES, (a), em 1959, a cidade contava com a presença de um visitante especial. Esse homem era Arlindo Lirio do Vale (b), indígena Amanagé (c), nascido na região amazônica, e a quem a revista Cigarra Magazine se referia, em 1956, nos seguintes termos: “índio autêntico, o Capitão Arlindo Lírio do Vale é chefe político” (1).

       Arlindo Lirio do Vale, nascido na última década do Oitocentos, tem uma história de vida que bem merece ser mais conhecida por todos nós. Como homem indígena e político de seu tempo, depois de atuar em sua região natal, migrou para a capital do Brasil, à época o Rio de Janeiro, na expectativa de poder interferir de forma mais incisiva junto às instâncias de poder e conseguir melhorias para a população indígena a qual dizia representar. Contava, para isso, com as conexões que tinha com políticos de renome nacional, e também com o conhecimento que dizia ter com Cândido Rondon (d), a quem admirava, e que era reconhecido no país como protetor dos povos indígenas.

    A partir de artigos e informações dispersas que encontrei sobre Lirio do Vale, buscarei traçar um esboço de sua trajetória, para seguirmos seus passos até sua chegada ao Vale do Itabapoana.

A origem: filho da Morubixaba Damasia

        Arlindo Lirio do Vale se apresentou em Bom Jesus do Itabapoana como sendo Amanagé e “nascido em terras banhadas pelo rio Ararandêua” (2). Natural do sudeste do Pará, teria nascido em 1895 (3).

         Sua mãe Damasia, de possível origem quilombola, ainda nova foi integrada à comunidade indígena, sendo chefe morubixaba dos Amanagé que habitavam o iguarapé Ararandeua, desde final do século XIX até a década de 1930 (4) (5).

      Damasia teve três filhos: os irmãos Arlindo Lirio do Vale, Filomena e Balbino. Esse último assumiu a chefia dos Amanagé após a morte da mãe, sendo conhecido como Capitão Balbino (4).

         Lirio estudou em um seminário de padres, onde lhe foi ensinado “agricultura tanto pratica como teoria”. No ano de 1922, porém, foi obrigado “a abandonar os estudos”, pois “precisava da carteira de reservista” (4, p.73). Com os conhecimentos adquiridos no colégio, Arlindo passou a integrar o ainda restrito grupo de pessoas  alfabetizadas no Brasil, que na década de 1920 era estimado em 35% do total da população (6).

Atuação nos Postos Indígenas do Serviço de Proteção ao Índio (SPI)

      A experiência de Lirio do Vale com o órgão de Estado precursor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), parece ter começado nos anos iniciais de existência do SPI. Em sua fundação, em 1910, pelo Presidente Nilo Peçanha, o órgão tinha a sigla SPILTN (e), estando desde sua criação sob a direção de Cândido Rondon.

      A primeira atuação de Lirio do Vale teria sido um trabalho não remunerado, em 1911. Atuou em Postos Indígenas de sua região, e detectando vários problemas, passou a fazer criticas ao que considerava inadequado. O Posto Indígena (PI) do rio Capim, por exemplo, segundo Lirio, se encontrava completamente inoperante, enquanto outros se encontravam ausentes de recursos e de condições de trabalho, o que era necessário para garantir a proteção da população indígena do entorno (4).

     O exemplo de sua mãe como liderança indígena local e a admiração por Cândido Rondon devem ter sido as principais influências que levaram Lirio do Vale a trilhar o caminho que o levou a se compreender como um homem político voltado para a defesa da população indígena. Além disso, sua experiência inicial nos Postos Indígenas deve lhe ter dado condições de ampliar sua consciência na observação da realidade local e dos desafios por que os povos indígenas da região passavam.

   Consciente da importância da política nacional e suas consequências para os povos indígenas, Lirio não hesitou e, consequente com suas expectativas, apoiou a candidatura de Getúlio Vargas para Presidente da República. Sua viagem ao Rio de Janeiro, em 1929, junto com o deputado federal José Joaquim Seabra, ex-governador da Bahia, para fazer campanha a favor de Vargas, pode ser lida como uma demonstração de que nessa época os homens políticos de seu tempo já distinguiam Arlindo como alguém a ser considerado, pois seu apoio poderia significar um potencial capital político (4) (f).

Presidente Getúlio Vargas, quadro pertencente ao antigo Colégio Rio Branco. Acervo ECLB.


       Em 1932, já estando o Brasil sob a presidência de Getúlio Vargas, Lirio está de volta a sua terra e continua desenvolvendo seu trabalho no PI do Rio Capim. Alguns anos depois é nomeado Delegado do Serviço de Proteção aos Índios, e nessa condição passou a “prestar assistencia aos índios do posto de alcobaça, e os índios anaubés do rio cariri”. (4, p. 73)

         Com uma atitude propositiva frente aos Postos Indígenas e suas contínuas demandas e reinvindicações, parece ter havido desconfiança por parte de alguns trabalhadores não indígenas do SPI em relação a Arlindo. Além disso suas críticas, muitas vezes explícitas, quanto à ineficiência de alguns Postos, podem ter gerado algum desconforto nos que ali ocupavam algum cargo (4).

No Rio de Janeiro, capital da República

          A década de 1940 parece ter sido um momento decisivo na vida de Lirio do Vale. Com seu grupo Amanagé sendo liderado pelo irmão Capitão Balbino, Lirio parece ter assumido de vez sua condição de político junto às instâncias de poder da capital, usando sua tática de, como indígena representante de seu povo, lutar por melhorias nas ações das estruturas de Estado voltadas para as questões indígenas.

           Arlindo acabou voltando ao Rio de Janeiro, onde procurou o SPI. O órgão registrou, em 1943, que Lirio ali “ressurge como tendo vindo tratar com o Governo a respeito de assuntos agrícolas e transportes de produtos das duas tribos de índios de quem se diz capitão ou pagé” (4, p.94).

       É possível que ao se decidir por retornar ao Rio de Janeiro, Arlindo Lirio do Vale tenha pensado em conseguir um encontro com o Presidente, na expectativa de expor a situação indígena de sua região e apresentar, na condição de indígena letrado, competente e experiente, as soluções que poderiam advir do que considerava serem ações corretas e concretas a serem tomadas pelo SPI.

      Em 1945, Lirio estava morando, com seus dois filhos mais velhos, no bairro Vaz Lobo, subúrbio do Rio de Janeiro. Ao convencer-se da impossibilidade de tal encontro, naquele mesmo ano, restou-lhe a opção de escrever uma carta ao Presidente da República: “[...] estou nesta capital para falar diretamente com Vossa Ex. e tenho certeza de que Vossa Ex. compreenderá os sentimentos de um índio brasileiro” (4, p.80).

Carta a Getúlio Vargas: "[...] quem pode dar proteção ao índio é o próprio índio (4, p.84)

        Na carta enviada ao Presidente, em 1945, junto com um memorial sobre sua vida e suas experiências nos Postos Indígenas, expunha os problemas que percebia nesses Postos e nas ações do SPI. Nesse contexto, reivindicava ser nomeado para o cargo de Inspetor Geral do Pará, afirmando na carta ter

competência para ser nomeado inspetor em minha terra, como provas de trabalhos prestados ao SNPI e não bastante provarei com documentos, que venho trabalhando sem nada ganhar em prol da grandeza do Brasil” (4, p.81).

      Lirio afirmava que cumpriria com responsabilidade as atribuições referentes ao trabalho do SPI, tais como proteção e assistência indígena, o que, criticava, não ocorria em muitos postos que conhecia e eram comandados por não indígenas. Afirmava-se apto e capaz pois, além de ter estudado matérias básicas e profissionais na juventude, possuía experiência sobre como vinha se dando a atuação dos PI em sua região e, argumento principal, era indígena (4).

      Com sua retórica e argumentação, Lirio do Vale procurava demonstrar que, sendo indígena, possuía melhor capacidade de compreender e organizar os povos da região e, conhecendo suas realidades, atuaria no sentido de buscar apoio e assistência a todos eles, citando algumas das ações as quais se propunha realizar:

farei a união dos índios turis do rio acara, e os índios ananbés do rio carari, com os índios tenbés e amanajás de minha taba em minha terra, pacificarei os índios gaviões e urubus que constantemente atacam o posto de alcobaça, onde com meus próprios olhos pude observar a falta de patriotismo daquele posto” (4, p.79).

        Esses ataques, indicava, não eram gratuitos: “os índios gaviões e urubus que vivem em constantes guerras com os brancos, que invadem os seus domínios” (4, p.82).

       Para Ribeiro (7), muitas situações ocorridas durante o Regime Vargas são exemplares do modo como os indígenas vão redimensionar a tutelagem e elaborar dinâmicas próprias, a partir de suas culturas, cosmologias e territorialidades”. Nesse sentido, aponta, Lirio do Vale é um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade. 

Um discípulo do Marechal Cândido Rondon

         Admirador de Rondon desde seus tempos de atuação nos Postos Indígenas no norte do país, Lirio também enviou, em 1945, uma carta ao então General Cândido Rondon. Nela, solicita apoio para sua indicação ao cargo de Inspetor Geral do Pará, explicando ter enviado carta ao Presidente. Na carta a Getúlio, Lirio do Vale se refere a Rondon como alguém com uma “digníssima carreira protetora”, dizendo-se discípulo capaz de seguir os exemplos de suas façanhas, caso seja nomeado para o cargo pleiteado (4).

Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958)

      Em 1955, Arlindo Lírio do Vale esteve presente, no Rio de Janeiro, ao evento que comemorou os 90 anos de Candido Rondon, quando o Congresso Nacional, no Palácio Tiradentes, outorgou ao nonagenário o título de Marechal do Exército Brasileiro. Em um vídeo da coleção do “Conselho Nacional de Proteção aos Índios” (CNPI), disponível numa rede social, é possível vislumbrar Lirio do Vale, ao final do ato, seguindo atrás e a direita do Marechal ao iniciar a descida das escadarias do Prédio (veja aqui). Em uma fotografia do lado de fora do Palácio, publicada na parte central de uma página da Revista Manchete, estão o Marechal Rondon e Arlindo Lirio do Vale em primeiro plano, posando para a foto, estando em segundo plano o Senador Nereu Ramos (veja aqui). Arlindo porta um belo cocar e diversos colares com amuletos, confirmando a todos os presentes, com orgulho, sua identidade indígena.

Percorrendo Minas Gerais: difusão das tradições ancestrais e defesa dos povos indígenas

Conferências para difusão da cultura indígena

     Lirio do Vale percorreu diversas cidades mineiras, como Conselheiro Lafaiete e Barbacena, na décadas de 40, fazendo conferências que abrangiam a difusão das culturas e línguas indígenas, bem como das ações e políticas indigenistas de Getúlio Vargas (g). Em um dos panfletos da época, consta a divulgação de uma conferência a ser feita por Lirio do Vale e o indígena Guaicurú Umburaé “em uma das Casas de Diversões da cidade”, onde os dois tratariam de “assuntos inteiramente indígenas, discutindo a língua nativa: TUPÍ E GUARANÍ (...) atenderão com satisfação a todos os interessados (...)”. O panfleto termina fazendo uma ressalva para a população: “Não se trata de feitiçaria nem de bruxaria”.

     No geral, parece que esses eventos eram apreciados pela população, como é possível deduzir pelo ocorrido no Cine Brasil, em Barbacena, em que Lirio é mencionado como “o simpático índio”, que após ter falado “sobre cousas e fatos peculiares à sua gente”, foi “muito aplaudido”. A matéria ressalta que “O cacique Lírio do Vale mostrou ser um grande patriota e amante do crescente desenvolvimento de nossa querida Pátria (...)" (4, p.86).

Em território Xakriabá: apoio à luta pelo direito à terra

       Na década de 1950, Lirio continuava pela região sudeste, percorrendo especialmente o extenso território mineiro. Sua permanência em determinadas localidades, porém, não agradava a todos os moradores, como se observa no ocorrido nos então distritos de Itacarambi e Missões, onde ele e seu filho, Lirio Arlindo do Vale Filho, se envolveram no apoio a indígenas locais que defendiam seu direito à terra. Sua ação de dirigirem-se “aos moradores que não eram descendentes indígenas para orienta-los a se mudarem daquelas terras” (4, p.64) gerou um indiciamento policial, em 1951, no qual eram acusados de ameaçar agricultores e pecuaristas “com a justificativa de que aquelas terras pertenciam aos descendentes dos índios Tupinambá”.

      Os Xakriabá, nesse tempo, se organizavam e tomavam providências para conseguir a posse legal de suas terras. Para isso, suas lideranças faziam viagens ao Rio de janeiro “em busca de apoio, ajuda e informações que nos defendessem”. É possível que Lirio do Vale tenha conhecido algumas dessas lideranças, “como Rosalino e Rodrigo, que denunciaram invasões no território Xakriabá”, dirigindo-se à região para contribuir com seu apoio, consequente com a missão que se propunha na defesa do povo indígena (8).

             O ambiente daquela época, na região, é resumido na seguinte reportagem recente: 

Quando o agricultor José Fiuza Xakriabá nasceu, em 1950, as leis de proteção aos territórios indígenas no Brasil eram frágeis. A Terra Indígena Xakriabá, que hoje abrange 54 mil hectares no norte de Minas Gerais, ainda não havia sido regularizada e era cobiçada por grileiros. Ataques e invasões eram frequentes. Assim, cedo Fiuza entendeu o que era a sina indígena de que seu pai tanto falava: ter de lutar pelo direito à própria existência.” (9)

        A relação de Lirio do Vale com a região do São Francisco parece ser persistente, pois, anos depois, em 1956, Lirio aparece em uma reportagem sobre as Carrancas do rio São Francisco, com uma narração de viagem de barco pelo velho Chico. Dentre as várias fotografias que ilustram a matéria, feitas durante a viagem, consta uma de Lirio do Vale, de perfil, com a legenda: “índio autêntico, o Capitão Arlindo Lírio do Vale é chefe político” (veja aqui). Nenhuma outra menção a ele é encontrada no texto jornalístico, o que permite algumas perguntas: estaria Lirio fazendo a mesma viagem ou estaria em algum dos lugares de parada do barco? Sem resposta, podemos apenas perceber que sua figura chamou a atenção do fotógrafo e do repórter a ponto de terem inserido sua imagem na revista.

Apoio aos Krenak e crítica a Juscelino Kubistchek

       Sempre atento às questões indígenas, Lirio do Vale foi um grande crítico das ações do Presidente Juscelino Kubistchek em território mineiro, “acusando-o estar tomando as terras dos índios Crenaque” (2).

           Com efeito, na década de 1950, os Krenak sofreram o primeiro de “dois episódios de reassentamento forçado promovidos pelo Estado brasileiro” no século XX (h). No ano de 1957,

“foram retirados de suas terras de forma violenta pelos agentes do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e deslocados para as terras indígenas dos Maxacali, em Águas Formosas, no município de Santa Helena de Minas/MG. Eles retornaram em 1959 para seu território tradicional, numa caminhada que durou três meses.” (10)

No Vale do Itabapoana: Bom Jesus do Itabapoana e Apiacá 

       Quando Lirio do Vale esteve em Bom Jesus do Itabapoana, no verão de 1959, um dos lugares que visitou foi a redação de um jornal local, O Norte Fluminense, cujo fundador e diretor, Esio Bastos, era à época vereador em seu terceiro mandato. Como cartão de apresentação, além do documento pessoal, Lirio apresentou a fotografia publicada na Revista Manchete, de 1955, em que aparece ao lado do Marechal Rondon, de quem se dizia amigo, e do senador Nereu Ramos. Essa informação, contida no periódico bonjesuense, permitiu resgatar esse momento de Lirio no Rio de Janeiro, uma vez que a revista carioca não apresenta nenhuma legenda ou menção em texto que possa identifica-lo.

        A matéria de jornal, repleta de adjetivos elogiosos, destaca o "português correto" de Lirio do Vale, o qual é apresentado como “um autêntico chefe indígena” que utiliza "vestes atraentes à altura de sua alta posição". É apresentado como "uma figura forte, vivaz, espetacularmente adornado com colares, penas e pulseiras" (2).

Acervo ECLB
      

       A visita a Bom Jesus se deu numa sexta-feira e movimentou a cidade, com os moradores interessados em conhecer o chefe indígena, em especial as crianças, que o acompanharam por todos os lugares por que passou. É possível perceber na fotografia em que aparece com o jornalista e vereador Esio Bastos (no topo desse artigo), adultos e crianças rodeando os dois homens, entre curiosos e atentos.

Ervas medicinais tradicionais

      Os conhecimentos ancestrais dos Amanagé sobre o uso das plantas para fins medicinais era preservado por Arlindo Lirio do Vale, que muitas vezes empregava e divulgava o uso de receitas de ervas em suas andanças pelo interior do país (4). Em uma sociedade que sempre preservou em suas práticas cotidianas a memória rural do uso de fitoterápicos, as ervas de Lirio do Vale devem ter sido muito consideradas nos lugares por onde passou. Em Bom Jesus do Itabapoana, o Amanagé divulgava “«sua» Erva do Índio (Carucaxá), afirmando a excelência para a cura de diversos males” (2).

Apiacá, Vargas e Lirio

       Lirio do Vale se estabeleceu, no Vale do Itabapoana, em uma localidade que teve sua nomenclatura alterada na onda do movimento modernista que se iniciou no Brasil na década de 1920 e que ganhou maior expressão na Era Vargas, “uma época em que os topônimos de origem indígena foram abundantemente criados no país” (11).

     Foi nesse período que o Presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 5.901, de 21/10/1943 (12), instituindo as normas para nomenclaturas de cidades, com a indicação, em seu art. 7º, III, de que, para as localidades em que houver alteração de nome, é “recomendável a adoção de nomes indígenas”.

        Apenas dois meses após a criação dessa Lei Federal, o Estado do Espírito Santo emitiu o Decreto-lei Estadual nº 15.177, de 31/12/1943, determinando as alterações dos antigos nomes das localidades de Boa Vista e Barra Alegre para Apiacá e Iurú, respectivamente (13).

     Em 1959, vivenciando o clima de satisfação e esperança da população local com a recente emancipação de Apiacá, é possível que Lirio do Vale tenha vislumbrado na localidade a possibilidade de se estabelecer de forma mais permanente na região, pois o redator do jornal O Norte Fluminense destacou estar o indígena naquele momento “residindo em Apiacá onde possivelmente fixará residência” (2).

Vale do Itabapoana, um recanto de memórias Macro-Jê

     

Antiga Fazenda dos Puri, Apiacá, ES. Foto: Paula Bastos, 2023.

        É possível que por suas andanças pela região, Lirio tenha, altivo e ativo, conversado com diversas pessoas sobre ancestralidade e herança indígena, interessado em descobrir sobre vivências e memórias dos povos indígenas de nossa região. É possível que tenha encontrado antigos trabalhadores da Fazenda dos Puri e outros moradores e moradoras que, inspirados, lhe tenham contado sobre sua origem indígena, e com ele tenham trocando receitas com plantas locais.

Antiga Fazenda dos Puri, Apiacá, ES. Foto: Paula Bastos, 2023.
      

     É possível que quando Lírio contasse de sua terra de origem, na região amazônica, o povo do Vale do Itabapoana, entre curioso e atento, tirasse do fundo de suas memórias encobertas, sons de um tempo distante com gosto de presente, passado e futuro.

      Passados 78 anos da demanda de Lirio do Vale ao Presidente Vargas, no ano de 2023 foi empossada a primeira indígena à frente da FUNAI, Joenia Wapichana (11). Nesse mesmo ano, se deu a criação do Ministério dos Povos Indígenas, tendo como Ministra a indígena Sonia Guajajara (12).

***

É permitia a reprodução do conteúdo deste blog em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Notas 

(a) Elevado a município em 1958, a partir da emancipação de Mimoso do Sul (ES), foi instalado em 29/01/1959, constituído por dois distritos: Apiacá (sede) e Iuru. Ver: https://site.apiaca.es.gov.br/paginas/191

(b) Também grafado em algumas fontes como Lyrio do Valle ou Lirio Arlindo do Vale.

(c) Integrante da família linguística Tupi-Guarani, Amanagé teria como significado "associação de pessoas". Também conhecidos como Amanayé, habitam atualmente o alto curso do Rio Capim. A denominação Ararandeuara foi assumida pelos Amanagé que habitam o igarapé Ararandeua. Lirio do Vale, na década de 1940, também se apresentava como indígena Tembé, povo que ocupava grande área do território onde os Amanagé de Lirio do Vale se encontravam naquela época. Ver: https://antropos.org.uk/5-amanaye-amanage/ ; https://www.etnomuseudigital.com.br/povo/amanaye/ ; https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Amanay%C3%A9 

(d) Militar e sertanista, nasceu em Mato Grosso, em 1865. Participou da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, e nesse trabalho fez contato com diversos povos indígenas, ao andar pelo interior do Brasil. "Embora tenha sido adepto de uma perspectiva integracionista, em voga na época, sua conduta pacifista é admirável", tendo como lema "morrer se preciso for, matar nunca!". Seu trabalho com os indígenas resultou na criação do "Serviço de Proteção ao Índio" (SPI) e depois no "Conselho Nacional de Proteção aos Índios" (CNPI). Faleceu em 1958. Ver: https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/calendario-de-fevereiro-destaca-marechal-rondon-e-a-criacao-do-servico-de-protecao-aos-indios-spi/ 

(e) "Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais".

(f) As relações de Arlindo Lirio do Vale com políticos do período do Governo Vargas podem ser lidas dentro de um movimento geral “como comenta Seth Garfield, [em que] os indígenas foram praticamente convocados por Getúlio Vargas e seus correligionários (políticos e intelectuais) enquanto recurso simbólico do regime que moldava certas representações, discursos e práticas estatais nesse cenário” (7).

(g) Garfield (3) aponta que Lirio criticava “não a missão do Estado de proteger e integrar os índios, mas seu modus operandi” (p.30). O autor aponta as complexidades da época da era Vargas, e remetendo ao conceito de Gramsci sobre “conscientização contraditória”, indica que “o discurso de Valle revela como os índios brasileiros, como outros grupos subalternos, tanto apropriaram-se dos símbolos dominantes como os desafiaram” (p.31).

(h) O segundo episódio se deu em 1972, sob gestão da FUNAI e apoio do Estado de Minas Gerais (10).

Referências

(1) CIGARRA Magazine, SP, ed. 6, junho 1956. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=003085&pagfis=58490 Acesso 09/04/2025.

(2) CACIQUE indígena esteve em Bom Jesus. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 01/02/1959.

(3) GARFIELD, Seth. As raízes de uma planta que hoje é o Brasil: os índios e o Estado-nação na era Vargas. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 20, n. 39, p.15-42, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/5WGW9qddWRkHSnkrckzLHrx/?lang=pt  Acesso 15/04/2025.

(4) ROSA, Roberta Cristina Silva. Os índios brasileiros e o Serviço de Proteção aos Índios: a atuação de Lyrio Arlindo do Vale (1942-1945). Dissertação (mestrado) Programa de Pós-Graduação em História, UERJ, Rio de Janeiro, RJ, 2016.

(5) GOMES, Jussara Vieira. Grupos indígenas Amanayé e Anambé, do Pará (Relatório), RJ, 28/06/1984. Publicado no Boletim do Museu do Índio, documentação nº 7, dezembro 1997.

(6) TAVERNA, Aline Rosenente; TAVERNA, Maria Rosenente; MELLO, Eloisa Helena. Processo histórico do analfabetismo no Brasil (1500-1945). Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.8, n.9, p.62250-62265, 2022. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/52006 Acesso 15/04/2025.

(7) RIBEIRO, Benedito Emilio. Povos indígenas e o Regime Vargas: tutelagem, resistência e agenciamentos, 16/05/2024. Disponível em: https://www.geledes.org.br/povos-indigenas-e-o-regime-vargas-tutelagem-resistencias-e-agenciamentos/ Acesso 06/04/2025.

(8) XAKRIABÁ. Povos Indígenas no Brasil. Disponivel em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Xakriab%C3%A1 Acesso 15/04/2025.

(9) O GLOBO - https://oglobo.globo.com/ - 27/07/2024. Disponível em: https://www.terrasindigenas.org.br/en/noticia/224888 Acesso 15/04/2025.

(10) MG – Povo indígena Krenak segue lutando por reconhecimento e demarcação total de seu território tradicional (atualização 04/08/2018). Disponível em: https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/mg-povo-indigena-krenak-segue-lutando-por-reconhecimento-e-demarcacao-total-de-seu-territorio-tradicional/ Acesso 06/04/2025.

(11) NAVARRO, Eduardo de Almeida. A toponímia indígena artificial no Brasil: uma classificação dos nomes de origem tupi criados nos séculos XIX e XX. Revista Letras Raras. Campina Grande, v. 9, n. 2, p. 252-267, jun. 2020. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/A_topon%C3%ADmia_ind%C3%ADgena_artificial_no_Brasil  Acesso 15/04/2025.

(12) BRASIL. Decreto-Lei nº 5.901, de 21/10/1943. Diário Oficial da União - Seção 1 - 23/10/1943, p. 15750. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5901-21-outubro-1943-415891-publicacaooriginal-1-pe.html Acesso 15/04/2025.

(13) ESTADO do Espírito Santo. Decreto-Lei nº15.177. Imprensa Oficial - Vitória - 1944. Disponível em: https://www3.al.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/Decreto%2015177%20de%201944.pdf Acesso 15/04/2025.

(14) JOENIA Wapichana é nomeada Presidente da Fundação dos Povos Indígenas (FUNAI). Disponível em:https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2023/joenia-wapichana-e-nomeada-presidente-da-fundacao-nacional-dos-povos-indigenas-funai Acesso 16/04/2025.

(12) MINISTÉRIO dos Povos Indígenas. Disponível em: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/acesso-a-informacao/institucional Acesso 16/04/2025.



segunda-feira, 31 de março de 2025

Lago José Neves: patrimônio natural de Bom Jesus do Itabapoana


Lago José Neves, um dos cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos.

por Paula Aparecida Martins Borges Bastos

     

       Um dos principais cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, o Lago José Neves, também é conhecido como “Laguinho”, “Lago do Trevo” ou, para os mais antigos, “Lago da UFF”, “Lago da entrada da cidade” ou mesmo “Lago da Pecuária”.

      Localizado na área urbana de Bom Jesus, no Bairro Parque do Trevo, cruzamento da RJ 186 com a RJ 230, esse lago artificial, com suas várias décadas de existência, já foi incorporado à paisagem de Bom Jesus do Itabapoana, estando repleto de conteúdos afetivos em nossas memórias.

A RJ 186 passa ao lado o lago, encontrando-se com a RJ 230 no trevo. Fonte: Google Maps, 2025.

De formato arredondado, circundado por um calçadão e medindo aproximadamente 700 metros, o Lago José Neves é muito utilizado como pista de caminhada e aulas de educação física. Contornado por belíssimos coqueiros e uma vegetação basicamente constituída por gramíneas, com uma criação de peixes no local, o atrativo é visitado diariamente por grande número de cidadãos de Bom Jesus do Itabapoana e turistas (1)

O "Laguinho", como é carinhosamente conhecido, é muito procurado para caminhadas e passeio.
Foto: Paula Bastos, 2024.

        O lago é carregado de uma dimensão simbólica e afetiva, além de ser testemunha das transformações históricas decorrentes do crescimento urbano e das alterações das vias comunicacionais de transporte que foram se configurando ao longo do século XX em seu entorno. Se no início de sua existência estava localizado em um local distante e bucólico, o Lago está, atualmente, em grande medida, incorporado à área urbana, e mantém o seu status de principal cartão de boas vindas aos que chegam a Bom Jesus pela RJ-186.

O início: lago como bebedouro para gado

      A história do lago caminha junto com as transformações que foram ocorrendo na área ao longo do tempo. O lago foi criado, provavelmente, durante o período de existência do Posto Agropecuário (ligado ao Ministério da Agricultura), em meados do século XX, como um bebedouro para mitigar a sede dos bovinos que pastavam ao redor. Em pouco tempo foi se convertendo em um ambiente paisagístico para todos que por ali passavam, especialmente depois que a estrada em frente ao lago foi asfaltada, no início da década de 1960.

        As melhorias rodoviárias ocorreram sob a gestão do bonjesuense Roberto Silveira, Governador do estado do Rio de Janeiro, quando deu-se o asfaltamento da estrada que ligava Bom Jesus ao cruzamento de Itaperuna e dali a Campos, havendo também atenção para estruturar uma estrada ensaibrada ligando Bom Jesus a Santo Eduardo e Morro do Côco (2). Esses trajetos melhorados permitiram encurtar distâncias e facilitar o escoamento e chegada de produtos.

      No ponto de chegada a Bom Jesus, essas estradas se encontravam em área próxima ao "Laguinho". Margeado por coqueiros e vegetação rasteira, a área era delimitada por uma cerca de arame farpado, como é comum nas pastagens bovinas, e era apreciado por todos como um marco aos viajantes, que ali tinham sua referência de chegada ou saída de Bom Jesus.

      Em 1970, o Ministério da Agricultura fez a transferência do acervo do Posto Agropecuário para o Município, passando a funcionar no local, "ao lado da rodovia para Santo Eduardo", o Colégio Técnico Agrícola de Bom Jesus, mantido pela Fundação Educacional de Bom Jesus. Logo recebeu o nome de Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB), em homenagem ao Presidente da Fundação, recém falecido. Em 1974, o município fez doação para que o CTAIBB passasse a integrar a Universidade Federal Fluminense, e toda a área, com o lago incluso, voltou a ser considerada de âmbito federal, após quatro anos municipalizada (3) (4) (5). 

   O lago era muito apreciado pelos jovens e adultos que frequentaram, nas últimas décadas do século XX, a churrascaria Pitucão e suas famosas serestas. O Pitucão, na época, funcionava justo em frente ao lago, do outro lado da estrada, próximo onde hoje funciona um posto de gasolina. Isso fazia com que os notívagos pudessem sonhar ao caminhar para casa, especialmente em noites de lua cheia, quando os raios prateados inundavam de sonhos os enamorados que contemplavam as águas plácidas do singelo lago.

    Na década de 1990, com a transferência do Pitucão para novo endereço, passou a funcionar ali o Restaurante Terraço, mantendo serestas e eventos noturnos por muitos anos.

Uma nova ponte e um lago esvaziado

     No final da década de 1980, a construção de uma nova ponte de cimento sobre o rio Itabapoana, em área próxima ao lago, significou mais um avanço no sistema rodoviário que passava por Bom Jesus. Anunciada como um importante ponto de ligação entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, a antiga estrada que passava em frente ao lago foi remodelada, ampliada e inaugurada como Rodovia RJ-186, partindo de Bom Jesus, passando por Santo Antônio de Pádua e indo até a divisa com Pirapetinga, em Minas.

      Para viabilizar todas as obras previstas na região de Bom Jesus, ou seja, a nova ponte, a reforma e a ampliação da estrada no trecho Bom Jesus – Cruzamento para Itaperuna, além da instalação de um trevo rodoviário entre a RJ-186 e a RJ-230, o lago foi esvaziado, a fim de possibilitar a movimentação de máquinas e material ao seu redor. (6)

     A ponte ficou pronta em 1988, porém os aterros de acesso de ambos os lados, capixaba e fluminense, demoraram a ser realizados. Em abril de 1989 os governos ainda estavam envolvidos com a  concorrência das obras (7). Por fim, ficaram prontas a ponte e a rodovia, e a inauguração se deu, do lado capixaba e fluminense, nos dias 04 e 12 de março de 1991, respectivamente. Nos eventos estiveram presentes diversas autoridades, dentre elas os governadores Moreira Franco (RJ) e Max Mauro (ES), além de Tadeu Batista e Carlos Borges Garcia, prefeitos de Bom Jesus do Norte (ES) e Bom Jesus do Itabapoana (RJ), respectivamente (8) (9). Este último, durante o ato de inauguração, destacou a relevância da ponte para a população das duas cidades irmãs:

(...) esses dois povos, embora localizados em Estados distintos, têm uma história comum, uma história entrelaçada de tamanha identidade, uma afinidade cultural e espiritual tão consistente, que não se compreendia porque, por anos e anos, lhes tenha sido negado o direito de possuir mais uma via de união material (9)

Ponte nova sobre o rio Itabapoana: construída em fins de 1980
e inaugurada na década de 1990. Foto: Paula Bastos.
 

       Após a inauguração da ponte, a população aguardava para breve a recomposição do lago, cujas águas são provenientes de nascentes locais e já constituía um ponto de referência para toda a comunidade. Em junho de 1991, matéria jornalística intitulada "Lago não pode acabar", chamava a atenção para a importância do lago para os bonjesuenses, conclamando sua recuperação (6). O retorno, porém, não ocorreu rapidamente, e passado um ano, o lago continuava a ser reivindicado pela comunidade, passando a ser novamente notícia de jornal, com os dizeres “queremos o ‘lago’ de volta”. (10)

Um lago remodelado

      Em 1994, o lago voltou a compor a paisagem, começando a tomar o contorno que permanece até os dias atuais. Através de convênio da UFF com a Prefeitura, o lago artificial, em remodelação, além de seu aspecto paisagístico, é planejado para ser incorporado como um espaço de uso pela população, ampliando sua significação afetiva, sendo “transformado em ponto turístico e de lazer”, pois, “além de destinar-se à criação de peixes, será um ponto de lazer para os bonjesuenses, com pista para cooper e outras atrações” (11). Vale lembrar que foi na década de 1990 que a sociedade brasileira teve ampliada a incorporação dos hábitos de atividades físicas, com as corridas e caminhadas passando a ser um grande atrativo para os que passaram a buscar um estilo de vida considerado mais saudável.

Lago recém remodelado e aberto para caminhadas. Foto: Paula Bastos, década de 1990.

       É nessa época que o lago recebe uma pavimentação ao seu redor, ficando definitivamente aberto ao público o acesso às suas margens, seja para piquenique, caminhadas e mesmo para apreciar os peixes, ali criados pelo CTAIBB-UFF, e que passaram a ser uma das atrações a mais do local, especialmente para as crianças, que vinham com os familiares para alimentar os animais no início e no final do dia.

      Acompanhando os antigos coqueiros, uma nova fileira, agora de coqueiros-anão, foi plantada ao redor do pavimento. As mudas, originárias de Quissamã, foram doadas pela prefeitura daquele município (12).

Jornal O Norte Fluminense, 25/09/1994

As duas fileiras de coqueiros convivem à margem do Laguinho: a mais externa foi plantada em 1994, com mudas oriundas de Quissamã, RJ. Foto: Paula Bastos, 2021.

       Atualmente, às duas fileiras de coqueiros que margeiam as águas lacustres, vem somar-se outras árvores frutíferas, algumas delas plantadas por moradores e apreciadores do lago, que, junto a todos que ali frequentam, compreendem o local com um patrimônio afetivo da população.

Algumas árvores frutíferas compõem a paisagem do "Laguinho"... Foto: Paula Bastos, 2021. 

...e dão sombra aos visitantes. Foto: Paula Bastos, 2021.

      O lago remodelado recebeu o nome de Lago José Neves, quando foi inaugurado em 1994, homenagem ao Auxiliar de Agropecuária que havia falecido recentemente. Antigo funcionário do Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB) – UFF, José Neves se dedicou por muitos anos às atividades de cuidado da terra, ao cultivo e à criação, trabalhando desde os tempos do Posto Agropecuário, junto ao Médico Veterinário Ildefonso Bastos Borges, antes mesmo da conformação do CTAIBB-UFF.

Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto Paula Bastos, 2021.

     A partir da criação dos Institutos Federais, em 2008, deu-se a transformação do antigo CTAIBB-UFF em campus Bom Jesus - Instituto Federal Fluminense (IFF) (5). O convênio com a Prefeitura referente ao uso do Lago como área de lazer e turismo pela comunidade foi mantido e permanece ativo até os dias atuais, ficando ao encargo da municipalidade o cuidado com o paisagismo e a manutenção da limpeza da área.

Um patrimônio natural em área urbana

        Observa-se, assim, que aliado à paisagem natural, já incorporada à memória afetiva da coletividade durante décadas, buscou-se instituir um espaço para lazer e contemplação, em que a presença humana passasse a se integrar à paisagem. A população acolheu de forma extremamente positiva a mudança proposta, e rapidamente o local se converteu em um dos principais pontos urbanos para práticas de atividade física ao ar livre ou simplesmente um passeio para contemplação da natureza. Encontros, piqueniques, brincadeiras infantis, registros fotográficos, leitura à sombra das árvores, variados são os usos que a população tem feito do Lago José Neves ao longo das últimas décadas.

Área para caminhadas e práticas de atividades físicas atrai visitantes ao Lago José Neves.
Foto: Paula Bastos, 2024.

      Entendendo que patrimônio natural é “parte da memória humana, pois adquire significado e sentido para os diversos grupos sociais, torna-se uma referência histórica e é inserido na memória social” (13), podemos considerar o Lago José Neves um patrimônio natural da área urbana de Bom Jesus do Itabapoana.

      Passear às margens do Lago é poder contemplar amostras de algumas das possíveis paisagens do Vale do Itabapoana.

Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2024.

      Em uma de suas extremidades, do lado capixaba, se vislumbra a reconfortante cobertura vegetal que desponta no Morro da Torre e montes adjacentes, em Bom Jesus do Norte; mais além, sobressaindo para os lados de Mimoso do Sul, os enigmáticos Pontões nos atraem em seu azul distante.

A mata no Morro da Torre, em Bom Jesus do Norte (ES): sobranceira na paisagem.
Foto: Paula Bastos, 2024.

Os Pontões, em Mimoso do Sul (ES), despontam na paisagem por sua altitude.
Foto: Paula Bastos, 2021. 

        Caminhando na direção oposta, na outra extremidade, para o lado fluminense, é possível descortinar ao longe montes característicos da região.

Morros ao longe, lado fluminense. Foto: Paula Bastos, 2024.

     Em suas laterais, o "Laguinho" é circundado por dois morros que bem poderiam configurar uma alegoria de situação atual de nossa região. De um lado, um baixo monte de pasto, prometido como área de reflorestamento (14), apresentando, por enquanto, seus primeiros passos nessa direção, em processo ainda incipiente e tímido.

Pequena área de reflorestamento foi iniciada no morro próximo ao "Laguinho".
Foto: Paula Bastos, 2021. 
Área de reflorestamento, em 2024. Foto: Paula Bastos.

   Do outro lado, um morro maior, com trecho desbastado para o desenvolvimento de atividades humanas. Em seu topo, esparsas árvores não dão conta, sozinhas, de deter a visível abertura de valas e pequenas aberturas, em erosão que avança e expõe as entranhas de um morro choroso em vermelho flamejante, bela e intensa cor tão característica de nossa terra.

Um morro recortado, terra vermelha e diversas lojas e galpões de serviço compõem o visual do outro lado da estrada RJ 186 que margeia uma das bordas "Laguinho". Foto: Paula Bastos, 2021. 

Morro com esparsas árvores e terra vermelha em trecho recortado: paisagens que se avista de uma das laterais do Lago José Neves. Foto: Paula Bastos, 2024.

Morro com escassa proteção vegetal e sinais de erosão. Foto: Paula Bastos, 2024.

       Sobre nossas cabeças, no fim da tarde, os pássaros sobrevoam em direção ao rio Itabapoana, esse rio cujas águas continuam rolando sobre as pedras e passam sob a segunda ponte, atualmente convertida em uma madura balzaquiana com seus mais de 30 anos.

      Ao final do passeio, após toda essa contemplação, uma pergunta perpassa o pensamento: que paisagem verão as gerações futuras em suas  caminhadas e passeio ao redor do Lago José Neves?

Atualizado em 07/04/2025

                                                                   ***

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Referências

(1) LAGO José Neves (Laguinho).  Disponível em: https://bomjesus.rj.gov.br/site/ponto_turistico/lago_jose_neves_(laguinho)/2 Acesso 29/03/2025.

(2) SERÁ INICIADO em breve o asfaltamento: ótima estrada ligará Bom Jesus a Itaperuna. A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1262, 23/01/1960.

(3) INAUGURADO o Colégio Técnico Agrícola. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1023, RJ, 08/03/1970.

(4) MINISTÉRIO da Agricultura entrega Posto Agro-pecuário ao município. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1026, RJ, 05/04/1970.

(5) 50 ANOS de CTAIBB e a efeméride a ser celebrada.  Disponível em https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/50-anos-do-ctaibb-e-a-efemeride-a-ser-celebrada Acesso 30/03/2025.

(6) LAGO não pode acabar. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1864, 30/06/1991.

(7) UMA OBRA inacabada. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1791, 09/04/1989.

(8) INAUGURAÇÃO da nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1853, RJ, 03/03/1991.

(9) INAUGURADA a nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ,  n. 1854, 17/03/1991.

(10) O LAGO da UFF. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 29/03/1992.

(11) NOVO visual Urbanístico da Cidade. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1944, 07/08/1994.

(12) O LAGO do Trevo. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1948, 25/09/1994.

(13) SCIFONI. Simone. Os diferentes significados do patrimônio natural. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v.10, p.55-78, 2006, p.75.

(14) ÁREA de reserva legal do IFF Bom Jesus recebe mudas nativas e exóticas por meio de parceria com UENF. Disponível em: https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/area-de-reserva-legal-do-iff-bom-jesus-recebe-mudas-nativas-e-exoticas-por-meio-de-parceria-com-uenf Acesso 31/03/2025.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Memórias do século XX: Dercilio do Banjo, uma vida musical

 

Dercilio do Banjo e Luiz na clarineta, com grupo musical
em apresentação no Colégio Rio Branco, em 21/10/1983


Dercilio do violão ou Dercilio do banjo, como ficou conhecido, foi “uma figura que se incorporou definitivamente à história musical bonjesuense” (1). Suas memórias (2), escritas em 1979, ajudam a retratar o ambiente musical de sua época, e têm sua origem assim explicada por Luciano Bastos:

No afã de preservar para os póstumos uma fase do passado propus ao Dercilio uma gravação em que de viva voz perpetuasse suas lembranças, os acontecimentos. Qual não foi minha surpresa quando meses após recebi dele um caderno onde narra o que afirma ser “minha humilde história” (1).

Infância e juventude

Dercilio de Souza Pires (3) nasceu em Salgado (4), um pequeno povoado às margens fluminenses do rio Itabapoana, que hoje existe apenas na memória e, talvez, em vestígios arqueológicos que aguardam maiores pesquisas.

O ano era 1902, e Salgado vinha perdendo sua gente, desde que o Porto da Limeira, razão de sua existência, praticamente deixara de operar, em fins do século XIX (5). O êxodo também chegou para a família de Dercilio, depois que seu pai, Francisco Baptista Pires, carpinteiro, se acidentou quando trabalhava em uma obra na próspera São José do Calçado (ES), o que fez com que a esposa, Saturnina de Souza Pires, arrumasse a mudança e fosse cuidar do esposo.

Junto com os sete filhos, sendo dois de colo, D. Saturnina saiu de Salgado, em 1910, numa madrugada de verão, a pé, em direção a S. José do Calçado, carregando os poucos pertences da família em uma carroça. Dercilio tinha, nessa época, oito anos de idade, e se recorda de ter visto, no caminho, o lugarejo Ponte de José Carlos (6), na outra margem do rio, e passado por Bom Jesus do Itabapoana (7).

A travessia do rio foi feita em uma ponte em ruínas (8), com a carroça tendo que ser conduzida por pessoas. A chegada a São José do Calçado, depois de muita caminhada, se deu no fim da tarde.

Em virtude de outro acidente de trabalho, em uma obra perto do Córrego do Jacá, o Sr. Francisco Baptista Pires acaba falecendo. Dercilio, com idade entre dez e onze anos, conta que já se “virava”, e dentre as atividades que foi desenvolvendo na vida esteve a de marceneiro, tipógrafo, pescador, aprendiz de alfaiate, padeiro e, é claro, tocador de violão.

Às margens do Itabapoana

No mês de maio de 1926, aos 24 anos de idade, Dercilio e um irmão se mudam para Bom Jesus do Itabapoana (RJ), onde haviam alugado do Sr. Jácomo Cavichini uma padaria que estava fechada. Fabricando pão de sal, roscas de vários tipos, pão sovado, entre outros, logo a padaria viu sua freguesia consolidada. Dercilio era o vigia da massa, que começava a ser fabricada às seis horas da tarde e ficava em descanso até três ou quatro horas da manhã.

E era justamente nesse intervalo, enquanto sua massa “descansava”, que o jovem Dercilio se envolvia com uma grande paixão: a música. Nesse tempo eram muito comuns as serenatas, e os companheiros se reuniam no Bar do Sr. Carlos Hirsch (9), ponto de referência na época para a juventude local.

Bom Jesus - Jornal, 1928

Os músicos eram o maestro Clovis Brandão (10), Antonio Carlos Paiva na clarineta, Carlos Hirsch no violino, Levy Xavier no piston-surdina e o jovem Dercilio no violão. Os cantores eram muitos, sendo os “firmes nas serenatas” o Amory Silveira, o Ricardo Soares, o Jorge Teixeira (vulgo “Juvêncio”), o José Fraga e o Licínio da Silva. Como toda serenata tem seus ouvintes, os apreciadores infalíveis lembrados por Dercilio eram o Homero (vulgo “Tijolo”), o José Megre e o Amador Pinheiro. Outro ouvinte sempre presente, o Dr. Otacílio de Aquino, além de apreciador, também foi autor de um Fox Canção de muito sucesso na época, “Ano Bom”, cantado por Jorge Juvencio.

Conjunto Jazz São Geraldo

Em uma das costumeiras serenatas, Dercilio conta que, após a execução de uma valsa, o maestro Clovis Brandão o convida para integrar o conjunto Jazz São Geraldo, tocando banjo (11), já que ele entendia de variações de acordes, e o banjista da época só fazia a primeira, a segunda e a terceira, e apenas de alguns tons. Convite aceito, Dercilio passou a integrar o grupo com muita alegria.

O Jazz , sob a batuta do maestro Clovis Brandão, animando festividades locais
O Momento, 1932

Na década de 1930, por vontade do irmão, o negócio da padaria é encerrado e os dois entram para o negócio de marcenaria. Dessa forma, Dercilio começa a trabalhar no fabrico de móveis, após ter passado alguns meses em Cachoeiro de Itapemirim (ES).

A turma da música, nessa época, já é outra, sendo composta pelo maestro Agnes de Aquino no saxofone, Levy Xavier no piston-surdina, Jader Silva no sax, tendo como cantores, Delbio Fragoso, Salim Elias, Amelio Medina e Diogenes Martins.

Em 1937, mais um acidente de trabalho marca a vida da família. O irmão perde dois dedos da mão direita em uma das máquinas e passa a fazer tratamento. Sem poder continuar com o negócio, Dercilio vai para o Rio de Janeiro em busca de oportunidade de emprego. Passa a trabalhar como lustrador em uma fábrica de cama, adquirindo aí sua carteira profissional de trabalho.

Depois de um tempo trabalhando no Rio de Janeiro, Dercilio retorna a Bom Jesus do Itabapoana, trazendo consigo um novo companheiro, o banjo-tenor...

No campo da música, novas mudanças na cidade (12). Logo o banjista se reintegrou ao Jazz São Geraldo, que estava agora sob a direção do Maestro Levy Xavier (13), no piston, junto com Bininho Xavier no trombone, Chiquito do Carmo no violino e Pedro Lino no piano, além de baterista e pandeirista.

O conjunto tocava no Cine Teatro São Geraldo, na Bom Jesus capixaba “terça, quinta, sábado e domingo para a moçada dançar antes da sessão cinematográfica das sete às oito horas da noite”. Isso quando não havia noite de baile no salão do cinema. O conjunto também tocou, na Bom Jesus fluminense, no Palace-Club (14), no Aero Clube, na Rádio Bom Jesus e no Ginásio Rio Branco. Além disso, o Jazz S. Geraldo era convidado para fora, “pelos quatro lados de Bom Jesus” (15).

Quatro bailes marcantes na memória:

Baile da emancipação do município, no dia 1º de janeiro de 1939, realizado, segundo Dercilio, na antiga casa Firmo, na Praça Governador Portela (16).

Inauguração do Bar Itamaraty (17), de propriedade do Sr. Leovergilio Nunes da Silva, conhecido como “Dodô Elias”. Dercilio, no banjo, tocava com um quinteto famoso composto dos três irmãos Xavier, Levy Xavier no piston, Homero no clarinete, Bininho no trombone, além de Manoelzinho Reis na bateria.

Inauguração do Bar Itamaraty, em 1939, que ficou conhecido como bar do Dodô Elias. Sentados, a partir da esquerda, Dercílio de Souza Pires (Dercílio do Banjo), Homero Xavier (clarinete), Levy Xavier (piston), Manoelzinho Reis (bateria), e Bininho Xavier (trombone). Foto: Galeria Histórica, Jornal O Norte Fluminense.

O Boletim, 1939

Baile em benefício à reabertura do Hospital São Vicente de Paulo, realizado no Ginásio Rio Branco, em 1939. O baile foi organizado pela Diretoria do Centro Popular Pró-Melhoramentos de Bom Jesus, cujo presidente, à época, era Olívio Bastos.

Bailes de Micareme no Aero Clube (18), em 1952, ao som do Trio composto por Dercilio, no banjo, Christóvão Pires na bateria e Pedro Augusto (vulgo “Macuco”) no pandeiro.

Carnavais, festas juninas e festas populares

Dessa época em diante, Dercílio conta não ter tocado mais em bailes sociais, a não ser em carnavais fora de Bom Jesus. Com a carteira profissional da Ordem dos Músicos, passou a tocar também em bailes de cabaré, nunca deixando de frequentar, é claro, as serenatas.

Entre 1952 e 1970, mesmo com Agnes de Aquino (19) não morando mais em Bom Jesus, este se fazia presente na cidade em toda Festa de Agosto, com seu sax. Junto com Dercilio no banjo e Jader Silva, também no saxofone, costumavam formar um trio.

A partir de 1968, Delcidio passa a tocar sem compromisso profissional, com seus companheiros acordeonistas Elóis Teixeira dos Santos e Romeu T. Sobrinho, fazendo show em almoço de recepções e festas juninas, em locais como o Colégio Rio Branco, o Clube do Ordem e Progresso e o Olímpico Futebol Clube.

O violeiro Dercilio é destaque no convite da Festa Junina
publicado no jornal do Colégio Rio Branco

No período em escreve suas memórias, em 1979, Dercílio toca com um companheiro de sopro, Manuel Portugal, com sua flauta de seis furos, e continua a animar festas juninas e outros festejos. Luciano Bastos destaca sua eterna juventude ao contar que no carnaval daquele ano, após tratamento médico, com seus 77 anos,

Dercilio saiu pelas ruas da cidade, em sua bicicleta, batendo um tambor. Em sua passagem com rosto feliz e alegre saudava e brincava sozinho o carnaval. Confesso que me emocionei. Que mensagem maravilhosa você estava enviando, meu bom amigo Dercilio, na simplicidade daquele desfile solitário. Nenhum livro ou palavras falariam melhor (1).

Dercilio do Banjo e Luciano Bastos, no Colégio Rio Branco, em 21/10/1983

Seus 90 anos foram festejados ao lado da esposa, Sra. Aleixina Furtado de Souza, familiares e amigos, em sua residência em Bom Jesus do Norte (20)

Dercilio deixou um legado de encantamento aos que o ouviram tocar e, nas palavras do próprio músico, deixou registradas as recordações dos “velhos tempos em que levei muitos músicos embaixo das minhas palhetadas e acordes” (2).

Em sua homenagem foi criada, em Bom Jesus do Norte (ES), a "Banda Musical Dercilio Pires" (21).

Paula Aparecida Martins Borges Bastos

(atualizado em 09/06/2025)



Notas e referências

(1) Dercilio do Violão, por Luciano Bastos. O Norte Fluminense. Bom Jesus do Itabapoana, 12/08/1979.

(2) “Nas margens do Itabapoana: minha humilde história” é o título das memórias de Dercilio do Banjo, de 1979. O original, manuscrito, integra o acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos. Grande parte das informações constantes no presente texto tem por base essa autobiografia.

(3) Segundo o músico, seu nome correto seria Dercilio de Souza Pires, porém, de forma inadvertida, na segunda via do registro passou a constar Dercilio Baptista de Souza.

(4) Dercilio indica que Salgado ficava no lado fluminense, em torno de dois quilômetros de distância de Santo Eduardo (atual distrito de Campos dos Goytacazes) e Ponte do Itabapoana (atual distrito de Mimoso do Sul), estando localizado ao longo da estrada que ligava essas duas localidades ao povoado de Limeira, também no lado fluminense. Salgado era composto de um grupo de casas dos dois lados da estrada, bem como uma pequena Capela, no alto de um discreto morro.

(5) O transporte ferroviário, ao ser implantado na região, fez com que o transporte fluvial fosse decaindo economicamente, o que teve forte repercussão negativa nos povoados que gravitavam em torno do Porto da Limeira. Saiba mais: http://gerson-franca.blogspot.com/2010/10/curiosidade-limeira-e-os-correios.html .

(6) Atual José Carlos, distrito de Apiacá (ES).

(7) O encantamento infantil com a primeira visão da fluminense Bom Jesus, levou Delcídio a afirmar ter continuado a viagem “levando no meu coração Bom Jesus do Itabapoana”. Veja mais sobre essa parte da viagem no subtítulo “Memórias dos primeiros anos do século XX” da matéria a seguir : https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2021/05/pracas-amaral-peixoto-e-governador.html .

(8) Segundo Dercílio, a ponte ficava próximo a uma fazenda da família Matias e, na época em que escreveu suas memórias, a ponte já não existia mais.

(9) A Confeitaria Hirsch, situada na atual Praça Governador Portela, era bastante frequentada nas décadas de 1920 e 1930 e, segundo notícias de jornais da época, possuía uma carta de vinhos variados, além de sorvetes, refrescos, doces e outras iguarias. Carlos Hirsch, além de proprietário, participava dos eventos musicais com seu violino, como narra Dercílio.

(10) O maestro Clovis Brandão foi o autor da composição musical “Ordem e Progresso”, com letra de Otacílio de Aquino. A marcha, composta para o Ordem e Progresso Futebol Clube, foi executada pelo conjunto Jazz, sob direção do maestro compositor, em festividade no Cine Teatro São Geraldo em 08/01/1934, durante posse da nova diretoria do Clube desportivo. Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12/01/1934. Disponível aqui

(11) Banjo-tenor: Banjo de quatro cordas, com pescoço curto, normalmente tocado com uma palheta, mas também pode ser dedilhado com os dedos. Foi um instrumento muito popular no Tango e em outras bandas de dança das décadas de 1920 e 1930, sendo atualmente mais comum no jazz originário de Nova Orleans. Saiba mais aqui .

(12) Segundo Dercilio, os maestros e pianistas Clovis Brandão e Carlos Paiva já não moravam em Bom Jesus do Itabapoana nessa época.

(13) Para saber mais sobre a biografia e carreira musical de Levy Xavier e sua família: https://onortefluminense.blogspot.com/2018/06/hoje-o-maestro-levy-xavier-completaria.html .

(14) Fundado por Salim Tannus, o Palace-Club era um salão de bailes localizado na Praça Governador Portela, porém não teve vida longa, indica Dercilio.

(15) O  músico faz menção, aqui, aos quatro distritos que compunham o município  de Bom Jesus do Itabapoana, na época: Bom Jesus do Itabapoana - sede, Calheiros, Rosal e Liberdade.

(16) As festividades de instalação do município ocorreram ao longo de todo o dia 1º, na Praça Governador Portela e o evento contou com a presença de políticos locais e da região, além de grande público.  A solenidade oficial ocorreu no prédio onde hoje é o Big Hotel. Segundo Francisco Camargo Teixeira, a Lyra dos Conspiradores, da cidade de Macaé, também se fez presente. A Casa Firmo, onde Dercílio indica haver ocorrido o baile da festa, foi posteriormente demolida, tendo sido construído no local o prédio do Cine-Teatro Monte Líbano, hoje com tombamento pelo INEPAC. Saiba mais em: Bom Jesus do Itabapoana, de Francisco Camargo Teixeira, 3ª ed. ampliada por Georgina Mello Teixeira, 2005; e em: http://onortefluminense.blogspot.com/2015/12/os-76-anos-de-nossa-2-emancipacao.html .

(17) Localizado na esquina da Rua Roberto Silveira com a Travessa R. T. José Teixeira, indica o músico.

(18) Segundo Dercilio, com a promoção de bailes no salão do Monte Líbano, organizado pela Rádio Bom Jesus, a “moçada do Aero”, resolveu na última hora “separar o bloco e fazer os Bailes do Aero Clube”, solicitando ao seu Diretor, Sr. Salim Tannus, sua realização. Foram duas noites, conta o músico, surpreendentes, em que a “moçada vibrou de alegria”.

(19) Agnes de Aquino fez carreira musical, tendo gravado em disco (78 RPM) a música “Caminho Errado”, junto com Carlos Magno, em 1956. No disco “As Valsas de Ontem e a Banda Campesina de Nova Friburgo”, gravou a música “Vitória Régia”, sem data. Fonte: IMMub, Catálogo online da música brasileira. Conferir aqui ,  aqui e aqui .

(20) Dercilio Batista Pires. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 27/09/1992.

(21) A Banda de Música Dercilio Pires consta no cadastro  de Bandas da Funarte: https://sistemas.funarte.gov.br/consultaBandas/listagem.php?uf=ES Acesso em 16/02/2022



Atualização em: 24/02/2022


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