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sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Olívio Bastos, diretor do Colégio Rio Branco


Olívio Bastos nasceu em Campos dos Goitacazes, RJ, em 19 de outubro de 1889. Em 1933, assumindo o cargo de Administrador da Cia. Ferroviária Itabapoana, que pertencia à Leopoldina Railway Ltda, veio com sua família para Bom Jesus, cidade na qual viveu dedicado ao progresso da terra bonjesuense. Em 1939 assumiu a direção do Colégio Rio Branco, introduzindo grande transformação no tradicional Colégio, ampliando e construindo salas novas, laboratório e a quadra de esportes, tornando-o um modelo pedagógico na região. Permaneceu como diretor da escola até 1957, quando faleceu, aos 68 anos, no dia 29 de novembro.

Texto do jornal O Norte Fluminense (17/07/2016)

OLÍVIO BASTOS E SUA ATUAÇÃO PELO DESENVOLVIMENTO DE BOM JESUS

Olívio Bastos nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) aos 19 de outubro de 1889. Em 1933, veio com sua família para Bom Jesus, assumindo o cargo de Administrador da Cia. Ferroviária. Naquela época, a Estrada de Ferro, que ligava Bom Jesus do Norte ao distrito mimosense de Itabapoana, passava por grave crise econômica e financeira e o seu proprietário, João Soares, a entregou à Leopoldina Railway Ltda. para comandá-la. Esta, por sua vez, enviou Olívio Bastos para administrá-la.

Na Cia. Ferroviária Itabapoana, Olívio Bastos imprimiu uma grande administração, colocando as estações bem aparelhadas e reparando o leito da linha férrea. Além disso, repuxou locomotivas, remodelou o carro de passageiros e estabeleceu o tráfego mútuo com a Leopoldina, tendo criado a Caixa de Aposentadorias e Pensões para os empregados.

Imprimiu administração moderna para a época com venda de passagens diretas para o Rio, Vitória e Niterói, instalando linha telegráfica em tráfego mútuo com a Leopoldina para o transporte de café de Bom Jesus para a estação destinatária. Para se ter uma ideia, já em setembro de 1933 foram transportadas 32.936 sacas de café.
Olívio Bastos assumiu também a Empresa Luz e Força ltabapoana, empreendendo ali uma radical transformação administrativa. Essa empresa, também sediada em Bom Jesus do Norte, passou a receber melhoramentos refletindo no benefício dos seus funcionários e da população, estendendo seus fios até Santo Eduardo, distrito de Campos dos Goytacazes (RJ).

Foi um dos fundadores do Centro Popular Pró Melhoramentos de Bom Jesus e fez parte da sua primeira diretoria, na qualidade de tesoureiro, sendo, depois, seu Presidente. Com extraordinário tino administrativo, promoveu ampla reforma no Hospital São Vicente de Paulo, que estava fechado, advindo daí o crescente desenvolvimento dessa grande instituição. Também o Colégio Rio Branco recebeu de Olívio Bastos os benefícios de sua visão administrativa. Assumindo a direção em momento difícil para o educandário, coube a ele introduzir grande transformação no tradicional Colégio, ampliando e construindo salas novas, laboratório, e a quadra de esportes.

Olívio Bastos foi um dos fundadores do Rotary Clube de Bom Jesus e um dos fundadores do Aero Clube de Bom Jesus em 1942, tendo presidido esta sociedade. Participou ativamente das atividades em Bom Jesus, colaborando para o progresso da terra bonjesuense e de sua gente.

Casado com a professora Vivaldina Martins Bastos, de tradicional família campista, desse enlace nasceram os seus filhos Esio Martins Bastos, jornalista, comerciante e fundador do jornal "O Norte Fluminense", Luciano Augusto Bastos, advogado, educador e diretor do Colégio Rio Branco, por vários anos, e Maria Ruth Bastos Guerra, viúva de José Sebastião de Vasconcelos Guerra, funcionário aposentado do Banco do Brasil.

Olívio Bastos faleceu nesta cidade no dia 29 de novembro de 1957, aos 68 anos de idade. A vida de Olívio Bastos é um hino de trabalho e dedicação em prol desta terra. Trazendo o conhecimento administrativo que ele recebeu dos ingleses da Leopoldina Railway, empregou em Bom Jesus todo o seu vasto cabedal administrativo, sendo mesmo um pioneiro, à época em que éramos ainda distrito de Itaperuna. Era um administrador enérgico, porém justo e humano, além de pautar seus atos com dignidade e honradez.

Sua vida de grande administrador será sempre um espelho para a juventude bonjesuense.




sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Memórias do século XX: Dercilio do Banjo, uma vida musical

 

Dercilio do Banjo e Luiz na clarineta, com grupo musical
em apresentação no Colégio Rio Branco, em 21/10/1983


Dercilio do violão ou Dercilio do banjo, como ficou conhecido, foi “uma figura que se incorporou definitivamente à história musical bonjesuense” (1). Suas memórias (2), escritas em 1979, ajudam a retratar o ambiente musical de sua época, e têm sua origem assim explicada por Luciano Bastos:

No afã de preservar para os póstumos uma fase do passado propus ao Dercilio uma gravação em que de viva voz perpetuasse suas lembranças, os acontecimentos. Qual não foi minha surpresa quando meses após recebi dele um caderno onde narra o que afirma ser “minha humilde história” (1).

Infância e juventude

Dercilio de Souza Pires (3) nasceu em Salgado (4), um pequeno povoado às margens fluminenses do rio Itabapoana, que hoje existe apenas na memória e, talvez, em vestígios arqueológicos que aguardam maiores pesquisas.

O ano era 1902, e Salgado vinha perdendo sua gente, desde que o Porto da Limeira, razão de sua existência, praticamente deixara de operar, em fins do século XIX (5). O êxodo também chegou para a família de Dercilio, depois que seu pai, Francisco Baptista Pires, carpinteiro, se acidentou quando trabalhava em uma obra na próspera São José do Calçado (ES), o que fez com que a esposa, Saturnina de Souza Pires, arrumasse a mudança e fosse cuidar do esposo.

Junto com os sete filhos, sendo dois de colo, D. Saturnina saiu de Salgado, em 1910, numa madrugada de verão, a pé, em direção a S. José do Calçado, carregando os poucos pertences da família em uma carroça. Dercilio tinha, nessa época, oito anos de idade, e se recorda de ter visto, no caminho, o lugarejo Ponte de José Carlos (6), na outra margem do rio, e passado por Bom Jesus do Itabapoana (7).

A travessia do rio foi feita em uma ponte em ruínas (8), com a carroça tendo que ser conduzida por pessoas. A chegada a São José do Calçado, depois de muita caminhada, se deu no fim da tarde.

Em virtude de outro acidente de trabalho, em uma obra perto do Córrego do Jacá, o Sr. Francisco Baptista Pires acaba falecendo. Dercilio, com idade entre dez e onze anos, conta que já se “virava”, e dentre as atividades que foi desenvolvendo na vida esteve a de marceneiro, tipógrafo, pescador, aprendiz de alfaiate, padeiro e, é claro, tocador de violão.

Às margens do Itabapoana

No mês de maio de 1926, aos 24 anos de idade, Dercilio e um irmão se mudam para Bom Jesus do Itabapoana (RJ), onde haviam alugado do Sr. Jácomo Cavichini uma padaria que estava fechada. Fabricando pão de sal, roscas de vários tipos, pão sovado, entre outros, logo a padaria viu sua freguesia consolidada. Dercilio era o vigia da massa, que começava a ser fabricada às seis horas da tarde e ficava em descanso até três ou quatro horas da manhã.

E era justamente nesse intervalo, enquanto sua massa “descansava”, que o jovem Dercilio se envolvia com uma grande paixão: a música. Nesse tempo eram muito comuns as serenatas, e os companheiros se reuniam no Bar do Sr. Carlos Hirsch (9), ponto de referência na época para a juventude local.

Bom Jesus - Jornal, 1928

Os músicos eram o maestro Clovis Brandão (10), Antonio Carlos Paiva na clarineta, Carlos Hirsch no violino, Levy Xavier no piston-surdina e o jovem Dercilio no violão. Os cantores eram muitos, sendo os “firmes nas serenatas” o Amory Silveira, o Ricardo Soares, o Jorge Teixeira (vulgo “Juvêncio”), o José Fraga e o Licínio da Silva. Como toda serenata tem seus ouvintes, os apreciadores infalíveis lembrados por Dercilio eram o Homero (vulgo “Tijolo”), o José Megre e o Amador Pinheiro. Outro ouvinte sempre presente, o Dr. Otacílio de Aquino, além de apreciador, também foi autor de um Fox Canção de muito sucesso na época, “Ano Bom”, cantado por Jorge Juvencio.

Conjunto Jazz São Geraldo

Em uma das costumeiras serenatas, Dercilio conta que, após a execução de uma valsa, o maestro Clovis Brandão o convida para integrar o conjunto Jazz São Geraldo, tocando banjo (11), já que ele entendia de variações de acordes, e o banjista da época só fazia a primeira, a segunda e a terceira, e apenas de alguns tons. Convite aceito, Dercilio passou a integrar o grupo com muita alegria.

O Jazz , sob a batuta do maestro Clovis Brandão, animando festividades locais
O Momento, 1932

Na década de 1930, por vontade do irmão, o negócio da padaria é encerrado e os dois entram para o negócio de marcenaria. Dessa forma, Dercilio começa a trabalhar no fabrico de móveis, após ter passado alguns meses em Cachoeiro de Itapemirim (ES).

A turma da música, nessa época, já é outra, sendo composta pelo maestro Agnes de Aquino no saxofone, Levy Xavier no piston-surdina, Jader Silva no sax, tendo como cantores, Delbio Fragoso, Salim Elias, Amelio Medina e Diogenes Martins.

Em 1937, mais um acidente de trabalho marca a vida da família. O irmão perde dois dedos da mão direita em uma das máquinas e passa a fazer tratamento. Sem poder continuar com o negócio, Dercilio vai para o Rio de Janeiro em busca de oportunidade de emprego. Passa a trabalhar como lustrador em uma fábrica de cama, adquirindo aí sua carteira profissional de trabalho.

Depois de um tempo trabalhando no Rio de Janeiro, Dercilio retorna a Bom Jesus do Itabapoana, trazendo consigo um novo companheiro, o banjo-tenor...

No campo da música, novas mudanças na cidade (12). Logo o banjista se reintegrou ao Jazz São Geraldo, que estava agora sob a direção do Maestro Levy Xavier (13), no piston, junto com Bininho Xavier no trombone, Chiquito do Carmo no violino e Pedro Lino no piano, além de baterista e pandeirista.

O conjunto tocava no Cine Teatro São Geraldo, na Bom Jesus capixaba “terça, quinta, sábado e domingo para a moçada dançar antes da sessão cinematográfica das sete às oito horas da noite”. Isso quando não havia noite de baile no salão do cinema. O conjunto também tocou, na Bom Jesus fluminense, no Palace-Club (14), no Aero Clube, na Rádio Bom Jesus e no Ginásio Rio Branco. Além disso, o Jazz S. Geraldo era convidado para fora, “pelos quatro lados de Bom Jesus” (15).

Quatro bailes marcantes na memória:

Baile da emancipação do município, no dia 1º de janeiro de 1939, realizado, segundo Dercilio, na antiga casa Firmo, na Praça Governador Portela (16).

Inauguração do Bar Itamaraty (17), de propriedade do Sr. Leovergilio Nunes da Silva, conhecido como “Dodô Elias”. Dercilio, no banjo, tocava com um quinteto famoso composto dos três irmãos Xavier, Levy Xavier no piston, Homero no clarinete, Bininho no trombone, além de Manoelzinho Reis na bateria.

Inauguração do Bar Itamaraty, em 1939, que ficou conhecido como bar do Dodô Elias. Sentados, a partir da esquerda, Dercílio de Souza Pires (Dercílio do Banjo), Homero Xavier (clarinete), Levy Xavier (piston), Manoelzinho Reis (bateria), e Bininho Xavier (trombone). Foto: Galeria Histórica, Jornal O Norte Fluminense.

O Boletim, 1939

Baile em benefício à reabertura do Hospital São Vicente de Paulo, realizado no Ginásio Rio Branco, em 1939. O baile foi organizado pela Diretoria do Centro Popular Pró-Melhoramentos de Bom Jesus, cujo presidente, à época, era Olívio Bastos.

Bailes de Micareme no Aero Clube (18), em 1952, ao som do Trio composto por Dercilio, no banjo, Christóvão Pires na bateria e Pedro Augusto (vulgo “Macuco”) no pandeiro.

Carnavais, festas juninas e festas populares

Dessa época em diante, Dercílio conta não ter tocado mais em bailes sociais, a não ser em carnavais fora de Bom Jesus. Com a carteira profissional da Ordem dos Músicos, passou a tocar também em bailes de cabaré, nunca deixando de frequentar, é claro, as serenatas.

Entre 1952 e 1970, mesmo com Agnes de Aquino (19) não morando mais em Bom Jesus, este se fazia presente na cidade em toda Festa de Agosto, com seu sax. Junto com Dercilio no banjo e Jader Silva, também no saxofone, costumavam formar um trio.

A partir de 1968, Delcidio passa a tocar sem compromisso profissional, com seus companheiros acordeonistas Elóis Teixeira dos Santos e Romeu T. Sobrinho, fazendo show em almoço de recepções e festas juninas, em locais como o Colégio Rio Branco, o Clube do Ordem e Progresso e o Olímpico Futebol Clube.

O violeiro Dercilio é destaque no convite da Festa Junina
publicado no jornal do Colégio Rio Branco

No período em escreve suas memórias, em 1979, Dercílio toca com um companheiro de sopro, Manuel Portugal, com sua flauta de seis furos, e continua a animar festas juninas e outros festejos. Luciano Bastos destaca sua eterna juventude ao contar que no carnaval daquele ano, após tratamento médico, com seus 77 anos,

Dercilio saiu pelas ruas da cidade, em sua bicicleta, batendo um tambor. Em sua passagem com rosto feliz e alegre saudava e brincava sozinho o carnaval. Confesso que me emocionei. Que mensagem maravilhosa você estava enviando, meu bom amigo Dercilio, na simplicidade daquele desfile solitário. Nenhum livro ou palavras falariam melhor (1).

Dercilio do Banjo e Luciano Bastos, no Colégio Rio Branco, em 21/10/1983

Seus 90 anos foram festejados ao lado da esposa, Sra. Aleixina Furtado de Souza, familiares e amigos, em sua residência em Bom Jesus do Norte (20)

Dercilio deixou um legado de encantamento aos que o ouviram tocar e, nas palavras do próprio músico, deixou registradas as recordações dos “velhos tempos em que levei muitos músicos embaixo das minhas palhetadas e acordes” (2).

Em sua homenagem foi criada, em Bom Jesus do Norte (ES), a "Banda Musical Dercilio Pires" (21).

Paula Aparecida Martins Borges Bastos

(atualizado em 09/06/2025)



Notas e referências

(1) Dercilio do Violão, por Luciano Bastos. O Norte Fluminense. Bom Jesus do Itabapoana, 12/08/1979.

(2) “Nas margens do Itabapoana: minha humilde história” é o título das memórias de Dercilio do Banjo, de 1979. O original, manuscrito, integra o acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos. Grande parte das informações constantes no presente texto tem por base essa autobiografia.

(3) Segundo o músico, seu nome correto seria Dercilio de Souza Pires, porém, de forma inadvertida, na segunda via do registro passou a constar Dercilio Baptista de Souza.

(4) Dercilio indica que Salgado ficava no lado fluminense, em torno de dois quilômetros de distância de Santo Eduardo (atual distrito de Campos dos Goytacazes) e Ponte do Itabapoana (atual distrito de Mimoso do Sul), estando localizado ao longo da estrada que ligava essas duas localidades ao povoado de Limeira, também no lado fluminense. Salgado era composto de um grupo de casas dos dois lados da estrada, bem como uma pequena Capela, no alto de um discreto morro.

(5) O transporte ferroviário, ao ser implantado na região, fez com que o transporte fluvial fosse decaindo economicamente, o que teve forte repercussão negativa nos povoados que gravitavam em torno do Porto da Limeira. Saiba mais: http://gerson-franca.blogspot.com/2010/10/curiosidade-limeira-e-os-correios.html .

(6) Atual José Carlos, distrito de Apiacá (ES).

(7) O encantamento infantil com a primeira visão da fluminense Bom Jesus, levou Delcídio a afirmar ter continuado a viagem “levando no meu coração Bom Jesus do Itabapoana”. Veja mais sobre essa parte da viagem no subtítulo “Memórias dos primeiros anos do século XX” da matéria a seguir : https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2021/05/pracas-amaral-peixoto-e-governador.html .

(8) Segundo Dercílio, a ponte ficava próximo a uma fazenda da família Matias e, na época em que escreveu suas memórias, a ponte já não existia mais.

(9) A Confeitaria Hirsch, situada na atual Praça Governador Portela, era bastante frequentada nas décadas de 1920 e 1930 e, segundo notícias de jornais da época, possuía uma carta de vinhos variados, além de sorvetes, refrescos, doces e outras iguarias. Carlos Hirsch, além de proprietário, participava dos eventos musicais com seu violino, como narra Dercílio.

(10) O maestro Clovis Brandão foi o autor da composição musical “Ordem e Progresso”, com letra de Otacílio de Aquino. A marcha, composta para o Ordem e Progresso Futebol Clube, foi executada pelo conjunto Jazz, sob direção do maestro compositor, em festividade no Cine Teatro São Geraldo em 08/01/1934, durante posse da nova diretoria do Clube desportivo. Fonte: Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12/01/1934. Disponível aqui

(11) Banjo-tenor: Banjo de quatro cordas, com pescoço curto, normalmente tocado com uma palheta, mas também pode ser dedilhado com os dedos. Foi um instrumento muito popular no Tango e em outras bandas de dança das décadas de 1920 e 1930, sendo atualmente mais comum no jazz originário de Nova Orleans. Saiba mais aqui .

(12) Segundo Dercilio, os maestros e pianistas Clovis Brandão e Carlos Paiva já não moravam em Bom Jesus do Itabapoana nessa época.

(13) Para saber mais sobre a biografia e carreira musical de Levy Xavier e sua família: https://onortefluminense.blogspot.com/2018/06/hoje-o-maestro-levy-xavier-completaria.html .

(14) Fundado por Salim Tannus, o Palace-Club era um salão de bailes localizado na Praça Governador Portela, porém não teve vida longa, indica Dercilio.

(15) O  músico faz menção, aqui, aos quatro distritos que compunham o município  de Bom Jesus do Itabapoana, na época: Bom Jesus do Itabapoana - sede, Calheiros, Rosal e Liberdade.

(16) As festividades de instalação do município ocorreram ao longo de todo o dia 1º, na Praça Governador Portela e o evento contou com a presença de políticos locais e da região, além de grande público.  A solenidade oficial ocorreu no prédio onde hoje é o Big Hotel. Segundo Francisco Camargo Teixeira, a Lyra dos Conspiradores, da cidade de Macaé, também se fez presente. A Casa Firmo, onde Dercílio indica haver ocorrido o baile da festa, foi posteriormente demolida, tendo sido construído no local o prédio do Cine-Teatro Monte Líbano, hoje com tombamento pelo INEPAC. Saiba mais em: Bom Jesus do Itabapoana, de Francisco Camargo Teixeira, 3ª ed. ampliada por Georgina Mello Teixeira, 2005; e em: http://onortefluminense.blogspot.com/2015/12/os-76-anos-de-nossa-2-emancipacao.html .

(17) Localizado na esquina da Rua Roberto Silveira com a Travessa R. T. José Teixeira, indica o músico.

(18) Segundo Dercilio, com a promoção de bailes no salão do Monte Líbano, organizado pela Rádio Bom Jesus, a “moçada do Aero”, resolveu na última hora “separar o bloco e fazer os Bailes do Aero Clube”, solicitando ao seu Diretor, Sr. Salim Tannus, sua realização. Foram duas noites, conta o músico, surpreendentes, em que a “moçada vibrou de alegria”.

(19) Agnes de Aquino fez carreira musical, tendo gravado em disco (78 RPM) a música “Caminho Errado”, junto com Carlos Magno, em 1956. No disco “As Valsas de Ontem e a Banda Campesina de Nova Friburgo”, gravou a música “Vitória Régia”, sem data. Fonte: IMMub, Catálogo online da música brasileira. Conferir aqui ,  aqui e aqui .

(20) Dercilio Batista Pires. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 27/09/1992.

(21) A Banda de Música Dercilio Pires consta no cadastro  de Bandas da Funarte: https://sistemas.funarte.gov.br/consultaBandas/listagem.php?uf=ES Acesso em 16/02/2022



Atualização em: 24/02/2022


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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ponte sobre o rio Itabapoana completa 90 anos


                                                                                     Claudia M. Borges Bastos do Carmo


Inauguração da ponte sobre o rio Itabapoana, 09 de julho de 1927 (1)



Quem atravessa a ponte sobre o rio Itabapoana, ligando Bom Jesus do Itabapoana (RJ) a Bom Jesus do Norte (ES), no centro, talvez não saiba, mas ela tem muita história para contar.

Há 90 anos, no dia 07 de julho de 1927, a ponte de cimento - um dos símbolos de nosso patrimônio histórico - ligando Bom Jesus do Itabapoana (distrito de Itaperuna, Rio de Janeiro) a Bom Jesus do Norte (distrito de São José do Calçado, Espírito Santo) foi inaugurada com a presença dos presidentes (Governadores) Feliciano Sodré (RJ) e Florentino Avidos (ES), ambos com grande comitiva.

Com 58 metros de comprimento e 7 metros de largura, via dupla, sua construção foi um marco no desenvolvimento das cidades, tendo sido iniciada em 1925, sendo o empreiteiro contratante da obra o engenheiro dr. Paulo Pereira Nunes, falecido em agosto de 1926 (2), e substituído por seu cunhado, dr. Alberto Couter Clark Filho. (3)



Ponte em construção, 1927. (4)




Com bandeiras ornamentando a estrutura, a inauguração da Ponte foi motivo de festa e teve repercussão nacional. As cidades programaram vários eventos aos convidados, desde festa pública na praça Governador Portela a almoço, jantar, baile e visitas a instituições como o Colégio Rio Branco e o Hospital São Vicente de Paulo. A data marcou também, oficialmente, o início do funcionamento da rodovia de automóveis Bom Jesus - Calçado e Bom Jesus - Santo Eduardo. 

Hoje, com o passar dos anos, essa importante e nonagenária ponte encontra-se mal conservada, esquecida, resistindo impavidamente às cheias do Itabapoana e ao trânsito diário intenso de pessoas e veículos, necessitando mais do que nunca de ajuda e reconhecimento de seu valor histórico e sua importância estratégica para a união entre essas duas cidades irmãs. 


CRONOLOGIA DA VISITA DOS PRESIDENTES A BOM JESUS EM 09.07.1927 (5)


O País, 21 de julho de 1927






CHEGADA A PONTE DE ITABAPOANA (ES). ENCONTRO DOS PRESIDENTES.


Nesta localidade tiveram os dois presidentes entusiástica recepção pelo povo, sendo saudados pelo dr. Nunos Santos Neves, promotor público de S. José do Calçado. 

8h - Florentino Avidos, presidente do Estado do Espírito Santo, chega no trem especial da Leopoldina, com grande comitiva: Dr. Lopes Ribeiro, secretário do Interior, Moacir Avidos, Benvindo de Novaes, secretário de Agricultura, diretor do serviço de melhoramentos de Vitória, Aristeu Aguiar, secretário da Presidência e major Barbeta da Rocha, ajudante de ordens, entre outros. 

10h – Feliciano Sodré, presidente do Estado do Rio de Janeiro, chega em trem especial vindo de Porciúncula, RJ, com grande comitiva: Dr. Pio Borges, secretário de Agricultura, Dr. Pereira Nunes, prefeito de Campos, deputados Joaquim de Mello, Álvaro Neves e Thiers Cardoso, entre outros.

Também tomaram parte na viagem: um operador da Botelho-Film; representante de "A Vida Doméstica"; o sr. Abílio Gomes Pereira da Motta, representante da "Gazeta de Notícias" e o Dr. Porphirio Henriques Filho, da "Gazeta da Tarde", de Campos.


"Entre vivas entusiastas e crepitantes aclamações, entre música, foguetes, formando um alarido de multidão contente, feliz na volúpia de aplaudir, deu-se o encontro dos dois Presidentes. Trocados os cumprimentos protocolares, os dois administradores se abraçaram fraternalmente, seguindo-se um movimento de amável cordialidade entre os membros representativos das duas comitivas. Foi um instante de interessada e simpática aproximação, em que almas dos dois Estados vizinhos, com uma longa e fecunda tradição de amizade se tocaram num vigoroso abraço de alegria. Em seguida os dois Presidentes, as suas comitivas e muitas outras pessoas tomaram o trem especial para Bom Jesus." (5)


Após o encontro em Ponte de Itabapoana, os presidentes seguiram de trem para Bom Jesus. Houve parada na Estação de Boa Vista (Apiacá) e em Ponte de José Carlos, com homenagens. 



CHEGADA A BOM JESUS


Chegada dos presidentes Feliciano Sodré e Florentino Avidos, com "imponente" recepção pelas populações de Bom Jesus do Itabapoana e Bom Jesus do Norte (7)








  11h - Chegada dos Presidentes do Estado do Rio de Janeiro e do Espírito Santo a Bom Jesus do Norte, sendo recebidos na praça da Estação: 


"A praça da Estação regorgitava de povo. Era uma enorme massa popular, que se agitava em vivas, palmas, aclamando, entre música e hinos escolares, os dois Presidentes.”


Recepção aos presidentes Avidos e Sodré (4)



- Hospedagem - A comissão promotora dos festejos, composta dos srs. Pedro Gonçalves da Silva, Cristiano Lopes e dr. Joel da Escossia, conduziu os dois presidentes para o palacete do sr. Carlos de Figueiredo Soares, onde se hospedaram juntamente com suas comitivas; ali foram recebidos pelos alunos do Instituto Mirabeau Pimentel, de S. José do Calçado, dirigido por Virgílio Rezende, cantando o Hino Espírito Santense, discursando duas alunas: Mercês Garcia e Maria José Machado.


13h - Almoço - Servido por "senhorinhas da alta sociedade bonjesuense. Mesa elegantíssima, serviço impecável, revestido de rara distinção, pratos caros e saborosos, doces finíssimos, e sobretudo uma gentileza cativante pairava sobre a sala encantando a todos com a sua graça e sedução".


Almoço oferecido em Bom Jesus ao dr. Moacyr Avidos, pelos srs. Christiano Dias Lopes, Joel da Escossia, Odilon Diniz, Heitor Nogueira, Octacilio de Aquino e Abelardo Vasconcellos (6)


INAUGURAÇÃO DA PONTE 

Inauguração da ponte sobre o rio Itabapoana, 09 de julho de 1927. Ao centro os presidentes Feliciano Sodré (RJ) e Florentino Avidos. Ponte de cimento após a inauguração (7)



"Os dois Presidentes, após o almoço, seguidos duma enorme multidão encaminharam-se para a ponte pelo lado do Espírito Santo, o povo do Estado do Rio veio pela outra margem encontrando-se no centro, debaixo duma arcada em que se lia numa face Salve Presidente Florentino Avidos e na outra Salve Presidente Feliciano Sodré. O dr. Bemvindo de Novaes, Secretário de Agricultura, pronunciou algumas palavras, entregando, depois de encarecer o valor inestimável do empreendimento, ao povo de ambos os Estados, o trânsito livre da ponte. O orador foi muito feliz na sua oração, expondo as vantagens da sólida construção com palavras precisas, exatas, numa linguagem clara e serena. Em seguida foi rompida a fita de praxe e o povo crepitou de entusiasmo , vivando os dois beneméritos governos.  No discurso aos presentes, como representante do povo fluminense, o dr. Octacílio de Aquino, advogado em Bom Jesus do Itabapoana, saudou os dois Presidentes, descrevendo a utilidade da ponte e o papel desse melhoramento na vida dos Estados limítrofes. E depois de uma série de considerações sobre a ação da política, a missão dos governos, terminou o seu discurso rendendo uma homenagem individual aos dois Presidentes. O dr. Octacilio de Aquino, além de advogado de raro merecimento, é um fino cultor das letras e um poeta delicadíssimo e, por isso, o seu discurso foi uma forte e bela página de boa e sã literatura."




Ponte de cimento após a inauguração (4)



"O Itabapoana, como se sabe, separa os dois Estados, criando, entre nós, esse interessante ambiente de fronteira. O aspecto em Bom Jesus é mais curioso porque o rio separa duas prósperas localidades que se defrontam e embora edificadas em Estados diferentes se completam.
Sobre o dorso do Itabapoana assentaram a ponte que, unindo as duas grandes unidades confederativas, permite um intercâmbio maior de produtos dos dois Estados, mais íntima comunhão de interesses, solidariedade mais ampla e eficiente. A linde natural que os separava, se não estabelecia duas populações rivais, pois que é impossível haver rivalidades entre os filhos da mesma pátria, fazia-os girar em órbitas particulares e regionais. A força expansiva do comércio, a inteligente compreensão das necessidades comuns por parte dos respectivos dirigentes, extinguiram a linha limítrofe que a natureza determinara. Obras de aproximação como essa dão relevo às administrações que a levaram a cabo, e dignificam as populações cujos intuitos de trabalho e ordem a ditaram." (6)



Após a inauguração:

- Visita à agência do Banco do Espírito Santo, recebidos pelo gerente dr. Cristiano Dias Lopes.

- Visita ao Hospital São Vicente de Paulo.

- Visita ao COLÉGIO RIO BRANCO.

- Passeio pela estrada de automóvel para S. José do Calçado.

- Em companhia do coronel Pedro Gonçalves da Silva, influente político local, os dois presidentes percorreram de automóvel várias ruas de Bom Jesus.





Aspecto da estrada de automóveis Bom Jesus a Calçado (4)


"À noite as duas povoações assumiram um aspecto encantador, destacando-se a praça Governador Portella, no Estado do Rio. É um jardim defronte da Igreja, limitado por duas ruas, numa das quais se encontra o Hotel Bom Jesus, onde se realizou o banquete oficial. O jardim enfeitado de lâmpadas elétricas de várias cores oferecia à vista um espetáculo deslumbrante. Um povo bem vestido e contente o enchia completamente, vibrando de alegria. Mulheres elegantes, formosíssimas, passeavam em grupos fascinantes de uma alameda a outra, dominando a praça com a magia da graça feminina. Na torre da igreja, que se ergue defronte da praça Governador Portela, uma imagem de Cristo, pregado numa cruz luminosa, parecia derramar um doce sorriso de bondade e de perdão sobre o povo que se divertia." (5)


"Ao chegarem à Praça Governador Portella foram delirantemente ovacionados. O Presidente Feliciano Sodré recebeu aclamação formidável do ardente povo fluminense. A alma popular explodiu de admiração pelo estadista e incansável lidador republicano que fez no seu glorioso Estado do Rio uma obra administrativa de eficientíssimo dinamismo construtor. 


9.07.1927. Aglomeração popular na Praça Governador Portela (6)








"Um orador surgiu dum automóvel dominando a
multidão com as suas primeiras palavras. Era o dr. Cesar Ferolla, clínico em Bom Jesus, que saudou o dr. Feliciano Sodré em nome do povo da sua terra. Falaram também ao povo o dr. Otacílio Ramalho, Fernando Abreu, Boanerges Silveira e, "fortemente emocionado" o Presidente Sodré(5)


9.07.1927. População acompanhando os discursos na Praça Governador Portela (6)











20h – Banquete no Bom Jesus Hotel, oferecido aos dois Presidentes e sua comitiva. (6)



O Banquete – Às 8h da noite teve lugar no Hotel Bom Jesus o banquete oferecido pelo povo de ambos os Estados aos dois Presidentes. À mesa em forma de U sentaram-se sessenta pessoas. Ofereceu o banquete aos homenageados o padre Mello, vigário de Bom Jesus. O padre Mello leu um discurso brilhante, cheio de beleza e de verdade. (5)


Além de Padre Mello, discursaram também o dr. Aristeu Aguiar, secretário da Presidência e o Dr. Feliciano Sodré, que encerrou com um brinde ao Presidente da  República dr. Washington Luiz. Após o banquete, baile no salão do mesmo hotel.



"Tocou durante o banquete uma excelente orquestra. Em seguida ao banquete realizou-se o baile num dos salões do mesmo hotel.
As danças muito animadas se prolongaram até alta madrugada, num ambiente de elegância, distinção e fina cordialidade." (5)

                          

                            10/07/1927 

 O REGRESSO


Na parte da manhã, após os últimos cumprimentos e despedida, os membros das comitivas partiram em doze automóveis para Santo Eduardo, inaugurando a estrada de rodagem de 32 km, antiga aspiração dos bonjesuenses, "facilitando assim as comunicações e a exportação de nossos produtos". 

Em Santo Eduardo, os presidentes dos Estados do Rio e do Espírito Santo embarcaram na Estrada de Ferro Leopoldina, seguindo viagem em trem especial para Vitória. (5)

"Meus Senhores, desde ontem que o Governo e o povo do Espírito Santo têm a insigne honra de hospedar em seu seio o eminente estadista que dirige os destinos da terra fluminense. Essa distinção que nos foi concedida teve por motivo a inauguração de uma obra, que embora singela na sua aparência e realidade, tem a grande significação de constituir mais um forte traço de união entre os dois Estados irmãos e amigos, qual é a ponte de Bom Jesus sobre o Itabapoana. Vindo à nossa fronteira consentiu o Sr. Presidente Sodré em nos conceder a grande alegria de vir até nossa Capital e percorrer mesmo alguns de nossos municípios." (5)




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Fontes:

(1) Vida Doméstica, Agosto.1927

(1) O Malho, 30.07.1927 

(2) Mensagem apresentada pelo Presidente do Estado do Espirito Santo, Dr. Florentino Avidos, ao Congresso Legislativo, a 15 de Junho de 1928. 

(3) O Liberal, 16.01.1927

(4) Vida Capichaba, Maio.1927

(5) Diário da Manhã, 12.07.1927

(6) Vida Capichaba, 15.08.1927


(7) O Malho, 30.07.1927




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Acervo conta história - doação Manoel Mangaraviti


Objetos utilizados no passado ajudam a compreender as transformações por que passam as sociedades, permitindo detectar como as tecnologias eram produzidas e apropriadas pelas comunidades ao longo do tempo.

Dentre o acervo do ECLB encontram-se objetos do século XX relacionados com o trabalho de transmissão de energia elétrica, e que foram doados pelo Sr. Manoel Mangaraviti. 

Seu Manoel Mangaraviti trabalhou durantes anos na antiga Estação Força e Luz, que recebia energia da Usina Mangaravite e distribuía para a região (Bom Jesus do Norte, São José do Calçado, Apiacá, Bom Jesus do Itabapoana).

Manoel Mangaravite: objetos contam história de um período de trabalho na Estação Força e Luz

São muitas as histórias que S. Manoel tem para contar acerca desse período, tendo guardado com muito carinho durante anos alguns objetos que ajudam a preservar essa memória, e que foram doados ao ECLB em 2014. São amperímetros, conectores, megômetros e outros aparelhos do mundo mágico do reino da eletricidade.

Destaque especial para um telefone portátil, também conhecido como "telefone de campanha", que era utilizado pelos trabalhadores para detectar, ao longo de um trecho de fiação, em trabalho externo, onde estaria concentrado o problema que deixava partes da região sem energia elétrica.


Telefone de Campanha: forma de detectar problemas na transmissão ao longo da fiação elétrica

Quer conhecer um pouco mais sobre a Estação Força e Luz e a Usina Mangaravite em Bom Jesus do Norte?

Vale a pena conferir o documentário "Ruínas de Mangaravite" produzido por alunos da Escola Municipal Coronel Antônio Honório em 2011: 

Esse curta-metragem recebeu o prêmio de "Melhor Edição" na 1ª Mostra Capixaba de Audiovisual Histórico-Cultural. Veja detalhes em: http://itabapoana.blogspot.com.br/2011/09/bom-jesus-do-norte-es-roducao-de-alunos.html


USINA MANGARAVITE
Foto: Sergio Falcetti. Disponível: http://www.panoramio.com/photo/84396667 



Jornal O Norte Fluminense 1970