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terça-feira, 25 de março de 2025

Memórias do Modernismo em Bom Jesus: o "Prédio dos Bancários"

"Prédio dos Bancários", primeiro conjunto habitacional de Bom Jesus do Itabapoana, RJ.
Vista da Rua República do Líbano. Foto: Paula Bastos, 2025.
 
por Paula Aparecida Martins Borges Bastos 

   

   A história de alguns imóveis contribui para a compreensão de como os processos de urbanização de uma cidade vão sendo delineados ao longo do tempo. Esse é o caso, por exemplo, do "Prédio dos Bancários", em Bom Jesus do Itabapoana

   Com seus quase 66 anos de idade, para além de um projeto urbanístico local, a construção do edifício fez parte de um conjunto de obras realizadas por uma autarquia federal, o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários, o IAPB.

  Assim como os demais Institutos de Aposentadoria e Pensão de outras categorias profissionais, o IAPB surgiu no período do primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945). Estes órgãos executaram “as primeiras iniciativas públicas de produção de moradia” e possuíam fortes tendências modernistas (1).

   E o que caracteriza o modernismo? Segundo Palhas (2)

A produção arquitetônica do movimento moderno geralmente é associada quase que exclusivamente a determinados princípios estéticos, muitas vezes traduzidos em uma descrição estilística dos objetos: edifícios modernos são construções com coberturas planas sem qualquer ou pouca ornamentação, de geometria pura, fachadas transparentes e clareza construtiva, enquanto a espacialidade e o próprio conteúdo social e teórico geradores desta linguagem plástica têm sua compreensão reduzida. (p.19)

"Prédio dos Bancários", fachada no estilo modernista, vista da Rua República do Líbano,
Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos, 2025.

    Os ideais modernistas de arquitetura e urbanismo logo foram incorporados ao setor habitacional brasileiro, integrando as questões técnicas de construção ao objetivo governamental de modernizar a nação (3).

  Nesse contexto é que se delineou o primeiro edifício habitacional vertical no espaço urbano de Bom Jesus do Itabapoana. Esse tipo de construção vinha se expandindo por todo o país, a ponto de existirem em diversas cidades, grande parte deles com características muito semelhantes:

O IAPB teve o privilégio de implantar suas obras residenciais em áreas centrais e, muito frequentemente, adotou como partido edifícios em altura ou blocos isolados de quatro pavimentos, integrados à malha urbana. Foram empregados nesses projetos elementos típicos do movimento moderno no Brasil, tais como cobogós, brise-soleils, pilotis, fachadas envidraçadas, modulação da estrutura e equipamentos coletivos na cobertura. Tais edifícios ficaram conhecidos como "edifícios dos bancários" e estão presentes em várias capitais brasileiras, mas também em cidades de pequeno e médio porte, sobretudo na região Sudeste. Quando implantados em terrenos maiores, sempre dispunham de áreas verdes e livres. Por essa razão, associa-se a atuação do IAPB ao processo de verticalização de inúmeras cidades brasileiras e à difusão do movimento moderno. (4)

   Dentre os "Edifícios dos Bancários" construídos no estado do Rio de Janeiro, podemos destacar o de Niterói e o do bairro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro. Em Brasília, uma das obras do IAPB foi o Conjunto Habitacional Presidente Juscelino Kubitschek, composto de 11 blocos projetados por Oscar Niemeyer (2, 5).

   É claro que especificidades foram consideradas em cada localidade, e seria interessante um estudo sobre o projeto arquitetônico realizado em Bom Jesus. Percebe-se que um pequeno espaço de área verde foi projetado no entorno da construção, e talvez uma de suas mais curiosas singularidades esteja no modo de nomeação do imóvel, pois se em vários lugares a denominação é “Edifício dos Bancários”, em Bom Jesus, a edificação  ficou conhecida como “Prédio dos Bancários”.

"Prédio  dos Bancários", vista da Rua Coronel Luiz Vieira Rezende. Foto: Paula Bastos, 2021.

O início: 1º semestre de 1957

   A história do edifício se inicia em 1957, quando os bancários bonjesuenses têm suas demandas habitacionais reforçadas por um conjunto de fatores facilitadores.

   Naquela época o Rio de Janeiro era a capital do país, a sede da presidência da República. O presidente era Juscelino Kubstichek, que vinha implementando uma política desenvolvimentista em seu governo. Ao mesmo tempo, figuras políticas bonjesuenses vinham ocupando postos de destaque no governo estadual, como era o caso de Roberto Silveira, então vice-governador do Rio de Janeiro, a quem se credita o êxito da realização da construção.

O bonjesuense Roberto Silveira
Foto: jornal O Norte Fluminense, 19/10/1958 

   Apesar de ser uma demanda antiga dos bancários, as conversas que iniciaram efetivamente a concretização de um projeto habitacional para a categoria, em Bom Jesus, ocorreram em fevereiro de 1957.  Nessa  data, em uma reunião de ampla participação, no Aero Clube da cidade, estiveram presentes (6):

- Pelo IAPB: o Delegado de Niterói, Walter Favila Nunes, e o Procurador da autarquia, Dr. Palmyr Silva;

- o Secretário particular do Vice-Governador Roberto Silveira, o bonjesuense Ely Nunes;

- Bancários

- Políticos bonjesuenses,  tais como: os vereadores Esio Martins Bastos e Jayme Rodrigues do Carmo; o suplente de deputado estadual, Tito Nunes da Silva; Dermevaldo Bastos Tavares, do PTB local, mesmo partido do Vice-Governador Roberto Silveira. 

   Dentre os resultados da reunião, definiu-se a fundação de um Sindicato dos Bancários de Bom Jesus, além de serem discutidas questões referentes a empréstimos e assistências médica e hospitalar. Outro tema da pauta foi a construção de um núcleo residencial para os bancários, tendo sido levantadas diversas possibilidades, como construção de casas ou edifício, estudando-se as condições em que ocorreria o pagamento dos imóveis adquiridos pelos bancários. (6)

  Nessa reunião montou-se uma Comissão dos bancários para estudar o assunto e consultar todos os interessados. A Comissão foi composta pelos seguintes representantes (6):

Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais: Zilton Citeli Assad;

Banco do Brasil: José de Almeida e Lauro Hipólito da Silva;

Banco do Estado: Antonio Castro;

Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo de Bom Jesus do Norte: Sebastião Laxe Gouvêia;

Caixa Econômica Federal, agência de Bom Jesus: José Ferreira Catharina.

    O jornal A Voz do Povo, em sua reportagem, indica que, por parte do IAPB havia preferência pela construção de um edifício, ao invés de casas. (6)

     Com efeito, essa vinha sendo a linha do Instituto empregada naquela década:

A partir de 1950, o IAPB consolidou uma política particular para os seus projetos habitacionais, caracterizada por edifícios de grande altura ou blocos únicos de quatro pavimentos implantados em terrenos de menores dimensões, integrados à malha urbana central das cidades, denominados “Edifícios dos Bancários” que acabaram se consolidando como um elemento de identidade da categoria. (7)

     Observamos assim, que a construção da obra em local próximo ao centro da cidade estava integrada às linhas diretrizes do IAPB, de forma que, quando os bancários encaminharam a escolha do local de construção do imóvel em um terreno na Rua República do Líbano, provavelmente conversações prévias para entendimento sobre essa localização já teriam ocorrido, especialmente entre bancários, políticos e gestores.

   Os jornais locais apontavam uma realização relativamente rápida, com previsão, ainda no primeiro semestre de 1957, da realização dos estudos necessários para a compra do terreno e lançamento do Edital de concorrência para a construção do "Edifício dos Bancários" (8, 9).

Lançamento da Pedra Fundamental: Festa de Agosto de 1957

Programação da Festa de Agosto, jornal O Norte Fluminense, 1957.
  

   A expectativa avançou com o lançamento da pedra fundamental do conjunto residencial no início do segundo semestre, durante a Festa de Agosto de 1957, ocasião em que se esperava a presença de diversas autoridades, dentre elas o Vice-Governador Roberto Silveira, havendo ainda a expectativa de estar este acompanhado do Vice-presidente, João Goulart, e do Ministro do Trabalho, Pascifal Barroso. (10) (11)

   Nessa ocasião, noticiava o jornal O Norte Fluminense, os bancários iriam oferecer um banquete aos visitantes, no Colégio Rio Branco. Além disso, as representações locais contavam apresentar as principais reivindicações da região: “transporte ferroviários (volta ao tráfego dos trens da C.F. Itabapoana) e do aproveitamento do potencial hidrelétrico do rio Itabapoana. Dois velhos e angustiantes problemas que manietam, que dificultam, a nossa marcha ascensional em demanda de dias mais prósperos.” (10)

Jornal O Norte Fluminense, 11/08/1957


   A visita das autoridades estaduais e federais a Bom Jesus durante a Festa de Agosto foi noticiada em diversos órgãos de imprensa do estado do Rio de Janeiro como tendo ocorrido no dia 15 de agosto, sendo anunciada também a visita do Governador do Rio de Janeiro, Miguel Couto. (12)

Visita do Sr. João Goulart a Bom Jesus. Na foto: 1. João Goulart, 2. Roberto Silveira, 3. José de Oliveira Borges, 4. Tito Nunes, 5. Miguel Couto, 6. Dermevaldo Bastos Tavares, 7. Parsival Barroso.
Imagem e Legenda: Álbum de Fotos Históricas - Acervo ECLB.

Legenda original identificando alguns dos integrantes da fotografia do Álbum de Fotos Históricas referente à visita do Sr. João Goulart a Bom Jesus do Itabaapoana, RJ. Acervo: ECLB. 

   O Diário Carioca dá mais detalhes da visita do vice-presidente ao Norte do Estado do Rio, destacando ter João Goulart passado por Itaperuna, onde inaugurou uma agência do SAPS e conversou com bancários locais. Em Bom Jesus do Itabapoana, "depois de presidir à inauguração de um armazém do SAPS, foi conhecer o local onde o IAPB vai construir um edifício de apartamentos  para bancários"*. Antes de regressar ao Rio de Janeiro, Jango e sua comitiva  participaram de um "banquete com que foram homenageados nos salões do Ginásio Rio Branco". (13)

   Com base nessas informações, que dão conta da  presença de João Goulart e Roberto Silveira juntos na Festa  de Agosto de 1957, participando da inauguração de um armazém do SAPS e do lançamento da pedra fundamental do Prédio dos Bancários, na Rua República do Líbano, tudo leva a considerar que a famosa fotografia publicada pelo jornal O Norte Fluminense em seu blog (veja aqui), em que é possível observar os dois políticos acompanhados de personalidades bonjesuenses nas imediações da Praça Governador Portela (14, 15) é referente ao mesmo evento. É possível observar que ambos portam a mesma roupa nas duas imagens. Bom Jesus teria, assim, recebido na época os dois políticos quando ocupavam o cargo de vice-presidente e vice-governador, respectivamente.

A construção 

  O Edital de concorrência pública nº 8/58 foi lançado pelo IAPB em 10/05/1958, sendo publicado em jornais de grande circulação no país. O objetivo era "a construção de um edifício na cidade de Bom Jesus do Itabapoana, Estado do Rio de Janeiro, à Rua República do Líbano e Coronel Luiz Vieira de Rezende", sendo a data da concorrência, após adiamento, marcada para 15/06/1958. (16)

    Com valor do contrato de sete milhões e duzentos e  dez mil cruzeiros, foi dado início às construções em 20/10/1958. O prazo estimado para a conclusão foi de dez meses. A execução ficou a cargo da Empresa Nacional de Saneamento e Obras (ENSO S.A.), tendo sido o engenheiro responsável pela obra o sr. Antonio Monteiro de Barros. Atuou no local como engenheiro encarregado o sr. José de Alencar, que permaneceu em Bom Jesus durante o período dos trabalhos. (17)

"Prédio dos Bancários" em construção. Jornal A Voz do Povo, 1959.
   Sete meses depois, em maio de 1959, foi comemorada a festa da Cumieira no edifício (18), indicando que a obra já estava no seu ápice, pois essa festa, de antiga tradição, era realizada quando a construção alcançava o ponto mais alto do telhado da casa.
   Ao ficar pronta a obra, seu custo alcançou dez milhões e cem mil cruzeiros (19). Foi entregue à cidade um prédio de três andares, “todos de concreto armado”, em um total de 12 apartamentos, sendo três deles com três quartos e os demais com dois quartos cada, “afora dependências para empregados” (17). Como os bancários constituíam à época um grupo de trabalhadores com salários relativamente altos em relação à população geral, os projetos do IAPB muitas vezes eram pensados para essa “parcela socialmente mais abastada de associados”, o que poderia explicar a construção de “dependência para empregados”(3).
   Com excelente localização, próximo à Praça Governador Portela, o Prédio foi considerado a “obra de maior monta que possuímos” (19), criando a expectativa de acrescentar à incipiente Rua República do Líbano o dinamismo e a perspectiva que dela esperavam os que se aplicaram em sua abertura, iniciada na década de 1940.

Inauguração do Prédio dos Bancários: Festa de Agosto de 1959

"Prédio dos Bancários" recém construído. Jornal A Voz do Povo.

  A inauguração, com desatamento de fita e descerramento de placa comemorativa, ocorreu no dia 14, durante a Festa de Agosto de 1959, ao som da Banda da Política Militar do Estado, que tocou “um vibrante dobrado” (20) (21).

   Dentre os presentes que fizeram uso da palavra estavam (20):

- Lauro Hipólito da Silva, representando os bancários bonjesuenses;

Jornal O Norte Fluminense, 1959

- Professor David Gebalie, em nome da colônia libanesa local e do Clube Libanês, de Niterói;

- J. Costa, em nome dos bancários de Campos;

- O deputado Tito Nunes da Silva, representante na Assembleia Estadual;

- O Prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, Gauthier Pontes Figueiredo;

Jornal O Norte Fluminense, 1959

- O Presidente do IAPB, Ennos Sadock de Sá Motta;

Jornal O Norte Fluminense, 1957

- O bonjesuense Roberto Silveira, na condição de Governador do Estado do Rio de Janeiro.

Edifício Octacilio de Aquino

Edifício Octacilio de Aquino dá nome ao "Prédio dos Bancários" e consta em seu pórtico de entrada.
Foto: Paula Bastos, 2021.

   Em sua fala, o Governador Roberto Silveira sugeriu que, ao invés de colocarem seu nome no Edifício, como constava no Programa, que este recebesse o nome do recém falecido Octacilio de Aquino, “cuja memória é grata aos bonjesuenses, não apenas como grande intelectual que foi, mas também como Juiz de Direito Substituto da Comarca e um dos mais ilustres filhos de nossa terra” (20) (saiba mais). A sugestão foi aceita, perdurando o Edifício com esse nome até os tempos atuais, conforme pode-se observar no pórtico da entrada de acesso ao Prédio voltado para a rua Coronel Luiz Vieira Rezende.


O nome Octacilio de Aquino para o prédio foi sugestão de Roberto Silveira, como homenagem ao famoso bonjesuense, recém-falecido à época. Foto: Paula Bastos, 2021.


   A fala de Lauro Hipólito da Silva, representante dos bancários de Bom Jesus, além dos agradecimentos gerais, expressou bem o sentimento que deve ter atingido a muitos dos que contemplaram o prédio naquele momento: “o regozijo da classe é plenamente justificável, pois se o nosso edifício carece, em suas linhas, de arrojo funcional que caracteriza a arquitetura hodierna, oferece a segurança e o conforto, requisitos por nós considerados essenciais”. (21). É possível que, em sua fala, o bancário estivesse pensando nas novas casas que vinham sendo construídas no centro da cidade, em especial as de propriedades dos vários libaneses que vinham dinamizando a arquitetura urbana das casas com suas novas e rebuscadas construções pelas ruas do centro da cidade e na Praça Matriz, onde inclusive um Edifício ao estilo eclético havia sido inaugurado no início da década, o imponente Cine Teatro Monte Líbano (22)(23).

   Apesar de inaugurado, o Edifício dos  Bancários ainda não se encontrava pronto para ser habitado, pois havia a indicação de que necessitava de algumas finalizações, que estavam previstas para serem concluídas em um mês.

    Em fins de 1959, matéria do jornal A Voz do Povo indica que, apesar de habitável, o “edifício que tanto veio embelezar e enriquecer a rua República do Líbano, continua até hoje sem moradores. É que o aluguel dos apartamentos, em alguns casos, atinge a mais de seis mil cruzeiros, preço exorbitante mesmo para os associados que percebem melhores vencimentos”. Uma solicitação dos bancários bonjesuenses foi encaminhada ao IAPB solicitando que “o assunto fosse estudado com mais cautela e espírito de equidade”, havendo a expectativa de se fizesse uma “revisão no peço dos aluguéis, para que os mesmos sejam estipulados em bases mais justas” (24).

  A situação parece não ter sido resolvida de imediato, pois em julho de 1960, o mesmo jornal informa que o prédio conta com vários apartamentos desocupados, o que seria decorrente do alto preço dos aluguéis e do alto valor necessário para aquisição. Estariam morando no local apenas três bancários e um particular, porém não na condição de compradores, mas sim de inquilinos. O pagamento de água e luz, bem como o do zelador e do síndico estavam a cargo do Instituto dos Bancários, para garantir a conservação da obra (19).

Os elogios da imprensa 

   A forma como a imprensa se refere ao prédio, seja durante sua construção ou após finalizado, é sempre elogiosa, reforçando a convicção de que sua relevância não está apenas na função habitacional, mas também no impulso ao progresso. Assim, a expectativa é de que a obra “virá cooperar em muito para o maior desenvolvimento da cidade, com a edificação de um prédio de linhas modernas numa de suas ruas principais” (9). Essa construção “será um relevante serviço à classe e também à nossa terra que tanto necessita de iniciativas dessa natureza para o seu maior desenvolvimento” (6). No mesmo sentido, afirma-se que “Além de atender às aspirações da classe, virá concorrer para o maior desenvolvimento de nossa terra”. O conjunto residencial ganha adjetivos como “suntuoso” (17), “imponente” (18), “magnífico”, sendo a obra “majestosa” (19). Ao final de sua realização, a afirmação é de que a “obra cara e suntuosa, veio, sem dúvida, cooperar para o embelezamento de Bom Jesus e para o enriquecimento de seu parque imobiliário (26).


Memórias do modernismo local

"Prédio dos Bancários", na esquina entre as ruas República do Líbano e Coronel Luiz Vieira
de Rezende. Foto: Paula Bastos, 2021.

   Podemos perceber que o “Prédio dos Bancários” de Bom Jesus possui uma característica arquitetônica peculiar integrada a um projeto nacional que envolveu as políticas nacionais habitacionais.

    Ao pesquisar sobre o Edifício dos Bancários de Passo Fundo (RS), Souza destaca a importância de se pesquisar tais imóveis, afirmando que

(...) o estudo da atuação dos Institutos de Aposentadoria e Pensões no campo habitacional, sobretudo, em cidades distantes das capitais, se faz necessário frente a necessidade do resgate histórico de suas ações e, especialmente, da salvaguarda do patrimônio arquitetônico moderno. (3)

  Podendo ser considerado o primeiro prédio habitacional modernista da cidade, o "Prédio dos Bancários" não é o único imóvel de Bom Jesus projetado sob influência modernista. 

    A  fachada do Hospital São Vicente de Paulo voltada para a  Avenida Fasbender, na época de sua inauguração,  "se constituía como uma evidente arquitetura do período modernista, possuindo um conjunto de elementos clássicos do movimento e que, atualmente, encontra-se completamente descaracterizada" (26).

   Não parece descabido imaginar que um estudo mais detalhado do patrimônio local poderia apontar outros imóveis com características alinhadas com o conceito modernista que tanto influenciou arquitetos e engenheiros daquela época.

   Reconhecer o passado nos conteúdos de memórias que persistem na atualidade pode contribuir para reflexões sobre o futuro que queremos para nossa vida em comum nos centros urbanos. Esse futuro deveria pensar a arquitetura de uma cidade compreendendo os usos e expectativas de seus moradores, de forma a garantir uma área urbana que preserve o bem estar de seus habitantes.


* A inauguração do Posto do SAPS  (Serviço de Alimentação da Previdência Social) ocorreu na Praça Governador Portela (jornal O Norte Fluminense, n. 500, 01/09/1957)

(atualizado em 31/03/2025)

                                       ***

Agradeço aos meus irmãos Claudia Bastos do Carmo e Gino Borges Bastos por suas pesquisas, que sempre contribuem com dicas preciosas para os estudos que tenho feito na área da memória local.

É permitida a reprodução do conteúdo deste blog em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Referências 

(1) LIMA, Bruno Avellar Alves; ZANIRATO, Silvia Helena. Uma revisão histórica da política habitacional brasileira e seus efeitos socioambientais na metrópole paulista. In: I Seminário Internacional de Pesquisa em Políticas Públicas e Desenvolvimento Social, Franca (SP), 2014.

(2) PALHAS, Ana Cristina Menezes. Os blocos de Niemeyer para o IAPB em Brasília: memória e preservação da SQS 108. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo). Universidade de Brasília, Brasília, 2022.

(3) SOUZA, Edgar. O Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários e a habitação moderna brasileira: o caso do Edifício dos Bancários em Passo Fundo/RS. Cadernos PROARQ, UFRJ, 2021. Disponível em: https://cadernos.proarq.fau.ufrj.br/public/docs/Proarq36_10_Instituto%20de%20Aposentadoria_Junho2021.pdf Acesso 23/03/2025.

(4) BONDUKI; KOURY, 2014, p.179, apud PALHAS, 2022, p.41 (ref.2).

(5) FERREIRA, Marcílio Mendes.  GOROVITZ, Matheus. A invenção da superquadra, 2ª edição, Brasília, IPHAN, 2020. p. 52. Acesso 23/03/2025. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/ainvencaodasuperquadra2aed.pdf Acesso 25/03/2025.

(6) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 16/02/1957.

(7) BONDUKI; KOURY, 2014, p., apud SOUZA, 2021, p.192 (ref.3)

(8) O Norte FluminenseBom Jesus do Itabapoana, 21/03/1957, n.47.

(9) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22/03/1957.

(10) O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 11/08/1957, n. 498.

(11) O Fluminense, Niterói, 14/08/1957, n.22849.

(12) Jornal do BrasilRio de Janeiro, 14/08/1957, n.187.

(13) Diário Carioca, Rio de Janeiro, 16/08/1957, n.8924. 

(14) A visita histórica de João Goulart a Bom Jesus. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2014/03/a-visita-historica-de-joao-goulart-bom.html Acesso 23/03/2025.

(15) As polêmicas sobre a foto da Rua República do Líbano. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2015/07/as-polemicas-sobre-foto-da-rua.html Acesso 23/03/2025.

(16) Diário da Noite, Rio de Janeiro, 02/06/1958.

(17) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 01/11/1958, n. 1204.

(18) O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 03/05/1959, n.579.

(19) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 09/07/1960.

(20) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22/08/1959.

(21) O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 30/08/1959.

(22) A história do Cine Teatro Monte Líbano. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2021/09/a-historia-do-cine-teatro-monte-libano.html Acesso 23/03/2025.

(23)  Praças Amaral Peixoto e Governador Portela: Bom Jesus do Itabapoana e seus centros históricos. Disponível em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2021/05/pracas-amaral-peixoto-e-governador.html Acesso 23/03/2025.

(24) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, xx/12/1959.

(25) A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 27/02/1960.

(26) LETTIERI, Ana Paula Pereira de Campos. Breve descrição das fachadas do Hospital São Vicente de Paulo e Capela Nossa Senhora do Rosário. Disponível em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2023/09/breve-descricao-das-fachadas-do.html Acesso 24/03/2025.



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Cemitérios em Bom Jesus


Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Claudia B.B. do Carmo, 2016.


Claudia Martins Borges Bastos do Carmo
Paula Aparecida Martins Borges Bastos
(atualizado em 04/04/2025)

     A forma como se cultua e reverencia os mortos reflete os aspectos culturais de um povo. Os rituais dos puris e coroados, habitantes comuns nas paragens do Vale do Itabapoana em séculos passados, seguiam hábitos e costumes distintos daqueles que foram instalados na região pelos colonizadores que aqui chegaram no século XIX. Com estes últimos se deu início ao ritual de sepultamento dentro ou próximo de capelas e igrejas, sendo posteriormente esse hábito sido substituído pelo enterro em cemitérios.

Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos, 2025.


Período Imperial

    Os primeiros habitantes do povoamento de Bom Jesus foram sepultados junto à Capela de Santa Rita, construída em 1853, no denominado Alto de Santa Rita (atual Praça Amaral Peixoto).


Alto de Santa Rita (seta amarela): local onde os primeiros habitantes de Bom Jesus foram sepultados.

















   Em 1887, temos notícias de que o inspetor de cemitério da Freguesia do Senhor Bom Jesus do Itabapoana encaminhava a Campos a contabilização dos enterros feitos no local, relatório encaminhado trimestralmente (1).
    Em 1889, deu-se a demissão do inspetor do cemitério que estava atuando na Freguesia. O motivo, indica a ata da Câmara de São José do Avaí (atual Itaperuna) seria por este “não residir na freguesia e sim, há mais de 20 Km de distância, exercendo o emprego de estafeto daquela linha”. Para o cargo foi nomeado “Herculano Rodrigues de Souza, morador dentro da freguesia, onde já ocupou esse cargo, nomeado pela Câmara de Campos” (2) (3).

   Para inspetor do cemitério de Sant’Anna do Itabapoana (atual distrito de Rosal) foi nomeado, no mesmo ano de 1889, Venâncio C. Cunha (2).

Período Republicano

  Na última década do século XIX, quando deu-se a primeira emancipação de Bom Jesus (1890-1892), constam nas atas da Intendência, segundo Luciano Augusto Bastos, a existência de quatro cemitérios no então 1º Distrito: um público (localizado no povoado, atual Bom Jesus) e três particulares (localizados nos atuais Carabuçu, Pirapetinga e Serra do Tardin) (4). A ausência de menção ao cemitério de Sant'Anna se explica por não ter este ficado, naquele período, em terras do efêmero município de Itabapoana.

Os cemitérios e seus inspetores

    O Cemitério Público do povoado estava localizado em Bom Jesus, tendo por Inspetor, em 1890, o Sr. Antonio José dos Santos Lisboa, que, ao assumir o cargo, prestou juramento ante a municipalidade. Em 1892 o cargo de Inspetor passou a ser ocupado pelo sr Rodozino Rodrigues da Silva (4).
  Em Carabuçu, o cemitério particular São João Batista, estava localizado na Serra da Liberdade, na fazenda pertencente aos herdeiros do então falecido Jacob Furtado Mendonça. Nos anos de 1890 e 1891, foram Inspetores do Cemitério o sr. João Climaco Barroso e o sr. Antonio Vicente Pereira, respectivamente (4).
  Em Pirapetinga, o cemitério particular estava localizado na Fazenda do sr. João Pedro Lemgruber, sendo este o próprio Inspetor do cemitério (4).
    Na Serra do Tardin, o cemitério particular tinha por Inspetor o sr. Francisco Tardin (4).

                     
Antigo Cemitério na Serra do Tardin. Foto: Blog Jornal O Norte Fluminense, 2016

Antigo Cemitério na Serra do Tardin. Muro de Pedras construído com mão de obra escrava.
Foto: Blog Jornal O Norte Fluminense, 2016

     O 2º Distrito da época da Primeira Intendência, Santo Antonio do Itabapoana (atual Calheiros), possuía cemitério com inspetor específico para o local (4).

Bom Jesus do Itabapoana: o urbano pede espaço

    Em Bom Jesus do Itabapoana sede, a localização de seu cemitério sofreu alterações em virtude da expansão crescente da área urbana do antigo povoado. Dessa forma, há notícias de que os enterramentos ocorreram em três lugares distintos, em épocas diferentes:
1 - Cemitério no Alto de Santa Rita (região da atual Praça Amaral Peixoto)
2 - Cemitério no Monte Calvário (inicialmente conhecido como cemitério novo em oposição ao do Alto de Santa Rita, após a construção do novo e atual cemitério, passou a ser conhecido como “Cemitério Velho”)
3 - Cemitério Novo (Cemitério atual)

Os primeiros cemitérios de Bom Jesus, no Alto de Santa Rita e no Monte Calvário não existem mais. Nesse vídeo, de 2025, é possível ver imagens atuais do local onde se situou o cemitério do Alto de Santa Rita, na região da Praça Amaral Peixoto, e visão do Morro do Calvário, cuja Capela situada em seu topo aparece no final, dando uma ideia aproximada da localização do segundo Cemitério erigido em Bom Jesus.


    A localização do primeiro cemitério que se tem notícia, em Bom Jesus do Itabapoana sede, foi no Alto de Santa Rita. Quem nos dá informação desse cemitério é Romeu Couto, em crônica intitulada "O cemitério no Alto de Santa Rita", publicada originalmente no jornal A Voz do Povo (5):
     O Alto de Santa Rita, por exemplo, já foi um silencioso e melancólico cemitério. O seu terreno, agora, profanado por nossos pés pecadores, já serviu de abrigo a centenas de corpos sem vida. Ainda hoje, quem se der ao trabalho de revolver algumas camadas de terras daquele local, poderá inteirar-se de sua santa utilidade em tempos idos. Tíbias, crânios e costelas encontradas em tais pesquisas, constituirão testemunho desta minha afirmativa.

     Nesse cemitério existiam dois gigantescos eucaliptos, tendo sido um cortado a golpes de machado, enquanto outro ainda deslumbrava por seu porte quem por ali passava na década de 1930 (5).

     Quando terá sido desativado esse cemitério não podemos afirmar, mas segundo Padre Mello, em 1891 já existia um cemitério no Monte Calvário, estando este, no ano de 1899, um verdadeiro "capoeirão". Mediante tal situação de abandono, relata o Padre ter assumido para a Paróquia a responsabilidade e cuidado pelo cemitério, com apoio de várias pessoas da comunidade (6).

O morro do Calvário já abrigou um Cemitério no final do século XIX, tendo sido completamente desativado no final da primeira metade do século XX. Placa indicativa da subida para ao Monte Monte Calvário. Foto: Paula Bastos, 2025.

   O cuidado e manutenção da área do Monte Calvário parece ter continuado a ser um problema em  1907, quando em época de carnaval, o jornal Itabapoana, em tom de troça, apresentou o seguinte "folião" (7):
      Um misérrimo esqueleto n'uma grotesca fantasia de capim-gordura e erva de Santa-Maria, vem nos pedir que reclamemos dos poderes competentes para o estado em que ele se acha, sem ter quem olhe para a sua vergonha.
           Reconhecemos no folião o Cemitério Novo.

    O desprezo do poder público e da população para com o cemitério existente em Bom Jesus levou Padre Mello a desabafar em uma carta a outro padre, após o Dia de Finados, no ano de 1916, sua indignação frente a essa falta de consideração local para com os restos mortais de seus antecessores (8).
     
     Em 1930 já havia um outro "Cemitério Novo" (o atual cemitério de Bom Jesus), em oposição ao ainda existente "Cemitério Velho" (no Monte Calvário), gerando algumas críticas e desagrado com a situação de abandono deste último, como podemos observar em artigo assinado por Carvalho Junior, no jornal A Voz do Povo (9):

       O cemitério velho é triste no seu abandono. É um cemitério que se aposenta; seu terreno sagrado, dentro em breve, tornar-se-á área construtiva. Em um futuro bem próximo, ali teremos novas praças com seus jardins, e ruas com casas a grimpar pelas encostas do Monte Calvario. Por sobre os túmulos dos que ali repousam, pisarão animais, rolarão veículos e passarão transeuntes na indiferença egoística de sua felicidade. É uma ironia bem triste à paz da morte e ao sono calmo da tumba!

Início da subida para o Morro do Calvário. Como previsto no século passado, o local está totalmente integrado à vida urbana, com suas múltiplas ruas e casas. Foto: Paula Bastos, 2025.


      Em 1935 os dois cemitérios, velho e novo, ainda coexistiam, como podemos depreender no já citado artigo de Romeu Couto, em que aponta as diferenças entre o cemitério "de cá" e o "de lá" (5):

        E no dia da festa, dos que deixaram de viver, no dia de finados? A necrópole de cá é toda movimento. As flores, onde se encontra, até aí, a diferença da sorte, deixam um ar impregnado de um odor cheio de doce tristeza, tristeza essa mais comovente por causa da luz cadavérica desprendida das mil-e-uma velas piedosamente acesas. A gente, enlevado, ouve até o cantochão. Lá, não há festa. Os poucos moradores não se dão ao luxo de tal solenidade. É por isso tudo que os defuntos gostam mais de morar do lado de cá. Aqui há conforto, visitas e outras cousas que constituem a felicidade do homem morto.

    Padre Mello possuía um projeto de urbanização para o Monte Calvário, que só podia se concretizar com o encerramento definitivo do Cemitério ali instalado. Apesar de não estar havendo mais enterramentos no local, os túmulos antigos ainda persistiam e possivelmente alguns mortos ainda continuavam a ser pranteados por seus parentes e amigos, em especial no Dia dos Defuntos, como era chamado o que hoje denominamos Dia de Finados. Em respeito aos mortos e seus familiares, surgiu a proposta de levar os restos mortais e seus respectivos objetos funerários do Cemitério Velho para o Novo.  
      Esse planejamento envolvia uma remodelação do Cemitério Novo, de forma que Padre Mello elaborou um projeto que, em 1936, foi apresentado à Prefeitura de Itaperuna pelo vereador Coronel João Soares, concernente a melhorias na frente do cemitério do então distrito de Bom Jesus do Itabapoana. (10)
Gradil de ferro trabalhado nos portões da entrada lateral do Cemitério. O projeto proposto da década de 1930 e efetivado na década de 1940, previa melhorias na fachada de frente do Cemitério. A entrada do Cemitério se dava por onde se conhece hoje como entrada lateral. Foto: Paula Bastos, 2025.
 
     
Uma capela de velas se situa na rua interna que se dirige à entrada lateral do Cemitério.Foto: Paula Bastos, 2025

     Para a efetivação desse projeto, havia a necessidade de se dividir o novo cemitério em dois, o Municipal e o das Irmandades*, o que provavelmente ocorreu em fins da década de 1930, pois Padre Mello relata, em 1942, que essa divisão existia “desde há alguns anos”, e que o Livro para lançamento de termo de mausoléu ou campa havia sido “iniciado há dois anos mais ou menos” (11).

      O terreno do cemitério das Irmandades se encontrava “em frente e aos lados da Capela separado do outro [o Municipal] por uma linha transversal que passa pelos fundos da mesma Capela” (11). A definição dessa linha foi decorrência de um acordo com a Prefeitura, separando “a área das Irmandades do terreno cedido ultimamente pela Egreja Paroquial à Prefeitura em troca dos elegantes trabalhos da frente ora terminados ou a terminar” (10).
Toda a área do Cemitério em frente à Capela e em suas laterais foi reservada para o Cemitério das Irmadandes, cuja linha divisória com o Cemitério Municipal passava pelos fundos da Capela. Foto: Paula Bastos, 2015

    O cemitério da Irmandade, explica Padre Mello “Destina-se ao enterramento das pessoas que pertençam a alguma Associação religiosa ou que não pertencendo mas sendo católicas prefiram o referido cemitério mediante contrato. É como se usa em todos os cemitérios de Irmandades”(11). Para não haver dúvidas, ressalta que

como nenhuma Associação religiosa é proprietária do cemitério, tendo apenas o direito de nele serem sepultados os seus membros, torna-se por isso mesmo proprietária a Paroquia, a quem cabe o direito de contratar sepulturas perpétuas ou ad tempus, acompanhando a tabela da Prefeitura a quem, por sua vez pertencem os direitos do enterramento, como já ficou dito” (10). 

    Em 1942 parece ter sido efetivamente consumada a obra de entrada do cemitério, já sob a administração de uma Bom Jesus do Itabapoana emancipada. Nessa época, o planejamento de construção de ruas e casas no Monte do Calvário, que vinha sendo aventado por Padre Mello desde a década anterior, começava a se apresentar como uma ação iminente. Para concretizar efetivamente tal projeto, os túmulos e demais relíquias ainda existentes no Cemitério Velho precisavam ter um destino adequado. Dessa forma, Padre Mello determinou um prazo no primeiro semestre de 1942 para que as famílias manifestassem interesse em transferir esse material funerário para o Cemitério da Irmandade, no alto da colina do Cemitério Novo (10) (11).

Capela Nossa Senhora do Rosário

     A Capela a que Padre Mello se refere como dividindo por seus  fundos o Cemitério Municipal do das Irmandades é a mesma que persiste no local até os dias atuais, a de Nossa Senhora do Rosário, e notícias de missas fúnebres aí celebradas no Dia de Finados demonstram que se encontra ereta desde a década de 1920 (12) (13).  Construída “soberana e altiva no alto do monte e de frente para a Matriz”, sua construção não estava voltada para a entrada do cemitério, mas sim para visão do centro de Bom Jesus e sua Igreja Matriz (12). 
A Capela Nossa Senhora do Rosário, situada no alto da colina do Cemitério, foi reformada em 2023. Muitas vezes era chamada simplesmente de "Capela do Rosário", em jornais antigos do início do século XX. Foto: Paula Bastos, 2025.

         A entrada do cemitério se fazia no início do século XX pela entrada a que se tinha acesso pela chamada rua das “Bellas Flores” (atual rua João Ribeiro) (12). O acesso permanece nos dias atuais, porém passou a ser considerada uma entrada lateral.

Rua interna do Cemitério pela entrada lateral, com acesso pela rua João Ribeiro. Foto: Paula Bastos, 2025. 
     
      A entrada principal que conhecemos nos dias de hoje tem por acesso a rua da Igualdade, aberta e inaugurada nos anos 1960, e vai dar de frente com a entrada da Capela (12).

Da entrada do Cemitério, ao final da rua da Igualdade, aberta na década de 1960, é possível vislumbrar o centro de Bom Jesus do Itabapoana, os fundos da Igreja Matriz e suas torres, bem como alguns dos morros que bordeiam a cidade. Foto: Paula Bastos, 2025.

      
 Arte fúnerária

     É possível conceituar a arte funerária como sendo "uma forma de representação da cosmovisão vivenciada e interpretada através da arte, marcando determinados momentos históricos, ideológicos, econômicos e socioculturais em um determinado tempo histórico" (14). 
   Através do estudo da arte funerária, "podem-se acompanhar as transformações acontecidas através de um tempo histórico em uma determinada sociedade" (14).

Arte funerária. Cemitério de Bom Jesus. Foto: Paula Bastos, 2025

Arte funerária. Cemitério de Bom Jesus. Foto: Paula Bastos, 2025

   

A Pietá (representação de Maria recebendo Jesus deposto da Cruz) é um modelo escultórico muito presente nos Cemitérios a partir da virada do século XIX para o XX (14). Cemitério de Bom Jesus. Foto: Paula Bastos, 2025.

     Dessa forma, um estudo mais detalhado sobre a arte funerária nos cemitérios do município de Bom Jesus do Itabapoana talvez pudesse vir a contribuir para uma melhor compreensão de aspectos culturais de nossa população ao longo dos últimos séculos. Uma ressalva talvez seja necessária para o cemitério da sede, que foi transferido de local duas vezes, do Alto de Santa Rita passando pelo Morro do Calvário e se fixando depois, no século XX, na atual colina onde permanece até hoje. Com isso, muitos dos artefatos funerários do século XIX possivelmente se perderam, tornando-se nos tempos atuais possíveis objetos arqueológicos a espera de pesquisas mais apuradas.

    Os artefatos funerários podem, inclusive, nos ajudar a contar um pouco mais da história local de tempos idos, pois ao se inscreverem sobre o sepulcro informações sobre o corpo morto, é possível ver, junto com o conjunto da arte funerária em geral, sobre cada túmulo “um memorial e um documento, cujos traços de escrita de uma memória coletiva é marca de uma sociedade histórica” (Ribeiro, 2005) (14).
Túmulo de Pedro Gonçalves da Silva, Intendente de Itabapoana durante a primeira emancipação do município, em 1890. Cemitério de Bom Jesus. Foto: Claudia Bastos do Carmo, 2016,
  
Século XXI: passado, presente e futuro

    Nossos cemitérios guardam memórias e histórias que podem ser lidas pelas gerações presentes e futuras sobre o tempo passado.
    O enterro do Padre João Mendes Ribeiro pode ser considerado uma expressão de como os cemitérios refletem seu tempo histórico: atuando na paróquia de Santo Antonio do Itabapoana nas décadas de 1860 e 1870, por ser negro, não foi enterrado no cemitério local, mas sim em área de mato próxima ao cemitério. No ano de 2007, a população procedeu um desagravo ao ocorrido, e os restos mortais do Padre foram trasladados para a Capela de Santo Antonio, em Calheiros (15).
Antigo Túmulo do Padre João Mendes. Calheiros.
Foto: Jornal O Norte Fluminense, 2007.

      Podemos agregar que o próprio cemitério como um todo pode ser lido como uma página de seu tempo, como atesta hoje o Cemitério do Tardin. O ambiente é carregado de lembranças e objetos de uma época em que se despontava a imigração europeia na região, a população vivia majoritariamente no ambiente rural e a mão-de-obra do trabalho no campo era predominantemente escrava. Após décadas sem receber novas sepulturas, o cemitério foi reativado em 1994, em virtude do falecimento do nonagenário Mario Nunes, de 94 anos, a fim de ser  enterrado ao lado de seus pais (16). No local há todo um conjunto de imagens que nos remete à memória de um passado hoje presente em seu duradouro muro de pedra e inscrições tumulares envolvidas em bucólica vegetação.
Lápide registra sepultamento em março de 1895: Francisca Ângel Luísa, nascida em 21/02/1851 e falecida em 16/03/1895. Tributo de seu marido Afonso Ponce de Leão. Imagem e texto: Blog O Norte Fluminense, 2015 (17). Cemitério do Tardin.

   Em Bom Jesus, enquanto os resquícios dos cemitérios antigos do Alto de Santa Rita e do Monte Calvário encontram-se imersos sob a terra, os demais ainda apresentam seus testemunhos materiais visíveis, embora muitos túmulos e artes funerárias estejam em franco processo de apagamento de memória.
 
Registros em processo de apagamento: Antonia (?) e Joa(?) H. (?), ambos falecidos em 1912. Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2025. 

Jesuína Gomes de Souza Azevedo, falecida em 1916. Foi integrante das primeiras gerações que se estabeleceram em Bom Jesus em meados do século XIX, tendo sido mãe da escritora Amelia Gomes de Azevedo. Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2025. .


   Experiências de cemitérios como espaço museal têm se desenvolvido ao longo do mundo, tornando-os testemunhos vivenciados de tempos que não são apenas passado, mas também presente e futuro. Muitos deles se transformam em pontos turísticos de suas localidades, havendo inclusive visitas guiadas que ajudam os visitantes a conhecerem melhor aspectos da história local e regional de onde se situam (14).

Em 2023, durante a reforma da Capela de Nossa Senhora do Rosário, foi recolocada em seu lugar de origem a pedra tumular que outrora guardava os restos mortais do Padre Mello antes de sua transferência para a Igreja Matriz (12). Foto: Paula Bastos, 2025.

     
   Por fim, é de destacar a relevância de se considerar os cemitérios como registros importantes que se somam a documentos e imagens que iluminam nossas memórias sobre tempos e pessoas que aqui viveram e permanecerão para sempre.

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* E que Irmandades seriam essas? No final do século XIX, Padre Mello faz menção à existência de uma Irmandade do Santíssimo Sacramento e no século XX, indica Antonio Borges (12), as Associações Religiosas muito presentes em atividades na Capela do Rosário foram “os Vicentinos, os Liguistas e o Apostolado da Oração, este responsável por uma reforma da Capela [do Rosário] pelos idos dos anos 30”.

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Referências

(1) Monitor Campista, Campos dos Goytacazes, 19.04.1887.
(2) Ata da Sessão da Câmara de São José do Avaí, 03.09.1889. 
(3) Ata da Sessão da Câmara de São José do Avaí,10.1889.
(4) BASTOS, LUCIANO AUGUSTO. De Município a Distrito: Primeira Emancipação de Bom Jesus do Itabapoana (1890-1892). Coleção Histórias de Bom Jesus v.1: Bom Jesus do Itabapoana, 2008. 115p.
(5) COUTO, ROMEU. “Primavera do poeta” e mais 89 crônicas de Romeu Couto. Editadas por Delton de Mattos, Rio de Janeiro: Textus, 2004.
(6) PADRE MELLO. O Cemiterio Velho. In: Jornal A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22 nov 1930.
(7) BASTOS, LUCIANO AUGUSTO. Bom Jesus do Itabapoana nas folhas do Itabapoana em 1907: o primeiro jornal. Coleção Histórias de Bom Jesus, v. 3: Bom Jesus do Itabapoana, 2010.  300p.
(8) CARMO, Claudia M. Borges Bastos do. Padre João Mendes Ribeiro à luz de documentos históricos. Disponível em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2020/11/padre-joao-mendes-ribeiro-luz-de.html Acesso 04/04/2025.
(9) CARVALHO JUNIOR. O Cemiterio Velho. In: Jornal A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 01/11/1930.
(10) CEMITÉRIOS. A Voz do PovoBom Jesus do Itabapoana, n.411, 28/02/1942.
(11) CEMITÉRIOS. A Voz do PovoBom Jesus do Itabapoana, n.416, 04/04/1942.
(12) BORGES, Antonio Soares. A devoção a Nossa Senhora do Rosário em Bom Jesus. Disponível em: https://tonioborges.blogspot.com/2025/03/a-devocao-nossa-senhora-do-rosario-em.html?view=classic Acesso 01/04/2025.
(13) O Norte, Bom Jesus do Itabapoana, n.25, 01/11/1928.
(14) PAES, Sylvia. Oculta Exuberância: cemitérios como museus. Campos dos Goytacazes: Alves Coordenação Editorial & Assessoria Digital, 2022. Capítulo: Arte Funerária - Patrimônio, Memória e Educação Patrimonial, p. 172-189.
(15) PE. JOÃO Mendes Ribeiro, o Padre Negro. Jornal O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 06 jul 2007. Reprodução digital em: A maldição e os Milagres do Padre Negro, publicado em 13/11/2014. Disponível em:  http://onortefluminense.blogspot.com.br/2014/11/a-maldicao-e-os-milagres-do-padre-negro.html Acesso 04/04/2025.
(16) CEMITÉRIO de escravos na Serra do Tardin: um patrimônio histórico de Bom Jesus do Itabapoana. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2012/10/cemiterio-de-escravos-na-serra-do.html  Acesso 04/04/2025.
(17) A MAGIA da Serra do Tardin. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2015/12/a-magia-da-serra-dos-tardin.html Acesso 04/04/2025.