quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Cemitérios em Bom Jesus


Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Claudia B.B. do Carmo, 2016.


Claudia Martins Borges Bastos do Carmo
Paula Aparecida Martins Borges Bastos
(atualizado em 04/04/2025)

     A forma como se cultua e reverencia os mortos reflete os aspectos culturais de um povo. Os rituais dos puris e coroados, habitantes comuns nas paragens do Vale do Itabapoana em séculos passados, seguiam hábitos e costumes distintos daqueles que foram instalados na região pelos colonizadores que aqui chegaram no século XIX. Com estes últimos se deu início ao ritual de sepultamento dentro ou próximo de capelas e igrejas, sendo posteriormente esse hábito sido substituído pelo enterro em cemitérios.

Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos, 2025.


Período Imperial

    Os primeiros habitantes do povoamento de Bom Jesus foram sepultados junto à Capela de Santa Rita, construída em 1853, no denominado Alto de Santa Rita (atual Praça Amaral Peixoto).


Alto de Santa Rita (seta amarela): local onde os primeiros habitantes de Bom Jesus foram sepultados.

















   Em 1887, temos notícias de que o inspetor de cemitério da Freguesia do Senhor Bom Jesus do Itabapoana encaminhava a Campos a contabilização dos enterros feitos no local, relatório encaminhado trimestralmente (1).
    Em 1889, deu-se a demissão do inspetor do cemitério que estava atuando na Freguesia. O motivo, indica a ata da Câmara de São José do Avaí (atual Itaperuna) seria por este “não residir na freguesia e sim, há mais de 20 Km de distância, exercendo o emprego de estafeto daquela linha”. Para o cargo foi nomeado “Herculano Rodrigues de Souza, morador dentro da freguesia, onde já ocupou esse cargo, nomeado pela Câmara de Campos” (2) (3).

   Para inspetor do cemitério de Sant’Anna do Itabapoana (atual distrito de Rosal) foi nomeado, no mesmo ano de 1889, Venâncio C. Cunha (2).

Período Republicano

  Na última década do século XIX, quando deu-se a primeira emancipação de Bom Jesus (1890-1892), constam nas atas da Intendência, segundo Luciano Augusto Bastos, a existência de quatro cemitérios no então 1º Distrito: um público (localizado no povoado, atual Bom Jesus) e três particulares (localizados nos atuais Carabuçu, Pirapetinga e Serra do Tardin) (4). A ausência de menção ao cemitério de Sant'Anna se explica por não ter este ficado, naquele período, em terras do efêmero município de Itabapoana.

Os cemitérios e seus inspetores

    O Cemitério Público do povoado estava localizado em Bom Jesus, tendo por Inspetor, em 1890, o Sr. Antonio José dos Santos Lisboa, que, ao assumir o cargo, prestou juramento ante a municipalidade. Em 1892 o cargo de Inspetor passou a ser ocupado pelo sr Rodozino Rodrigues da Silva (4).
  Em Carabuçu, o cemitério particular São João Batista, estava localizado na Serra da Liberdade, na fazenda pertencente aos herdeiros do então falecido Jacob Furtado Mendonça. Nos anos de 1890 e 1891, foram Inspetores do Cemitério o sr. João Climaco Barroso e o sr. Antonio Vicente Pereira, respectivamente (4).
  Em Pirapetinga, o cemitério particular estava localizado na Fazenda do sr. João Pedro Lemgruber, sendo este o próprio Inspetor do cemitério (4).
    Na Serra do Tardin, o cemitério particular tinha por Inspetor o sr. Francisco Tardin (4).

                     
Antigo Cemitério na Serra do Tardin. Foto: Blog Jornal O Norte Fluminense, 2016

Antigo Cemitério na Serra do Tardin. Muro de Pedras construído com mão de obra escrava.
Foto: Blog Jornal O Norte Fluminense, 2016

     O 2º Distrito da época da Primeira Intendência, Santo Antonio do Itabapoana (atual Calheiros), possuía cemitério com inspetor específico para o local (4).

Bom Jesus do Itabapoana: o urbano pede espaço

    Em Bom Jesus do Itabapoana sede, a localização de seu cemitério sofreu alterações em virtude da expansão crescente da área urbana do antigo povoado. Dessa forma, há notícias de que os enterramentos ocorreram em três lugares distintos, em épocas diferentes:
1 - Cemitério no Alto de Santa Rita (região da atual Praça Amaral Peixoto)
2 - Cemitério no Monte Calvário (inicialmente conhecido como cemitério novo em oposição ao do Alto de Santa Rita, após a construção do novo e atual cemitério, passou a ser conhecido como “Cemitério Velho”)
3 - Cemitério Novo (Cemitério atual)

Os primeiros cemitérios de Bom Jesus, no Alto de Santa Rita e no Monte Calvário não existem mais. Nesse vídeo, de 2025, é possível ver imagens atuais do local onde se situou o cemitério do Alto de Santa Rita, na região da Praça Amaral Peixoto, e visão do Morro do Calvário, cuja Capela situada em seu topo aparece no final, dando uma ideia aproximada da localização do segundo Cemitério erigido em Bom Jesus.


    A localização do primeiro cemitério que se tem notícia, em Bom Jesus do Itabapoana sede, foi no Alto de Santa Rita. Quem nos dá informação desse cemitério é Romeu Couto, em crônica intitulada "O cemitério no Alto de Santa Rita", publicada originalmente no jornal A Voz do Povo (5):
     O Alto de Santa Rita, por exemplo, já foi um silencioso e melancólico cemitério. O seu terreno, agora, profanado por nossos pés pecadores, já serviu de abrigo a centenas de corpos sem vida. Ainda hoje, quem se der ao trabalho de revolver algumas camadas de terras daquele local, poderá inteirar-se de sua santa utilidade em tempos idos. Tíbias, crânios e costelas encontradas em tais pesquisas, constituirão testemunho desta minha afirmativa.

     Nesse cemitério existiam dois gigantescos eucaliptos, tendo sido um cortado a golpes de machado, enquanto outro ainda deslumbrava por seu porte quem por ali passava na década de 1930 (5).

     Quando terá sido desativado esse cemitério não podemos afirmar, mas segundo Padre Mello, em 1891 já existia um cemitério no Monte Calvário, estando este, no ano de 1899, um verdadeiro "capoeirão". Mediante tal situação de abandono, relata o Padre ter assumido para a Paróquia a responsabilidade e cuidado pelo cemitério, com apoio de várias pessoas da comunidade (6).

O morro do Calvário já abrigou um Cemitério no final do século XIX, tendo sido completamente desativado no final da primeira metade do século XX. Placa indicativa da subida para ao Monte Monte Calvário. Foto: Paula Bastos, 2025.

   O cuidado e manutenção da área do Monte Calvário parece ter continuado a ser um problema em  1907, quando em época de carnaval, o jornal Itabapoana, em tom de troça, apresentou o seguinte "folião" (7):
      Um misérrimo esqueleto n'uma grotesca fantasia de capim-gordura e erva de Santa-Maria, vem nos pedir que reclamemos dos poderes competentes para o estado em que ele se acha, sem ter quem olhe para a sua vergonha.
           Reconhecemos no folião o Cemitério Novo.

    O desprezo do poder público e da população para com o cemitério existente em Bom Jesus levou Padre Mello a desabafar em uma carta a outro padre, após o Dia de Finados, no ano de 1916, sua indignação frente a essa falta de consideração local para com os restos mortais de seus antecessores (8).
     
     Em 1930 já havia um outro "Cemitério Novo" (o atual cemitério de Bom Jesus), em oposição ao ainda existente "Cemitério Velho" (no Monte Calvário), gerando algumas críticas e desagrado com a situação de abandono deste último, como podemos observar em artigo assinado por Carvalho Junior, no jornal A Voz do Povo (9):

       O cemitério velho é triste no seu abandono. É um cemitério que se aposenta; seu terreno sagrado, dentro em breve, tornar-se-á área construtiva. Em um futuro bem próximo, ali teremos novas praças com seus jardins, e ruas com casas a grimpar pelas encostas do Monte Calvario. Por sobre os túmulos dos que ali repousam, pisarão animais, rolarão veículos e passarão transeuntes na indiferença egoística de sua felicidade. É uma ironia bem triste à paz da morte e ao sono calmo da tumba!

Início da subida para o Morro do Calvário. Como previsto no século passado, o local está totalmente integrado à vida urbana, com suas múltiplas ruas e casas. Foto: Paula Bastos, 2025.


      Em 1935 os dois cemitérios, velho e novo, ainda coexistiam, como podemos depreender no já citado artigo de Romeu Couto, em que aponta as diferenças entre o cemitério "de cá" e o "de lá" (5):

        E no dia da festa, dos que deixaram de viver, no dia de finados? A necrópole de cá é toda movimento. As flores, onde se encontra, até aí, a diferença da sorte, deixam um ar impregnado de um odor cheio de doce tristeza, tristeza essa mais comovente por causa da luz cadavérica desprendida das mil-e-uma velas piedosamente acesas. A gente, enlevado, ouve até o cantochão. Lá, não há festa. Os poucos moradores não se dão ao luxo de tal solenidade. É por isso tudo que os defuntos gostam mais de morar do lado de cá. Aqui há conforto, visitas e outras cousas que constituem a felicidade do homem morto.

    Padre Mello possuía um projeto de urbanização para o Monte Calvário, que só podia se concretizar com o encerramento definitivo do Cemitério ali instalado. Apesar de não estar havendo mais enterramentos no local, os túmulos antigos ainda persistiam e possivelmente alguns mortos ainda continuavam a ser pranteados por seus parentes e amigos, em especial no Dia dos Defuntos, como era chamado o que hoje denominamos Dia de Finados. Em respeito aos mortos e seus familiares, surgiu a proposta de levar os restos mortais e seus respectivos objetos funerários do Cemitério Velho para o Novo.  
      Esse planejamento envolvia uma remodelação do Cemitério Novo, de forma que Padre Mello elaborou um projeto que, em 1936, foi apresentado à Prefeitura de Itaperuna pelo vereador Coronel João Soares, concernente a melhorias na frente do cemitério do então distrito de Bom Jesus do Itabapoana. (10)
Gradil de ferro trabalhado nos portões da entrada lateral do Cemitério. O projeto proposto da década de 1930 e efetivado na década de 1940, previa melhorias na fachada de frente do Cemitério. A entrada do Cemitério se dava por onde se conhece hoje como entrada lateral. Foto: Paula Bastos, 2025.
 
     
Uma capela de velas se situa na rua interna que se dirige à entrada lateral do Cemitério.Foto: Paula Bastos, 2025

     Para a efetivação desse projeto, havia a necessidade de se dividir o novo cemitério em dois, o Municipal e o das Irmandades*, o que provavelmente ocorreu em fins da década de 1930, pois Padre Mello relata, em 1942, que essa divisão existia “desde há alguns anos”, e que o Livro para lançamento de termo de mausoléu ou campa havia sido “iniciado há dois anos mais ou menos” (11).

      O terreno do cemitério das Irmandades se encontrava “em frente e aos lados da Capela separado do outro [o Municipal] por uma linha transversal que passa pelos fundos da mesma Capela” (11). A definição dessa linha foi decorrência de um acordo com a Prefeitura, separando “a área das Irmandades do terreno cedido ultimamente pela Egreja Paroquial à Prefeitura em troca dos elegantes trabalhos da frente ora terminados ou a terminar” (10).
Toda a área do Cemitério em frente à Capela e em suas laterais foi reservada para o Cemitério das Irmadandes, cuja linha divisória com o Cemitério Municipal passava pelos fundos da Capela. Foto: Paula Bastos, 2015

    O cemitério da Irmandade, explica Padre Mello “Destina-se ao enterramento das pessoas que pertençam a alguma Associação religiosa ou que não pertencendo mas sendo católicas prefiram o referido cemitério mediante contrato. É como se usa em todos os cemitérios de Irmandades”(11). Para não haver dúvidas, ressalta que

como nenhuma Associação religiosa é proprietária do cemitério, tendo apenas o direito de nele serem sepultados os seus membros, torna-se por isso mesmo proprietária a Paroquia, a quem cabe o direito de contratar sepulturas perpétuas ou ad tempus, acompanhando a tabela da Prefeitura a quem, por sua vez pertencem os direitos do enterramento, como já ficou dito” (10). 

    Em 1942 parece ter sido efetivamente consumada a obra de entrada do cemitério, já sob a administração de uma Bom Jesus do Itabapoana emancipada. Nessa época, o planejamento de construção de ruas e casas no Monte do Calvário, que vinha sendo aventado por Padre Mello desde a década anterior, começava a se apresentar como uma ação iminente. Para concretizar efetivamente tal projeto, os túmulos e demais relíquias ainda existentes no Cemitério Velho precisavam ter um destino adequado. Dessa forma, Padre Mello determinou um prazo no primeiro semestre de 1942 para que as famílias manifestassem interesse em transferir esse material funerário para o Cemitério da Irmandade, no alto da colina do Cemitério Novo (10) (11).

Capela Nossa Senhora do Rosário

     A Capela a que Padre Mello se refere como dividindo por seus  fundos o Cemitério Municipal do das Irmandades é a mesma que persiste no local até os dias atuais, a de Nossa Senhora do Rosário, e notícias de missas fúnebres aí celebradas no Dia de Finados demonstram que se encontra ereta desde a década de 1920 (12) (13).  Construída “soberana e altiva no alto do monte e de frente para a Matriz”, sua construção não estava voltada para a entrada do cemitério, mas sim para visão do centro de Bom Jesus e sua Igreja Matriz (12). 
A Capela Nossa Senhora do Rosário, situada no alto da colina do Cemitério, foi reformada em 2023. Muitas vezes era chamada simplesmente de "Capela do Rosário", em jornais antigos do início do século XX. Foto: Paula Bastos, 2025.

         A entrada do cemitério se fazia no início do século XX pela entrada a que se tinha acesso pela chamada rua das “Bellas Flores” (atual rua João Ribeiro) (12). O acesso permanece nos dias atuais, porém passou a ser considerada uma entrada lateral.

Rua interna do Cemitério pela entrada lateral, com acesso pela rua João Ribeiro. Foto: Paula Bastos, 2025. 
     
      A entrada principal que conhecemos nos dias de hoje tem por acesso a rua da Igualdade, aberta e inaugurada nos anos 1960, e vai dar de frente com a entrada da Capela (12).

Da entrada do Cemitério, ao final da rua da Igualdade, aberta na década de 1960, é possível vislumbrar o centro de Bom Jesus do Itabapoana, os fundos da Igreja Matriz e suas torres, bem como alguns dos morros que bordeiam a cidade. Foto: Paula Bastos, 2025.

      
 Arte fúnerária

     É possível conceituar a arte funerária como sendo "uma forma de representação da cosmovisão vivenciada e interpretada através da arte, marcando determinados momentos históricos, ideológicos, econômicos e socioculturais em um determinado tempo histórico" (14). 
   Através do estudo da arte funerária, "podem-se acompanhar as transformações acontecidas através de um tempo histórico em uma determinada sociedade" (14).

Arte funerária. Cemitério de Bom Jesus. Foto: Paula Bastos, 2025

Arte funerária. Cemitério de Bom Jesus. Foto: Paula Bastos, 2025

   

A Pietá (representação de Maria recebendo Jesus deposto da Cruz) é um modelo escultórico muito presente nos Cemitérios a partir da virada do século XIX para o XX (14). Cemitério de Bom Jesus. Foto: Paula Bastos, 2025.

     Dessa forma, um estudo mais detalhado sobre a arte funerária nos cemitérios do município de Bom Jesus do Itabapoana talvez pudesse vir a contribuir para uma melhor compreensão de aspectos culturais de nossa população ao longo dos últimos séculos. Uma ressalva talvez seja necessária para o cemitério da sede, que foi transferido de local duas vezes, do Alto de Santa Rita passando pelo Morro do Calvário e se fixando depois, no século XX, na atual colina onde permanece até hoje. Com isso, muitos dos artefatos funerários do século XIX possivelmente se perderam, tornando-se nos tempos atuais possíveis objetos arqueológicos a espera de pesquisas mais apuradas.

    Os artefatos funerários podem, inclusive, nos ajudar a contar um pouco mais da história local de tempos idos, pois ao se inscreverem sobre o sepulcro informações sobre o corpo morto, é possível ver, junto com o conjunto da arte funerária em geral, sobre cada túmulo “um memorial e um documento, cujos traços de escrita de uma memória coletiva é marca de uma sociedade histórica” (Ribeiro, 2005) (14).
Túmulo de Pedro Gonçalves da Silva, Intendente de Itabapoana durante a primeira emancipação do município, em 1890. Cemitério de Bom Jesus. Foto: Claudia Bastos do Carmo, 2016,
  
Século XXI: passado, presente e futuro

    Nossos cemitérios guardam memórias e histórias que podem ser lidas pelas gerações presentes e futuras sobre o tempo passado.
    O enterro do Padre João Mendes Ribeiro pode ser considerado uma expressão de como os cemitérios refletem seu tempo histórico: atuando na paróquia de Santo Antonio do Itabapoana nas décadas de 1860 e 1870, por ser negro, não foi enterrado no cemitério local, mas sim em área de mato próxima ao cemitério. No ano de 2007, a população procedeu um desagravo ao ocorrido, e os restos mortais do Padre foram trasladados para a Capela de Santo Antonio, em Calheiros (15).
Antigo Túmulo do Padre João Mendes. Calheiros.
Foto: Jornal O Norte Fluminense, 2007.

      Podemos agregar que o próprio cemitério como um todo pode ser lido como uma página de seu tempo, como atesta hoje o Cemitério do Tardin. O ambiente é carregado de lembranças e objetos de uma época em que se despontava a imigração europeia na região, a população vivia majoritariamente no ambiente rural e a mão-de-obra do trabalho no campo era predominantemente escrava. Após décadas sem receber novas sepulturas, o cemitério foi reativado em 1994, em virtude do falecimento do nonagenário Mario Nunes, de 94 anos, a fim de ser  enterrado ao lado de seus pais (16). No local há todo um conjunto de imagens que nos remete à memória de um passado hoje presente em seu duradouro muro de pedra e inscrições tumulares envolvidas em bucólica vegetação.
Lápide registra sepultamento em março de 1895: Francisca Ângel Luísa, nascida em 21/02/1851 e falecida em 16/03/1895. Tributo de seu marido Afonso Ponce de Leão. Imagem e texto: Blog O Norte Fluminense, 2015 (17). Cemitério do Tardin.

   Em Bom Jesus, enquanto os resquícios dos cemitérios antigos do Alto de Santa Rita e do Monte Calvário encontram-se imersos sob a terra, os demais ainda apresentam seus testemunhos materiais visíveis, embora muitos túmulos e artes funerárias estejam em franco processo de apagamento de memória.
 
Registros em processo de apagamento: Antonia (?) e Joa(?) H. (?), ambos falecidos em 1912. Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2025. 

Jesuína Gomes de Souza Azevedo, falecida em 1916. Foi integrante das primeiras gerações que se estabeleceram em Bom Jesus em meados do século XIX, tendo sido mãe da escritora Amelia Gomes de Azevedo. Cemitério de Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2025. .


   Experiências de cemitérios como espaço museal têm se desenvolvido ao longo do mundo, tornando-os testemunhos vivenciados de tempos que não são apenas passado, mas também presente e futuro. Muitos deles se transformam em pontos turísticos de suas localidades, havendo inclusive visitas guiadas que ajudam os visitantes a conhecerem melhor aspectos da história local e regional de onde se situam (14).

Em 2023, durante a reforma da Capela de Nossa Senhora do Rosário, foi recolocada em seu lugar de origem a pedra tumular que outrora guardava os restos mortais do Padre Mello antes de sua transferência para a Igreja Matriz (12). Foto: Paula Bastos, 2025.

     
   Por fim, é de destacar a relevância de se considerar os cemitérios como registros importantes que se somam a documentos e imagens que iluminam nossas memórias sobre tempos e pessoas que aqui viveram e permanecerão para sempre.

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* E que Irmandades seriam essas? No final do século XIX, Padre Mello faz menção à existência de uma Irmandade do Santíssimo Sacramento e no século XX, indica Antonio Borges (12), as Associações Religiosas muito presentes em atividades na Capela do Rosário foram “os Vicentinos, os Liguistas e o Apostolado da Oração, este responsável por uma reforma da Capela [do Rosário] pelos idos dos anos 30”.

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Referências

(1) Monitor Campista, Campos dos Goytacazes, 19.04.1887.
(2) Ata da Sessão da Câmara de São José do Avaí, 03.09.1889. 
(3) Ata da Sessão da Câmara de São José do Avaí,10.1889.
(4) BASTOS, LUCIANO AUGUSTO. De Município a Distrito: Primeira Emancipação de Bom Jesus do Itabapoana (1890-1892). Coleção Histórias de Bom Jesus v.1: Bom Jesus do Itabapoana, 2008. 115p.
(5) COUTO, ROMEU. “Primavera do poeta” e mais 89 crônicas de Romeu Couto. Editadas por Delton de Mattos, Rio de Janeiro: Textus, 2004.
(6) PADRE MELLO. O Cemiterio Velho. In: Jornal A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 22 nov 1930.
(7) BASTOS, LUCIANO AUGUSTO. Bom Jesus do Itabapoana nas folhas do Itabapoana em 1907: o primeiro jornal. Coleção Histórias de Bom Jesus, v. 3: Bom Jesus do Itabapoana, 2010.  300p.
(8) CARMO, Claudia M. Borges Bastos do. Padre João Mendes Ribeiro à luz de documentos históricos. Disponível em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2020/11/padre-joao-mendes-ribeiro-luz-de.html Acesso 04/04/2025.
(9) CARVALHO JUNIOR. O Cemiterio Velho. In: Jornal A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, 01/11/1930.
(10) CEMITÉRIOS. A Voz do PovoBom Jesus do Itabapoana, n.411, 28/02/1942.
(11) CEMITÉRIOS. A Voz do PovoBom Jesus do Itabapoana, n.416, 04/04/1942.
(12) BORGES, Antonio Soares. A devoção a Nossa Senhora do Rosário em Bom Jesus. Disponível em: https://tonioborges.blogspot.com/2025/03/a-devocao-nossa-senhora-do-rosario-em.html?view=classic Acesso 01/04/2025.
(13) O Norte, Bom Jesus do Itabapoana, n.25, 01/11/1928.
(14) PAES, Sylvia. Oculta Exuberância: cemitérios como museus. Campos dos Goytacazes: Alves Coordenação Editorial & Assessoria Digital, 2022. Capítulo: Arte Funerária - Patrimônio, Memória e Educação Patrimonial, p. 172-189.
(15) PE. JOÃO Mendes Ribeiro, o Padre Negro. Jornal O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, 06 jul 2007. Reprodução digital em: A maldição e os Milagres do Padre Negro, publicado em 13/11/2014. Disponível em:  http://onortefluminense.blogspot.com.br/2014/11/a-maldicao-e-os-milagres-do-padre-negro.html Acesso 04/04/2025.
(16) CEMITÉRIO de escravos na Serra do Tardin: um patrimônio histórico de Bom Jesus do Itabapoana. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2012/10/cemiterio-de-escravos-na-serra-do.html  Acesso 04/04/2025.
(17) A MAGIA da Serra do Tardin. Disponível em: https://onortefluminense.blogspot.com/2015/12/a-magia-da-serra-dos-tardin.html Acesso 04/04/2025.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Irmãs pianistas fazem Recital no ECLB


Ana Luiza Xavier

Eliza Xavier

O Espaço Cultural Luciano Bastos promoveu, na sexta-feira (28), o Recital de Piano com as irmãs e pianistas Ana Luiza Xavier e Eliza Xavier. O evento aconteceu no Auditório do ECLB.

O recital contou com a participação especial da Professora e Diretora da Escola de Música Cristo Rei, Marise Xavier, avó das jovens pianistas, e de Rômulo Setenareski Lopes.

A apresentação trouxe grandes clássicos, incluindo obras de Carlos Gomes, Zequinha de Abreu, Bach, Chopin, Mozart e Beethoven.

Eliza e Ana Luiza começaram seus estudos de piano ainda pequenas, aos quatro anos de idade, com a avó Marise Figueiredo Xavier, sempre participando de audições musicais promovidas pela Escola de Música Cristo Rei.


Marise Figueiredo Xavier

Rômulo Setenareski Lopes








A Liberdade é Azul: Cinema no ECLB



Estreou no dia 27/10, no ECLB, o I Ciclo de Exibições e Discussões Cineclube Debates - Espaço Cultural Luciano Bastos (I CEDCEC), com a apresentação do primeiro filme da Trilogia das Cores, de Krzvstof Kieslowski, "A Liberdade é Azul".

Após a exibição, o público presente compartilhou vivamente suas impressões e reflexões sobre o filme, permitindo a todos perceberem a riqueza e diversidade das abordagens que um clássico cinematográfico pode proporcionar. Aspectos filosóficos, históricos e comportamentais foram alguns dos temas destacados pelos participantes.

O debate foi mediado pelo professor de filosofia do IFFluminense, Rafael Tardin, que destacou no filme a possibilidade de "olhares sobre a liberdade e suas implicações em meio a vida humana". 

Confiram abaixo a íntegra do texto "Um olhar com cuidado sobre 'A Liberdade é Azul', de Kieslowski", de Rafael Tardin. 
                          





Um olhar com cuidado sobre "A Liberdade é Azul" de Kieslowski.

Rafael Tardin*

Enquanto proposta, o I Ciclo de Exibições e Discussões Cineclube Debates – Espaço Cultural busca promover um contato mais íntimo entre imagem e pensamento, cinema e reflexão, onde pessoas possam compartilhar de suas apreensões, ideias e emoções num ambiente livre e democrático.
O cinema então se apresenta como um pretexto para o encontro de olhares apurados sobre as entrelinhas da existência, no caso do primeiro filme exibido (“A Liberdade é Azul”) no I CEDCEC, olhares sobre a liberdade e suas implicações em meio a vida humana.

A premissa ou ponto de partida do filme é uma perda que implica à Julie uma liberdade forçada. Sem sua família, ela se vê desprovida de laços que, ao mesmo tempo que cativam sua existência, delimitam suas ações sempre numa direção de abandono de si em detrimento do compartilhamento do tempo livre com os mesmos. Ela se depara com um tempo livre que converge em tempo para si. Tempo esse de liberdade e, na mesma medida, de solidão. Nesse sentido, uma constatação emerge desse paradoxo: diante da perda há sempre um ganho. 

Não se trata de um ganho desejado, mas de um ganho imprevisível e incontrolável, que brota de dentro de cada evento ou fato compartilhado por nós em nossa existência, que parece efêmera e poderosa na película de Kieslowski. Desprovida do contato com seu marido e sua filha, Julie tem seus laços rompidos. Laços esses que sobrevivem em sua memória que teima em arrastá-la para uma dor profunda, prova de humanidade máxima, que é o sentimento de ausência. Perda essa irreparável, incontrolável, irreversível. Sua humanidade lhe trai. Diante da mesma, desaba e tenta acabar com o jogo. 

O fracasso de seu suicídio condiciona sua existência para uma situação além: incapaz de se matar, Julie (sobre)vive no embate constante de (re)significar sua relação com as pessoas, com a vida e com as coisas. Mesmo não procurando um novo sentido para sua existência, Julie se encontra a mercê da busca. Há como viver desprovido de qualquer laço?

Naquela condição, Julie percebe que as adversidades e os infortúnios da vida acabam ganhando tons irônicos. Em dias normais, ficar presa fora de sua casa ou apartamento numa noite fria poderia ser motivo de transtorno, raiva ou desespero. No entanto, após se deparar com o maior dos infortúnios, qualquer perda não impacta tanto assim. Cada nova adversidade é uma experiência inédita, pois é isso que ela constata no dia seguinte após sobreviver ao acidente: um novo dia, uma nova experiência. 

Não se trata de amar os infortúnios da vida, e sim de uma certa resiliência que de uma forma ou de outra é vida, é ganho. Até mesmo diante do infortúnio se ganha algo, pois não há como não ganhar: vida é transformação pura, nada se perde integralmente, tudo se transforma num fluxo de novos sentidos e significados.

A resiliência que se ganha é a tranquilidade do "deixar a vida bater (pelo menos naquele momento) pois não há o que fazer". Tranquilidade que é o render-se ao determinismo da vida sobre nós. Determinismo esse que se revela na falta de controle sobre as coisas que sempre nos escapam. Liberdade? Há liberdade diante das imensas possibilidades de eventos e fatos nos ocorrerem? Podemos controlar quando seremos felizes, tristes, ou quando coisas boas e ruins irão nos acontecer? Abdicar do controle sobre a vida é uma demonstração de resiliência que poucos conhecem. 

Quando abdicamos do controle nos libertamos do medo. Perdemos o medo da perda: o infortúnio não assusta tanto. A dor, as adversidades não nos machucam tanto. Nos tornamos resistentes à vida ao senti-la em sua máxima força nos momentos de perda. Quando algo nos é tirado, deparamos com o vazio natural que é ausência de sentido. 

A contribuição deixada para nós pelos eternos investigadores (filósofos) é que sempre estamos em busca de sentido. Não nos contentamos com sua ausência, pois é na presença de sentido que damos o passo inicial para construirmos as coisas que são importantes para nós.

Diante da perda há sempre um abalo, e nele um equívoco. Buscamos um parâmetro para o recomeço, que não é um novo início e sim continuidade. Lidar com os momentos de adversidade enquanto pontos de partida para novos ciclos é ignorar o seguinte fato: que faz parte de um mesmo ciclo os momentos de adversidade. Para a Filosofia, o sentido da crise não é a de apenas ruptura, mas sim de transição. Processo esse exemplificado na vida por meio do movimento incessante de destruição e construção de sentidos: estar vivo é se fazer presente na ausência de sentido, pois quando (se) tudo fizer (fizesse) sentido não haverá (haveria) mais necessidade de mover-se para além dele.

Não nos conformamos com aquilo que não tem sentido, logo que queremos sempre tornar seguro terrenos hostis que podem esconder os grandes mistérios da vida e do universo. Julie opta pelo desapego. Tenta, em vão, não construir laços, pois os vê como armadilhas, oportunidades para a dor entrar. Nesse processo, o desapego revela o valor material como mero detalhe. Revela que o valor da matéria não vem da matéria e sim de nós! O que se revela no desapego material não é a falsidade ou superficialidade que tais coisas representam e sim o processo pelo qual nós percebemos que o valor dado às mesmas vem de nós e não das coisas: uma laranja é fruta, mas para o garoto que anseia em jogar bola com os amiguinhos e não a tem (bola), laranja se torna bola. Afinal, o que é então a laranja? Fruta ou bola?

No desapego de Julie é possível perceber seu apego a certa esperança: a de que é possível viver sem ser triste. Novamente, não há como não ganhar nada. Em cada lágrima que derramamos ganhamos, na mesma medida, algo. Cabe a cada um de nós olhar com cuidado sobre as mesmas e lá, em algum lugar, encontrar aquilo que é só nosso. Um presente, um tesouro, um aprendizado. Mesmo que não se queira, há sempre um ganho na perda.

* Professor de Filosofia / Coordenador do Projeto de Extensão Cineclube Debates - Instituto Federal Fluminense




terça-feira, 25 de outubro de 2016

Alunos do C. E. Santa Rita de Cássia em visita ao ECLB



Alunos do primeiro ano do Centro Educacional Santa Rita de Cássia visitaram no dia 21/10/2016 o Espaço Cultural Luciano Bastos, acompanhados das Professoras Juliana Vaillant Fragoso, Lucia Helena Diniz Souza e Jaqueline de Oliveira Guimarães.


                                


                                   



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

D. Carmita, aluna, professora e diretora do Colégio Rio Branco


        
MARIA DO CARMO BAPTISTA DE OLIVEIRA – a D. CARMITA, um dos nomes mais importantes de Bom Jesus do Itabapoana na área da educação no século XX, iniciou os estudos no Colégio Rio Branco desde a sua fundação, em 1920, ali permanecendo até sua aposentadoria, em 1979, deixando um grande legado em nossa terra.
Na semana em que comemoramos o Dia do Professor, nossa homenagem e todo o nosso reconhecimento a uma vida dedicada ao ensino e ao Colégio Rio Branco.
Consta, no acervo do ECLB, uma concisa biografia, realizada em 1992, pelas alunas do 2º ano do Curso de Formação de Professores do Colégio Rio Branco, sob coordenação das Professoras Walesca Araújo Coelho e Keli Cristina Tardin dos Santos, que aqui trazemos para que se possa conhecer um pouco mais sobre ela.

  
Augusto Teixeira de Oliveira e Maria da Conceição Baptista de Oliveira, 
pais de D. Carmita, em fotografia pertencente à família

PROFª. MARIA DO CARMO BAPTISTA DE OLIVEIRA 
 D. Carmita

Nasce em 12/12/1908, no município de João Pessoa (ES). 
Seus pais: Augusto Teixeira de Oliveira e Maria da Conceição Baptista de Oliveira, de tradicional família bonjesuense.
Fundado o Colégio Rio Branco em 1920 pelo Prof. José Costa Jr., ela foi uma das primeiras alunas ali matriculadas. Em 1928, no mesmo Colégio, começou a lecionar ministrando aulas de História Geral e do Brasil.
Em 1939, convidada pelo sr. Olívio Bastos, Diretor Comercial do Rio Branco, assumiu a Direção Técnica do tradicional educandário, desenvolvendo uma atuação brilhantíssima que marcou época na história educacional bonjesuense.
D. Carmita – como era mais conhecida – fazia parte de uma família excepcional de educadores, todos, como ela, com seus estudos iniciados em 1920 no Colégio Rio Branco, como: Dr. Francisco Baptista de Oliveira (Dr. Chiquinho), Profª. Clarice Baptista de Oliveira Jesus, Profª. Maria José Baptista de Oliveira, Profª. Zilda Baptista de Oliveira Teixeira, Profª. Geny Baptista de Oliveira Silva.
Ao se afastar da Direção do Colégio Rio Branco, face sua aposentadoria, na década de 70, D. Carmita ainda dedicou alguns anos de sua preciosa existência ao Ensino oficial no Estado do Rio de Janeiro, lecionando no C.E. Padre Mello, quando era Secretário de Educação e Cultura do Estado o Prof. Dr. Delton de Mattos, seu ex-aluno.
Faleceu nesta cidade no dia 23/10/1980.



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A seguir, três ex-alunos do Rio Branco, o desembargador Ademir Paulo Pimentel, a Professora Therezinha Chalhoub de Oliveira e o desembargador Nivaldo Xavier Valinho, relembram a educadora.

Dr. Ademir Paulo Pimentel 
(04.10.1980, durante as comemorações do 60º aniversário de fundação do educandário)

"... e pude então voltar ao passado e me lembrar aquele dia em que meu pai levou-me ao 'Rio Branco' e disse: 'dona Carmita, de agora em diante o Ademir está entregue à senhora!'. Confesso que não me recordo a verdadeira reação, porque tomado daquele medo característico do adolescente, que de forma errada e distorcida, via em dona Carmita, ao contrário do que realmente era, a encarnação da violência. Se naquela época a olhava sob o clima de terror, hoje a reverencio como símbolo do amor, eis que a Deus, aos meus pais e a ela, devo o que sou, não desconhecendo outros que, em escala menor, constituiram-se em elementos construtores do meu caráter. Posso ter uma orelha um pouco mais esticada do que possuía antes de ingressar no 'Rio Branco'; posso não ter compreendido em tempo útil os castigos, as repreensões, os retornos à tarde para o estudo e até mesmo aqueles dias em que fiz dos gabinetes o 'refeitório' da não muito suculenta e agradável refeição. Mas uma coisa eu posso afirmar: sou homem, embora com as limitações naturais oriundas de minhas fraquezas humanas, porque fui criado com disciplina. E eu me recordo que naqueles tradicionais 'castigos', de uma frase não me esqueci: (também pudera! Eram mil vezes, quando não era possível o incômodo uso dos três ou dois lápis que facilitavam o serviço) 'a disciplina é o fator do progresso'. Alguns já levavam copiado de casa!

Nos sessenta anos do 'Rio Branco', não poderia, dona Carmita, silenciar-me. Quanto lhe devo! E quantos lhe devem um tributo imperecível de gratidão e que eu virtude das lutas da vida, nem sempre podemos demonstrar em atitudes o nosso sentimento! (...)

Portanto, dona Carmita, nos sessenta anos do 'Rio Branco', receba o nosso reconhecimento e nossa gratidão. Em meu nome e de milhares de outros, que espalhados pelo nosso Brasil, tiveram o seu caráter moldado pelo respeito, pela disciplina.
Obrigado, dona Carmita!"


Profª. Therezinha Chalhoub de Oliveira
(13.11.1987, na inauguração de seu retrato como patrono do CIEP D. Carmita)
"Sinto-me deveras honrada e feliz por ter sido aluna de D. Carmita. Com que gosto e entusiasmo discorria sobre fatos e datas de nossa História; sobre as notáveis e grandes civilizações narradas e descritas à luz da História geral; sobre a organização política e social do Brasil. Nas lições punha ordem e objetividade para nos ver logo adiante alcançar o domínio da matéria; era exigente quanto ao comportamento em salas de aula ou no pátio, certa de que o domínio das boas maneiras fortalece e purifica o temperamento."

Dr. Nivaldo Xavier Valinho 
(17.11.1995, nas comemorações do 75º aniversário de fundação do educandário)
"Nesta noite, meus amigos é preciso que voltemos no tempo 75 anos atrás; imaginemos uma Bom Jesus daquela época: um punhado de casas; um pequeno grupo populacional; uma pequena comunidade sequiosa de independência, de maioridade e, convenhamos, só o talento e a coragem de uns poucos visionários, poderiam ensejar à nossa terra tão grande incentivo à cultura, às letras e à educação; a fundação de uma Escola que viria marcar indelevelmente as gerações futuras de Bom Jesus.(...)

Mas, a História do Colégio Rio Branco não se dissocia da História de Bom Jesus: os mesmos momentos de ousadia; iguais tormentos de crises, mas sem esmorecimentos porque amparados um e outro no que esta terra possui de mais singular, ante os demais rincões brasileiros: a força de sua comunidade. Bom Jesus possui esta virtude ímpar, que atravessa os tempos; seu povo sempre soube quando unir-se sob uma mesma bandeira, quando mais alto se descortina o interesse de todos.

Deparando intransponíveis exigências do MEC nas altas taxas para os educandários reconhecidos, o Rio Branco soçobrava, perdendo sua oficialização, mas logo encontrou amparo na sobrevida quando uma JUNTA INTERVENTORA, constituída pelos valorosos homens da comunidade, OLIVIO BASTOS, JOSÉ DE OLIVEIRA BORGES (então Prefeito) e JOSÉ MANSUR, passou a administrá-lo, restabelecendo sua oficialização e garantindo sua continuidade, sempre mantida a qualidade de seu ensino.

Iniciou-se aí uma administração duradoura, comandada por OLIVIO BASTOS, e a era de uma Diretora que marcou a vida estudantil de gerações de bonjesuenses: MARIA DO CARMO BAPTISTA DE OLIVEIRA – a D. CARMITA. Tinham tudo para fracassar numa convivência profissional: ele, quase um lord; um inglês por formação, dada sua convivência com os construtores da estrada de ferro: discreto, paciente, mas indomável; D. CARMITA, toda ímpeto, dedicação integral e diuturna ao Colégio; disciplinadora inflexível.

Essa convivência, entretanto, varou décadas. “Seu Olívio” passou à história como o proprietário compreensivo e de grande visão administrativa. D. Carmita soube adequar sua missão às diretrizes de Olívio Bastos, sem abdicar de sua forte personalidade e do temperamento dominador, que entretanto, visavam o progresso do Rio Branco e o futuro de seus alunos.

Certo, porém, quanto a ela, que nenhum de nós, ex-alunos da geração D. CARMITA, não consegue permanecer silente em qualquer sala daquela Casa sem perceber seus passos firmes ao longo dos corredores; ainda hoje, esta sensação ocorreu-me, na sentimental visita feita à antiga Escola.

Reverenciamos a figura de D. CARMITA pelo tanto que dedicou ao Colégio Rio Branco e ao nosso aprimoramento educacional. Sem a visão de futuro que ela inegavelmente possuía, quantas e quantas vezes me rebelei a cada “indicação voluntária” que me era feita para declamações, teatros, grupos de canto, monólogos, etc. etc. nas festivas reuniões do “Grêmio Humberto de Campos”, atividades que mais tarde me valeriam – e muito – na vida profissional a que a vocação me conduziu. Assim comigo, igual a tantos e tantos outros colegas.

Possuía D. CARMITA o dom de descobrir em cada qual uma virtude às vezes oculta, que, trabalhada, se transformava numa qualidade desconhecida do próprio aluno."

                               ***
                             

Abaixo, trecho do artigo do jornalista Sílvio Fontoura no jornal A Notícia, de Campos dos Goitacazes, em 16/12/1943, noticiando a comemoração, no Colégio Rio Branco, do aniversário da educadora.
   










A seguir, a ex-aluna e professora do Rio Branco, a então normalista Neumar Monteiro homenageia a mestra no jornal escolar A Voz do Estudante.

Prof.ª e poetisa Neumar Monteiro
(1966, A Voz do Estudante)


   


Dr. Luciano Bastos, Maria das Graças Couto, Leny Borges Bastos,Prof.ª Maria do Carmo Baptista de Oliveira, Prof.ª Olívia Freitas.



Sala da antiga Secretaria do Colégio Rio Branco, preservada pelo Espaço Cultural Luciano Bastos, tendo ao fundo fotografia da aluna, professora e diretora Maria do Carmo Baptista de Oliveira. Foto Diadorim Ideias/Cris Isidoro




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