quarta-feira, 5 de agosto de 2020

1970: COLÉGIO RIO BRANCO COMEMORA SEU CINQUENTENÁRIO (parte 1)


O Colégio Rio Branco foi fundado em 1920 na Rua Aristides Figueiredo, transferindo-se em 1930 para os "altos de Santa Rita", atual Praça Amaral Peixoto, encerrando suas atividades em 2010. 
Foram 80 anos passados nos muros desta construção que se destaca no centro da cidade e foi construída no século XIX, acompanhando praticamente toda a história da cidade. Hoje o Espaço Cultural Luciano Bastos guarda as memórias da escola e da região. 


Em 1970, o Colégio Rio Branco preparou-se para comemorar seu cinquentenário, sob a direção de Luciano Bastos. As festividades tiveram início no dia 02 de março e transcorreram até o mês de setembro.




"Segunda-feira, dia dois de março de 1970, primeiro dia de aula do ano do cinquentenário. No salão dos professores, reunidos estes juntamente com os Diretores Dr. Luciano Augusto Bastos e Prof. Maria do Carmo Baptista de Oliveira, além de auxiliares de administração, usou da palavra o primeiro para dizer que o início do ano letivo de 1970 possuía significado especial eis que nele se festejará meio século de fundação do Colégio Rio Branco. E confraternizando com todos os professores e auxiliares desejava marcar o início do ano com o oferecimento de uma taça de champagne aos presentes. D. Carmita, sob palmas, espocou o champagne, em momento de emotividade. Estava assim, tão singelamente, iniciado o ano do cinquentenário!"





Acima se vê a página do Jornal A Voz do Estudante, publicado em abril de 1970, contendo, além do Quadro de Honra, uma redação da aluna Luzia Borges Coutinho sobre o cinquentenário do Colégio




Na mesma edição do Jornal A Voz do Estudante, o aluno Eber Teixeira de Figueiredo entrevista o professor Dr. José do Canto Mascarenhas


Anúncio no mesmo jornal traz a notícia de que ex-alunos se mobilizam para a realização de uma "artística gruta de Lourdes" no pátio, e que já está em curso a corrida para a escolha da Rainha do Centenário entre as alunas do Colégio.



No dia 28 de junho, às 20h, com a presença de todo o seu corpo docente e discente , ex-alunos, diretores e autoridades civis, religiosas e de ensino, deu-se início às festividades do seu Jubileu de Ouro, com a seguinte programação:

1- Saudação a Dom Antonio de Castro Mayer, Bispo da Diocese de Campos, pelos alunos. 2- Saudação proferida pelo Dr. Francisco Baptista de Oliveira em nome dos diretores e professores. 3- Canto pelos alunos do Curso Normal, regido pelo Professor Dr. Ilis Carlos Machado, de adaptação de um trecho de "Cavalaria Rustiana". 4- Conferência do Sr. Bispo, e após entrega de lembrança. 5- Palavras de agradecimento do Dr. Luciano Bastos. 6- Encerramento da solenidade com o Hino do Colégio.


Saudação do Dr. Francisco Baptista de Oliveira, vendo-se o diretor Luciano Bastos, padre Francisco Apoliano e Ediniz Pereira Campos.



Conferência do Bispo Dom Antonio de Castro Mayer


Agradecimento do Dr. Luciano Bastos. Na mesa, Dr. Helio Bastos Borges, Inspetor Federal de Ensino, João da Silva Baptista, Prefeito de Bom Jesus do Norte, Jorge Assis de Oliveira, Prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, Bispo Dom Antonio de Castro Mayer e Dr. Francisco Baptista de Oliveira.


No dia seguinte, 29 de junho, foi inaugurada a Gruta de N. Sra. de Lourdes, no pátio interno do Colégio, uma oferta dos ex-alunos do educandário, que, desse modo, desejavam participar das festas do cinquentenário. A inauguração e a entronização das imagens foi procedida por Monsenhor Ovídio Simon, Vigário da Paróquia de São Fidelis. Logo após, foi oficiada Missa campal no pátio interno do Colégio.

Gruta de N. Sra. de Lourdes, no pátio do Colégio, uma oferta dos ex-alunos, inaugurada durante a abertura das festividades do Centenário. Foto atual.


Lembrança da bênção da Gruta, enviada pelo ex-aluno David Poubel do Carmo



No dia 15 de agosto, dando sequência aos festejos, foi promovida uma sessão solene em homenagem ao sr. Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, que impossibilitado de comparecer, credenciou para seu representante o seu assessor, professor Delton de Mattos, ex-aluno do Rio Branco. Estiveram presentes o representante do Governador do Estado, o Vice-Governador Heli Ribeiro, o deputado estadual José Saad, o prefeito municipal Jorge Assis de Oliveira, vereadores, Inspetores Federais de ensino, autoridades, diretores dos demais colégios, professores e alunos.


Flagrante da chegada do Dr. Delton de Mattos, quando a Lira Musical do educandário, sob o comando do maestro Áureo Fiori, saúda o visitante.


Diretor Luciano Bastos, integrante da turma de 1942, de que fez parte o homenageado dr. Delton de Mattos, disse da honra em receber a visita do representante do Ministro da Educação, e da
alegria e ufanismo da Casa em ve-lo representado por um ex-aluno do Rio Branco.



Dr. Luciano Bastos cumprimentando o Prof. Delton de Mattos


Dr. Delton de Mattos não escondeu a sua imensa satisfação de estar sendo homenageado no local por cujos bancos passou como aluno, ali fazendo seu curso ginasial:

"Revejo com especial carinho os velhos mestres, os antigos colegas de turma, o velho casario do alto de Santa Rita, e fico com o desejo de voltar sempre! Que as comemorações do Cinquentenário possam alentar novas jornadas, dentro das agruras do mundo moderno."



Flagrante da recepção ao Professor Delton de Mattos, vendo-se: José Sebastião Vasconcelos Guerra, vereador Agostinho Boechat, vice-governador Heli R. Gomes, Prof. Delton de Mattos, D. Carmita, Dr. Luciano Bastos, prefeito Jorge Assis de Oliveira, Dr. Deusdedit Rezende








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1970: COLÉGIO RIO BRANCO COMEMORA SEU CINQUENTENÁRIO (parte 2)

Hasteamento da Bandeira do Brasil pelo Diretor Luciano Bastos


D. Carmita, Dr. Luciano Bastos, Sebastião Alves da Silva, Prof. Ilis Carlos Machado e Prof. Willian do Couto Gonçalves.



O Colégio Rio Branco deu continuidade, no dia 19 de setembro, às festividades comemorativas do seu cinquentenário de fundação, iniciadas em março de 1970.

Às oito horas da manhã tiveram início as festividades da semana do cinquentenário. Presentes diretores, professores e alunos, em frente ao estabelecimento, fez uso da palavra a Diretora Prof. Maria do Carmo Baptista de Oliveira, dizendo do significado desse acontecimento. A seguir, ao som do Hino Nacional, cantado pelos presentes, foi hasteada a Bandeira da Pátria pelo Dr. Luciano Augusto Bastos. Após, a Bandeira do Estado do Rio de Janeiro, pelo Prof. Ilis Carlos Machado, Inspetor de Educação do Estado e Presidente dos festejos do cinquentenário, seguindo-se o hasteamento da Bandeira do Colégio Rio Branco pela Diretora D. Carmita, sendo cantado o Hino do Colégio.

Às 12h do dia 20 de setembro, o Colégio Rio Branco recepcionou ex-alunos e autoridade, promovendo almoço de confraternização num ambiente de festa, alegria e muita saudade

Luciano Bastos, prefeito Jorge Assis de Oliveira, Antonio Carlos Cunha e Dr. José Vieira Serodio.


Antonio Carlos Cunha, Luciano Bastos, Dr. Edu da Silva Batista e Jorge Assis de Oliveira.


Nanadir Ferreira Tatagiba, D. Carmita, Dr. Elio Nunes da Silva e Dr. João Assad.


Dr. Darcy Fraga de Campos, Ediniz Pereira Campos, Luciano Bastos, Jorge Assis de Oliveira e Dr. José Vieira Serodio (orador).



Às 20h , a Escola de Ballet Juliana Yanaklewa, de Niterói, se apresentou e encantou o público que superlotou as dependências do Aero Clube.



No dia 21 de setembro, às 9h, aconteceu a inauguração da galeria de fotos dos ex-diretores do Colégio Rio Branco.



A Solenidade
Foi iniciada pelo Dr. Luciano Bastos que disse do significado do ato, quando o Colégio Rio Branco prestava justas homenagens a ex-diretores, que no passado tudo fizeram e deram de si, com idealismo e amor pela causa do ensino e pelo educandário. Após, foram descerrados os retratos dos ex-diretores: sr. Mário Bittencourt pela sua neta Katia Tavares Bittencourt; sr. Carlos Marques Brambila, pela sua sobrinha Emília da Conceição Brambila Kely; sr. José de Oliveira Borges por sua neta Maria Lúcia Borges; saudoso sr. José Mansur pela sua filha Maria da Penha Mansur, e finalmente o retrato do saudoso sr. Olívio Bastos pelo seu neto Gino Martins Borges Bastos.
A seguir usou da palavra o sr. Mário Bittencourt, que emocionado relembrou saudoso os primeiros anos de fundação do Rio Branco, dizendo do pioneirismo do educandário, o primeiro a dar cadernetas de reservista na região, o primeiro a dar Escola de Datilografia; o primeiro em trazer bancas examinadoras do Colégio Pedro II, etc. Foi um pronunciamento eloquente e muito aplaudido por todos.



Inauguração retrato de Mário Bittencourt por sua neta Katia Tavares Bittencourt.


Inauguração retrato de Carlos Brambila, por sua sobrinha Emília Conceição Brambila Kely


Inauguração retrato de José de Oliveira Borges, por sua neta Maria Lucia Borges


Inauguração retrato de José Mansur por sua filha Maria da Penha Mansur


Inauguração retrato de Olívio Bastos por seu neto Gino Martins Borges Bastos.


Confraternização Mário Bittencourt e José de Oliveira Borges 


Mário Bittencourt, bastante comovido, fez um discurso de improviso, gravado e e depois publicado no jornal A Voz do Estudante:

“Em primeiro lugar eu tenho uma mensagem de carinho e de amor ao Colégio Rio Branco. Um abraço de saudade pelo cinquentenário, completando hoje. Um abraço daquela que trabalhou convosco, Colégio Rio Branco, que orientou os vossos passos durante a infância. Essa é a mensagem de minha senhora, a Doca, para vós, Colégio Rio Branco. 

As maiores provas de amor são aquelas que as pessoas não a esquecem. E é por isso Colégio Rio Branco, nós que vivemos juntos há quarenta anos passados e em quarenta anos passados já é tempo bastante para dois companheiros de serviço esquecer perfeitamente um do outro. Mas só o amor, a amizade sincera, é que lembram e eu fui lembrado por vós.

Colégio Rio Branco, fostes o pioneiro da instrução neste torrão; fostes o pioneiro porque fostes o primeiro a dar à mocidade de Bom Jesus, diplomas de Datilografia; fostes o pioneiro porque fostes o primeiro em todo o território do município de Itaperuna a dar à mocidade de Bom Jesus, cadernetas de reservistas; e fostes o primeiro a conseguir Bancas examinadoras do Departamento Nacional de Ensino a vir aqui em nosso torrão, em nossa cidade, e fazer exames da mocidade bonjesuense e fostes o primeiro em todo o território do município de Itaperuna, na época, que enviastes alunos a exames no Colégio Pedro II e até Ginásios oficiais de Belo Horizonte. E fostes o primeiro porque nascestes, Colégio Rio Branco, com uma estrela e esta estrela iluminou e tem iluminado o vosso caminho; o vosso espírito alcantilado pode enxergar longe o caminho do dever, até que completastes hoje mais uma etapa de 50 anos de trabalho. E o maior amor que tenho por vós é que não deixastes a bandeira que recebestes nos dias de 1920, esta bandeira que ainda empunhais até hoje: a bandeira do trabalho, a bandeira da honestidade, a bandeira do civismo, a bandeira de um Brasil melhor, de um Brasil pra frente, que é a bandeira da nossa paz.”

Maria das Graças do Couto, Luciano Bastos, Dr. Francisco Baptista de Oliveira, D. Carmita, Mário Bittencourt, Dr. João José Assad e Vera Lúcia Barbosa Gomes.


As Professoras e irmãs Maria Júlia, Vera e Ana Maria Barbosa Gomes


No Salão de Festas, teve lugar festiva reunião às 10h, quando teve lugar a palestra da Dra. Creuza Boechat de Oliveira Magalhães, ex-aluna e ex-secrretária do Colégio Rio Branco.

Creuza Boechat de Oliveira, em foto no jornal O Norte Fluminense, 10/04/1940.


Trecho do discurso de Creuza Boechat de Oliveira


"Ao terminar o meu curso Ginasial neste educandário, ao receber o diploma de concludente da 4ª série, senti-me como aquela criança que ao receber um brinquedo tão sonhado, perdeu todo o seu encanto tão logo o sentiu em suas mãos. Sim, meus amigos, ao verificar que aquele fato representava para mim o não mais voltar às carteiras de minha sala e ao convívio de meus colegas, de meus professores, a sentir que não mais poderia correr brincando neste pátio que por tantos anos me recebeu de braços abertos, deixando, sem uma reclamação, que nele escrevesse com um simples pedaço de pau aquilo que ia em minha alma, e quantas vezes assim o fiz, senti-me completamente confusa e na condição do homem citado no Evangelho de Cristo, que acumulou grande tesouro na vida e que, ao morrer dele não se pode separar, como as parábolas do Mestre de que "onde estivesse o seu tesouro, aí estará o teu coração". E eu, naquele momento, senti que meu tesouro estava ali, no pátio, nas salas, nos corredores, no salão nobre, enfim, no meu Rio Branco.
Tenho a certeza que aqui ficou meu coração, pois aqui foi que encontrei em minha vida um dos maiores tesouros, que se concretizou nos ensinamentos que me foram transmitidos de amor à lealdade, à honestidade, à disciplina e à fraternidade."


Salão de festas, vendo-se entre outros Hildebrando Magalhães, Emília Brambila Kely, Sebastião Alfeu da Silva, Dr. Oliveiro Teixeira, Dr. João José Assad, Dr. Francisco Baptista de Oliveira, Osório Carneiro, Elias Chalhoub, Homero Serodio, Luciano Augusto Bastos, Maria da Penha Mansur, Mário Bittencourt, José de Oliveira Borges, Dra. Creuza Boechat de Oliveira e D. Carmita.



No dia 24 de setembro,  às 9h, foi oferecido um coquetel às autoridades e ex-alunos no Colégio. 

9h Coquetel às autoridades e ex-alunos


10h Palestra pelo ex-aluno Dr. José Vieira Serodio e pela Prof. Oraide Menezes de Carvalho, DD. Inspetora Seccional de Ensino



Na frente, Messias Baptista da Silva, Dr. Vero Batista, Dr. Esio Teixeira Lima, Dr. Deusdedit Tinoco de Rezende.



Encerrando as atividades da manhã, o momento histórico do apagar das velas do bolo do Cinquentenário.






Anúncio do resultado do Concurso da Rainha do Cinquentenário


Às 20h, no Aero Clube, Coroação da Rainha do Cinquentenário, aluna Rosane de Aguiar Mascarenhas, e das Princesas Yara Loureiro Laborne e Teresa Cristina Borges Alvarenga, seguindo-se após exibição do Canto Coral de ex-alunos, uma comovente homenagem à Diretora Técnica, a renomada Prof. Maria do Carmo Baptista de Oliveira, D. Carmita, que recebeu um medalhão de ouro, oferta dos ex-alunos, com expressiva e consagradora homenagem.

Rainha do Cinquentenário Rosane de Aguiar Mascarenhas ao lado do pai Dr. José do Canto Mascarenhas. 





Prof. Maria Áurea Megre Hobaica


Entrega de um medalhão de ouro a D. Carmita pela Sra. Leny Borges Bastos


Prof. Maria do Carmo Baptista de Oliveira, homenageada pelos ex-alunos.


No dia 26 de setembro, às 19h30 encerram-se as festividades com o emocionante desfile dos ex-alunos.

Dr. Francisco Baptista de Oliveira, Luciano Bastos, Ernesto Tavares Borges, Ruy de Moraes Borges 


Dr. José Fraga, Dr. Francisco Baptista de Oliveira, Luciano Bastos, Francisco Gomes de Figueiredo, Ernesto Tavares Borges, Ruy de Moraes Borges

Alunos do Curso Ginasial


Alunas do Curso Normal

Alunos do Curso Primário



Carro alegórico com a Rainha do Cinquentenário, Rosane Mascarenhas de Aguiar.








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domingo, 12 de julho de 2020

Memórias do século XX: "Tangará e Andorinha"

Tangará e Andorinha: apresentação em Iconha (ES), 1960. 
Acervo particular: Dejanira Pettersen.

"TODO ARTISTA TEM DE IR AONDE O POVO ESTÁ"

Dejanira Pettersen nasceu em Cambuci e hoje vive em Bom Jesus do Itabapoana, estando às margens de um tempo centenário. Não há como escutar suas histórias sem viajar no tempo e no espaço: com elas voltamos ao século XX e percorremos terras fluminenses, capixabas e mineiras, viajando sobre os trilhos do trem, no constante prenúncio das alegrias do palco e na certeza de que a vida do artista é sempre ir aonde o povo está.

Dejanira Pettersen, em 2015

Em seu tempo de menina, Dejanira morava em São João do Paraíso, distrito de Cambuci, sonhando com uma vida em que pudesse percorrer o mundo e conhecer pessoas. Quando Geraldo Silva, de nome artístico "Tangará", chegou à cidade, junto com um grande circo, a vida da jovem começou a tomar o rumo que ela quis construir. O circo vai embora, mas tempos depois, após uma grande enchente da qual se recorda muito bem, Geraldo retorna à cidade, preocupado com a jovem. O casal se declara apaixonado e para Dejanira começa a experiência dos palcos. Em breve, assume o nome artístico "Andorinha", e assim nasce a dupla "Tangará e Andorinha".

Anúncio de show em circo, com participação de Tangará - a lápis: dia 2 em Bananeiras.

CANTORIA NAS ONDAS SONORAS DO RÁDIO


Campos: Dejanira conta terem feito apresentações aos domingos, cantando músicas a pedido dos ouvintes, na Rádio Cultura de Campos.  


Itaperuna: Durante três anos, na década de 1950, Tangará esteve a frente do programa matutino diário "Sertão em Flor", na Rádio Itaperuna Ltda - ZYM-2. Dejanira recorda que antes de iniciar o programa, este era anunciado por José Luiz com a seguinte chamada: “- E vêm aí os inimigos da tristeza! Sertão em Flor”.


Para a estreia de Andorinha na rádio, Tangará compôs a música A saracura em que ela teria uma pequena participação, para ir se acostumando ao microfone:


A saracura

Tangará: Você já viu a saracura dançar?
Andorinha: Não!!!
Tangará: Então você vai ver, você vai rir de escangalhar...
                A saracura quando dança lá no galho
                vira festa
                que os galhos chegam a quebrar


Como era comum na época, diversos artistas eram chamados a compor material que auxiliasse na divulgação de nomes políticos, em campanhas eleitorais. Tangará não foi exceção e um dos candidatos para quem compôs foi o bonjesuense Roberto Silveira, na época candidato a governador. 




No período em que Dejanira e Geraldo viveram em Itaperuna, sua moradia foi no Hotel Meirelles, no andar térreo. Foi nesse local que o músico preparou um cenário que pudesse acompanhar a dupla em suas viagens pela região: pintou em tecido uma cidade imaginária com muitos prédios. O cenário, assim, cabia em uma mala, podendo ser facilmente transportado e montado a cada apresentação.


O TEATRO MAMBEMBE SEGUE OS TRILHOS DO TREM

Após deixar o programa na Rádio Itaperuna, o casal passa a se apresentar em várias localidades. Seguir o roteiro da dupla é perceber a importância das linhas ferroviárias como meio de transporte e de comunicação entre as cidades durante grande parte do século XX no interior brasileiro, em especial na confluência entre os estados do Rio, Minas e Espírito Santo. E assim, Dejanira vai indicando uma série de lugares em que "Tangará e Andorinha" percorreram com suas apresentações teatrais, tais como: Pirapetinga, Patrocínio do Muriaé, Muriaé, Leopoldina e Juiz de Fora (MG); Murundu, Santa Margarida, Chave do Paraíso, Gargaú, Travessão de Campos, Baixa Grande, Santo Amaro, Saturnino Braga, Tocos, Capão, Chave Santa Maria, Usina Santa Izabel (RJ); Iurú, Mimoso do Sul e Iconha (ES). Nessa lista é possível perceber o nome ou local de muitas das estações ferroviárias que compunham as linhas da época.

Onde se apresentar? O primeiro lugar a buscar era o cinema, se não houvesse cinema, buscava-se um clube, ou um local em que se pudesse fazer o show, montando o cenário "portátil". No local, apresentavam um "Carta de recomendação" assinada por pessoas que haviam recebido os artistas em suas cidades. Em alguns casos, como em Iurú, a apresentação ocorreu na própria estação ferroviária, no salão da estação, por não haver cinema ou clube que pudesse recebê-los. Também era comum receberem convite para apresentação em algumas fazendas, em áreas rurais mais afastadas.

Apresentação de Tangará e Andorinha em Iconha, década de 1960, tendo ao fundo o cenário composto por uma pintura em tecido feito por Tangará e que era transportado pelos artistas em uma mala de viagem. Acervo particular: Djanira Pettersen.

Uma carta de recomendação era importante para facilitar a recepção da dupla em novas localidades.

A HORA DA PARADA

Quando Geraldo Silva começou a ter problemas de saúde, não foi possível manter a vida itinerante e os tempos de apresentações terminaram. Dejanira arrumou trabalho em uma fazenda em Batelão da Barra, São Francisco do Itabapoana, onde o casal viveu por alguns anos, antes de se mudar para Bom Jesus do Itabapoana. Hoje, viúva, Dejanira continua vivendo seu tempo de artista nos palcos da memória, onde os aplausos não param. Sempre disposta a nos brindar com suas histórias, essa mulher, que nasceu para a vida artística, nos transporta a um mundo onde o real e o mágico se entrelaçam, e da terra surgem vozes distantes nos contando de um tempo e de um lugar que, afinal, nos trouxeram até aqui.

O SONHO NÃO PODE PARAR

A doença impossibilitou Tangará a continuar em seu contato com o povo em apresentações teatrais. Em uma carta ao radialista, locutor e cantor Gilberto Lima, Geraldo se descreve como "compositor, cantor, violonista e humorista da Velha Guarda" e acrescenta "há 52 anos que realizo shows pelos sertões do meu Brasil". Seu sonho era ter um disco gravado com suas composições, e para isso chegou a enviar cartas solicitando apoio a prefeitos, governador e presidente.

Alguns dos títulos de suas músicas: Exaltação a Petrópolis, Sabiá e João de Barro, Mandamentos das moças, Sapo dentro do saco, Batizado da bicharada, Futebol dos bichos, A mulher e o automóvel, É bonito isso, Flor de maracujá, Ladrão de passarinho, O homem e o cão, Boi amarelinho, Cobra surucucú, Rio Muriaé, Crime de Muriaé, Vida de casado, Cigana, O tatu tá no buraco, Mulher não, Gavião, O vento vai, Alegria de caboclo, Tão lindo não há, Pato e o Marreco, Bicho doido, Por causa do marreco, Vou pra lua, O vento vai, Como é bonito ver, O sapo e o saco, Siri jogando bola, Totó apaixonado (1957), Como é bonito ver (1960), Fiel companheira (1970), Tristeza (1976), Bebê de proveta (1979), Faniquito (1980).

É só mentira (Tangará do Sul)
Geraldo Silva nasceu em Petrópolis (1917)
e faleceu em Bom Jesus do Itabapoana (1984).
Acervo particular: Dejanira Pettersen.

Ah meu compadre
Essa eu vou contá pro povo
Eu vi lá na fazenda
Galo véio botá ovo

A lua tá cheia  (Tangará do Sul)

A lua agora não fica vazia
Tem gente lá
morando noite dia
Pra lua agora
a coisa ficou feia
vai ter que andar
só cheia


Texto: Paula Aparecida Martins Borges Bastos

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