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quinta-feira, 17 de abril de 2025

Memórias do séc. XX: Arlindo Lirio do Vale, um Amanagé no Vale do Itabapoana

No centro: Esio Bastos (E) e Arlindo Lirio do Vale (D), em Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 1959. Acervo ECLB.

Por Paula Aparecida Martins Borges Bastos

         

       No momento em que a população local se regozijava com a instalação do município de Apiacá, ES, (a), em 1959, a cidade contava com a presença de um visitante especial. Esse homem era Arlindo Lirio do Vale (b), indígena Amanagé (c), nascido na região amazônica, e a quem a revista Cigarra Magazine se referia, em 1956, nos seguintes termos: “índio autêntico, o Capitão Arlindo Lírio do Vale é chefe político” (1).

       Arlindo Lirio do Vale, nascido na última década do Oitocentos, tem uma história de vida que bem merece ser mais conhecida por todos nós. Como homem indígena e político de seu tempo, depois de atuar em sua região natal, migrou para a capital do Brasil, à época o Rio de Janeiro, na expectativa de poder interferir de forma mais incisiva junto às instâncias de poder e conseguir melhorias para a população indígena a qual dizia representar. Contava, para isso, com as conexões que tinha com políticos de renome nacional, e também com o conhecimento que dizia ter com Cândido Rondon (d), a quem admirava, e que era reconhecido no país como protetor dos povos indígenas.

    A partir de artigos e informações dispersas que encontrei sobre Lirio do Vale, buscarei traçar um esboço de sua trajetória, para seguirmos seus passos até sua chegada ao Vale do Itabapoana.

A origem: filho da Morubixaba Damasia

        Arlindo Lirio do Vale se apresentou em Bom Jesus do Itabapoana como sendo Amanagé e “nascido em terras banhadas pelo rio Ararandêua” (2). Natural do sudeste do Pará, teria nascido em 1895 (3).

         Sua mãe Damasia, de possível origem quilombola, ainda nova foi integrada à comunidade indígena, sendo chefe morubixaba dos Amanagé que habitavam o iguarapé Ararandeua, desde final do século XIX até a década de 1930 (4) (5).

      Damasia teve três filhos: os irmãos Arlindo Lirio do Vale, Filomena e Balbino. Esse último assumiu a chefia dos Amanagé após a morte da mãe, sendo conhecido como Capitão Balbino (4).

         Lirio estudou em um seminário de padres, onde lhe foi ensinado “agricultura tanto pratica como teoria”. No ano de 1922, porém, foi obrigado “a abandonar os estudos”, pois “precisava da carteira de reservista” (4, p.73). Com os conhecimentos adquiridos no colégio, Arlindo passou a integrar o ainda restrito grupo de pessoas  alfabetizadas no Brasil, que na década de 1920 era estimado em 35% do total da população (6).

Atuação nos Postos Indígenas do Serviço de Proteção ao Índio (SPI)

      A experiência de Lirio do Vale com o órgão de Estado precursor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), parece ter começado nos anos iniciais de existência do SPI. Em sua fundação, em 1910, pelo Presidente Nilo Peçanha, o órgão tinha a sigla SPILTN (e), estando desde sua criação sob a direção de Cândido Rondon.

      A primeira atuação de Lirio do Vale teria sido um trabalho não remunerado, em 1911. Atuou em Postos Indígenas de sua região, e detectando vários problemas, passou a fazer criticas ao que considerava inadequado. O Posto Indígena (PI) do rio Capim, por exemplo, segundo Lirio, se encontrava completamente inoperante, enquanto outros se encontravam ausentes de recursos e de condições de trabalho, o que era necessário para garantir a proteção da população indígena do entorno (4).

     O exemplo de sua mãe como liderança indígena local e a admiração por Cândido Rondon devem ter sido as principais influências que levaram Lirio do Vale a trilhar o caminho que o levou a se compreender como um homem político voltado para a defesa da população indígena. Além disso, sua experiência inicial nos Postos Indígenas deve lhe ter dado condições de ampliar sua consciência na observação da realidade local e dos desafios por que os povos indígenas da região passavam.

   Consciente da importância da política nacional e suas consequências para os povos indígenas, Lirio não hesitou e, consequente com suas expectativas, apoiou a candidatura de Getúlio Vargas para Presidente da República. Sua viagem ao Rio de Janeiro, em 1929, junto com o deputado federal José Joaquim Seabra, ex-governador da Bahia, para fazer campanha a favor de Vargas, pode ser lida como uma demonstração de que nessa época os homens políticos de seu tempo já distinguiam Arlindo como alguém a ser considerado, pois seu apoio poderia significar um potencial capital político (4) (f).

Presidente Getúlio Vargas, quadro pertencente ao antigo Colégio Rio Branco. Acervo ECLB.


       Em 1932, já estando o Brasil sob a presidência de Getúlio Vargas, Lirio está de volta a sua terra e continua desenvolvendo seu trabalho no PI do Rio Capim. Alguns anos depois é nomeado Delegado do Serviço de Proteção aos Índios, e nessa condição passou a “prestar assistencia aos índios do posto de alcobaça, e os índios anaubés do rio cariri”. (4, p. 73)

         Com uma atitude propositiva frente aos Postos Indígenas e suas contínuas demandas e reinvindicações, parece ter havido desconfiança por parte de alguns trabalhadores não indígenas do SPI em relação a Arlindo. Além disso suas críticas, muitas vezes explícitas, quanto à ineficiência de alguns Postos, podem ter gerado algum desconforto nos que ali ocupavam algum cargo (4).

No Rio de Janeiro, capital da República

          A década de 1940 parece ter sido um momento decisivo na vida de Lirio do Vale. Com seu grupo Amanagé sendo liderado pelo irmão Capitão Balbino, Lirio parece ter assumido de vez sua condição de político junto às instâncias de poder da capital, usando sua tática de, como indígena representante de seu povo, lutar por melhorias nas ações das estruturas de Estado voltadas para as questões indígenas.

           Arlindo acabou voltando ao Rio de Janeiro, onde procurou o SPI. O órgão registrou, em 1943, que Lirio ali “ressurge como tendo vindo tratar com o Governo a respeito de assuntos agrícolas e transportes de produtos das duas tribos de índios de quem se diz capitão ou pagé” (4, p.94).

       É possível que ao se decidir por retornar ao Rio de Janeiro, Arlindo Lirio do Vale tenha pensado em conseguir um encontro com o Presidente, na expectativa de expor a situação indígena de sua região e apresentar, na condição de indígena letrado, competente e experiente, as soluções que poderiam advir do que considerava serem ações corretas e concretas a serem tomadas pelo SPI.

      Em 1945, Lirio estava morando, com seus dois filhos mais velhos, no bairro Vaz Lobo, subúrbio do Rio de Janeiro. Ao convencer-se da impossibilidade de tal encontro, naquele mesmo ano, restou-lhe a opção de escrever uma carta ao Presidente da República: “[...] estou nesta capital para falar diretamente com Vossa Ex. e tenho certeza de que Vossa Ex. compreenderá os sentimentos de um índio brasileiro” (4, p.80).

Carta a Getúlio Vargas: "[...] quem pode dar proteção ao índio é o próprio índio (4, p.84)

        Na carta enviada ao Presidente, em 1945, junto com um memorial sobre sua vida e suas experiências nos Postos Indígenas, expunha os problemas que percebia nesses Postos e nas ações do SPI. Nesse contexto, reivindicava ser nomeado para o cargo de Inspetor Geral do Pará, afirmando na carta ter

competência para ser nomeado inspetor em minha terra, como provas de trabalhos prestados ao SNPI e não bastante provarei com documentos, que venho trabalhando sem nada ganhar em prol da grandeza do Brasil” (4, p.81).

      Lirio afirmava que cumpriria com responsabilidade as atribuições referentes ao trabalho do SPI, tais como proteção e assistência indígena, o que, criticava, não ocorria em muitos postos que conhecia e eram comandados por não indígenas. Afirmava-se apto e capaz pois, além de ter estudado matérias básicas e profissionais na juventude, possuía experiência sobre como vinha se dando a atuação dos PI em sua região e, argumento principal, era indígena (4).

      Com sua retórica e argumentação, Lirio do Vale procurava demonstrar que, sendo indígena, possuía melhor capacidade de compreender e organizar os povos da região e, conhecendo suas realidades, atuaria no sentido de buscar apoio e assistência a todos eles, citando algumas das ações as quais se propunha realizar:

farei a união dos índios turis do rio acara, e os índios ananbés do rio carari, com os índios tenbés e amanajás de minha taba em minha terra, pacificarei os índios gaviões e urubus que constantemente atacam o posto de alcobaça, onde com meus próprios olhos pude observar a falta de patriotismo daquele posto” (4, p.79).

        Esses ataques, indicava, não eram gratuitos: “os índios gaviões e urubus que vivem em constantes guerras com os brancos, que invadem os seus domínios” (4, p.82).

       Para Ribeiro (7), muitas situações ocorridas durante o Regime Vargas são exemplares do modo como os indígenas vão redimensionar a tutelagem e elaborar dinâmicas próprias, a partir de suas culturas, cosmologias e territorialidades”. Nesse sentido, aponta, Lirio do Vale é um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade. 

Um discípulo do Marechal Cândido Rondon

         Admirador de Rondon desde seus tempos de atuação nos Postos Indígenas no norte do país, Lirio também enviou, em 1945, uma carta ao então General Cândido Rondon. Nela, solicita apoio para sua indicação ao cargo de Inspetor Geral do Pará, explicando ter enviado carta ao Presidente. Na carta a Getúlio, Lirio do Vale se refere a Rondon como alguém com uma “digníssima carreira protetora”, dizendo-se discípulo capaz de seguir os exemplos de suas façanhas, caso seja nomeado para o cargo pleiteado (4).

Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958)

      Em 1955, Arlindo Lírio do Vale esteve presente, no Rio de Janeiro, ao evento que comemorou os 90 anos de Candido Rondon, quando o Congresso Nacional, no Palácio Tiradentes, outorgou ao nonagenário o título de Marechal do Exército Brasileiro. Em um vídeo da coleção do “Conselho Nacional de Proteção aos Índios” (CNPI), disponível numa rede social, é possível vislumbrar Lirio do Vale, ao final do ato, seguindo atrás e a direita do Marechal ao iniciar a descida das escadarias do Prédio (veja aqui). Em uma fotografia do lado de fora do Palácio, publicada na parte central de uma página da Revista Manchete, estão o Marechal Rondon e Arlindo Lirio do Vale em primeiro plano, posando para a foto, estando em segundo plano o Senador Nereu Ramos (veja aqui). Arlindo porta um belo cocar e diversos colares com amuletos, confirmando a todos os presentes, com orgulho, sua identidade indígena.

Percorrendo Minas Gerais: difusão das tradições ancestrais e defesa dos povos indígenas

Conferências para difusão da cultura indígena

     Lirio do Vale percorreu diversas cidades mineiras, como Conselheiro Lafaiete e Barbacena, na décadas de 40, fazendo conferências que abrangiam a difusão das culturas e línguas indígenas, bem como das ações e políticas indigenistas de Getúlio Vargas (g). Em um dos panfletos da época, consta a divulgação de uma conferência a ser feita por Lirio do Vale e o indígena Guaicurú Umburaé “em uma das Casas de Diversões da cidade”, onde os dois tratariam de “assuntos inteiramente indígenas, discutindo a língua nativa: TUPÍ E GUARANÍ (...) atenderão com satisfação a todos os interessados (...)”. O panfleto termina fazendo uma ressalva para a população: “Não se trata de feitiçaria nem de bruxaria”.

     No geral, parece que esses eventos eram apreciados pela população, como é possível deduzir pelo ocorrido no Cine Brasil, em Barbacena, em que Lirio é mencionado como “o simpático índio”, que após ter falado “sobre cousas e fatos peculiares à sua gente”, foi “muito aplaudido”. A matéria ressalta que “O cacique Lírio do Vale mostrou ser um grande patriota e amante do crescente desenvolvimento de nossa querida Pátria (...)" (4, p.86).

Em território Xakriabá: apoio à luta pelo direito à terra

       Na década de 1950, Lirio continuava pela região sudeste, percorrendo especialmente o extenso território mineiro. Sua permanência em determinadas localidades, porém, não agradava a todos os moradores, como se observa no ocorrido nos então distritos de Itacarambi e Missões, onde ele e seu filho, Lirio Arlindo do Vale Filho, se envolveram no apoio a indígenas locais que defendiam seu direito à terra. Sua ação de dirigirem-se “aos moradores que não eram descendentes indígenas para orienta-los a se mudarem daquelas terras” (4, p.64) gerou um indiciamento policial, em 1951, no qual eram acusados de ameaçar agricultores e pecuaristas “com a justificativa de que aquelas terras pertenciam aos descendentes dos índios Tupinambá”.

      Os Xakriabá, nesse tempo, se organizavam e tomavam providências para conseguir a posse legal de suas terras. Para isso, suas lideranças faziam viagens ao Rio de janeiro “em busca de apoio, ajuda e informações que nos defendessem”. É possível que Lirio do Vale tenha conhecido algumas dessas lideranças, “como Rosalino e Rodrigo, que denunciaram invasões no território Xakriabá”, dirigindo-se à região para contribuir com seu apoio, consequente com a missão que se propunha na defesa do povo indígena (8).

             O ambiente daquela época, na região, é resumido na seguinte reportagem recente: 

Quando o agricultor José Fiuza Xakriabá nasceu, em 1950, as leis de proteção aos territórios indígenas no Brasil eram frágeis. A Terra Indígena Xakriabá, que hoje abrange 54 mil hectares no norte de Minas Gerais, ainda não havia sido regularizada e era cobiçada por grileiros. Ataques e invasões eram frequentes. Assim, cedo Fiuza entendeu o que era a sina indígena de que seu pai tanto falava: ter de lutar pelo direito à própria existência.” (9)

        A relação de Lirio do Vale com a região do São Francisco parece ser persistente, pois, anos depois, em 1956, Lirio aparece em uma reportagem sobre as Carrancas do rio São Francisco, com uma narração de viagem de barco pelo velho Chico. Dentre as várias fotografias que ilustram a matéria, feitas durante a viagem, consta uma de Lirio do Vale, de perfil, com a legenda: “índio autêntico, o Capitão Arlindo Lírio do Vale é chefe político” (veja aqui). Nenhuma outra menção a ele é encontrada no texto jornalístico, o que permite algumas perguntas: estaria Lirio fazendo a mesma viagem ou estaria em algum dos lugares de parada do barco? Sem resposta, podemos apenas perceber que sua figura chamou a atenção do fotógrafo e do repórter a ponto de terem inserido sua imagem na revista.

Apoio aos Krenak e crítica a Juscelino Kubistchek

       Sempre atento às questões indígenas, Lirio do Vale foi um grande crítico das ações do Presidente Juscelino Kubistchek em território mineiro, “acusando-o estar tomando as terras dos índios Crenaque” (2).

           Com efeito, na década de 1950, os Krenak sofreram o primeiro de “dois episódios de reassentamento forçado promovidos pelo Estado brasileiro” no século XX (h). No ano de 1957,

“foram retirados de suas terras de forma violenta pelos agentes do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e deslocados para as terras indígenas dos Maxacali, em Águas Formosas, no município de Santa Helena de Minas/MG. Eles retornaram em 1959 para seu território tradicional, numa caminhada que durou três meses.” (10)

No Vale do Itabapoana: Bom Jesus do Itabapoana e Apiacá 

       Quando Lirio do Vale esteve em Bom Jesus do Itabapoana, no verão de 1959, um dos lugares que visitou foi a redação de um jornal local, O Norte Fluminense, cujo fundador e diretor, Esio Bastos, era à época vereador em seu terceiro mandato. Como cartão de apresentação, além do documento pessoal, Lirio apresentou a fotografia publicada na Revista Manchete, de 1955, em que aparece ao lado do Marechal Rondon, de quem se dizia amigo, e do senador Nereu Ramos. Essa informação, contida no periódico bonjesuense, permitiu resgatar esse momento de Lirio no Rio de Janeiro, uma vez que a revista carioca não apresenta nenhuma legenda ou menção em texto que possa identifica-lo.

        A matéria de jornal, repleta de adjetivos elogiosos, destaca o "português correto" de Lirio do Vale, o qual é apresentado como “um autêntico chefe indígena” que utiliza "vestes atraentes à altura de sua alta posição". É apresentado como "uma figura forte, vivaz, espetacularmente adornado com colares, penas e pulseiras" (2).

Acervo ECLB
      

       A visita a Bom Jesus se deu numa sexta-feira e movimentou a cidade, com os moradores interessados em conhecer o chefe indígena, em especial as crianças, que o acompanharam por todos os lugares por que passou. É possível perceber na fotografia em que aparece com o jornalista e vereador Esio Bastos (no topo desse artigo), adultos e crianças rodeando os dois homens, entre curiosos e atentos.

Ervas medicinais tradicionais

      Os conhecimentos ancestrais dos Amanagé sobre o uso das plantas para fins medicinais era preservado por Arlindo Lirio do Vale, que muitas vezes empregava e divulgava o uso de receitas de ervas em suas andanças pelo interior do país (4). Em uma sociedade que sempre preservou em suas práticas cotidianas a memória rural do uso de fitoterápicos, as ervas de Lirio do Vale devem ter sido muito consideradas nos lugares por onde passou. Em Bom Jesus do Itabapoana, o Amanagé divulgava “«sua» Erva do Índio (Carucaxá), afirmando a excelência para a cura de diversos males” (2).

Apiacá, Vargas e Lirio

       Lirio do Vale se estabeleceu, no Vale do Itabapoana, em uma localidade que teve sua nomenclatura alterada na onda do movimento modernista que se iniciou no Brasil na década de 1920 e que ganhou maior expressão na Era Vargas, “uma época em que os topônimos de origem indígena foram abundantemente criados no país” (11).

     Foi nesse período que o Presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 5.901, de 21/10/1943 (12), instituindo as normas para nomenclaturas de cidades, com a indicação, em seu art. 7º, III, de que, para as localidades em que houver alteração de nome, é “recomendável a adoção de nomes indígenas”.

        Apenas dois meses após a criação dessa Lei Federal, o Estado do Espírito Santo emitiu o Decreto-lei Estadual nº 15.177, de 31/12/1943, determinando as alterações dos antigos nomes das localidades de Boa Vista e Barra Alegre para Apiacá e Iurú, respectivamente (13).

     Em 1959, vivenciando o clima de satisfação e esperança da população local com a recente emancipação de Apiacá, é possível que Lirio do Vale tenha vislumbrado na localidade a possibilidade de se estabelecer de forma mais permanente na região, pois o redator do jornal O Norte Fluminense destacou estar o indígena naquele momento “residindo em Apiacá onde possivelmente fixará residência” (2).

Vale do Itabapoana, um recanto de memórias Macro-Jê

     

Antiga Fazenda dos Puri, Apiacá, ES. Foto: Paula Bastos, 2023.

        É possível que por suas andanças pela região, Lirio tenha, altivo e ativo, conversado com diversas pessoas sobre ancestralidade e herança indígena, interessado em descobrir sobre vivências e memórias dos povos indígenas de nossa região. É possível que tenha encontrado antigos trabalhadores da Fazenda dos Puri e outros moradores e moradoras que, inspirados, lhe tenham contado sobre sua origem indígena, e com ele tenham trocando receitas com plantas locais.

Antiga Fazenda dos Puri, Apiacá, ES. Foto: Paula Bastos, 2023.
      

     É possível que quando Lírio contasse de sua terra de origem, na região amazônica, o povo do Vale do Itabapoana, entre curioso e atento, tirasse do fundo de suas memórias encobertas, sons de um tempo distante com gosto de presente, passado e futuro.

      Passados 78 anos da demanda de Lirio do Vale ao Presidente Vargas, no ano de 2023 foi empossada a primeira indígena à frente da FUNAI, Joenia Wapichana (11). Nesse mesmo ano, se deu a criação do Ministério dos Povos Indígenas, tendo como Ministra a indígena Sonia Guajajara (12).

***

É permitia a reprodução do conteúdo deste blog em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

Notas 

(a) Elevado a município em 1958, a partir da emancipação de Mimoso do Sul (ES), foi instalado em 29/01/1959, constituído por dois distritos: Apiacá (sede) e Iuru. Ver: https://site.apiaca.es.gov.br/paginas/191

(b) Também grafado em algumas fontes como Lyrio do Valle ou Lirio Arlindo do Vale.

(c) Integrante da família linguística Tupi-Guarani, Amanagé teria como significado "associação de pessoas". Também conhecidos como Amanayé, habitam atualmente o alto curso do Rio Capim. A denominação Ararandeuara foi assumida pelos Amanagé que habitam o igarapé Ararandeua. Lirio do Vale, na década de 1940, também se apresentava como indígena Tembé, povo que ocupava grande área do território onde os Amanagé de Lirio do Vale se encontravam naquela época. Ver: https://antropos.org.uk/5-amanaye-amanage/ ; https://www.etnomuseudigital.com.br/povo/amanaye/ ; https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Amanay%C3%A9 

(d) Militar e sertanista, nasceu em Mato Grosso, em 1865. Participou da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, e nesse trabalho fez contato com diversos povos indígenas, ao andar pelo interior do Brasil. "Embora tenha sido adepto de uma perspectiva integracionista, em voga na época, sua conduta pacifista é admirável", tendo como lema "morrer se preciso for, matar nunca!". Seu trabalho com os indígenas resultou na criação do "Serviço de Proteção ao Índio" (SPI) e depois no "Conselho Nacional de Proteção aos Índios" (CNPI). Faleceu em 1958. Ver: https://portal.sbpcnet.org.br/noticias/calendario-de-fevereiro-destaca-marechal-rondon-e-a-criacao-do-servico-de-protecao-aos-indios-spi/ 

(e) "Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais".

(f) As relações de Arlindo Lirio do Vale com políticos do período do Governo Vargas podem ser lidas dentro de um movimento geral “como comenta Seth Garfield, [em que] os indígenas foram praticamente convocados por Getúlio Vargas e seus correligionários (políticos e intelectuais) enquanto recurso simbólico do regime que moldava certas representações, discursos e práticas estatais nesse cenário” (7).

(g) Garfield (3) aponta que Lirio criticava “não a missão do Estado de proteger e integrar os índios, mas seu modus operandi” (p.30). O autor aponta as complexidades da época da era Vargas, e remetendo ao conceito de Gramsci sobre “conscientização contraditória”, indica que “o discurso de Valle revela como os índios brasileiros, como outros grupos subalternos, tanto apropriaram-se dos símbolos dominantes como os desafiaram” (p.31).

(h) O segundo episódio se deu em 1972, sob gestão da FUNAI e apoio do Estado de Minas Gerais (10).

Referências

(1) CIGARRA Magazine, SP, ed. 6, junho 1956. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=003085&pagfis=58490 Acesso 09/04/2025.

(2) CACIQUE indígena esteve em Bom Jesus. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 01/02/1959.

(3) GARFIELD, Seth. As raízes de uma planta que hoje é o Brasil: os índios e o Estado-nação na era Vargas. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 20, n. 39, p.15-42, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/5WGW9qddWRkHSnkrckzLHrx/?lang=pt  Acesso 15/04/2025.

(4) ROSA, Roberta Cristina Silva. Os índios brasileiros e o Serviço de Proteção aos Índios: a atuação de Lyrio Arlindo do Vale (1942-1945). Dissertação (mestrado) Programa de Pós-Graduação em História, UERJ, Rio de Janeiro, RJ, 2016.

(5) GOMES, Jussara Vieira. Grupos indígenas Amanayé e Anambé, do Pará (Relatório), RJ, 28/06/1984. Publicado no Boletim do Museu do Índio, documentação nº 7, dezembro 1997.

(6) TAVERNA, Aline Rosenente; TAVERNA, Maria Rosenente; MELLO, Eloisa Helena. Processo histórico do analfabetismo no Brasil (1500-1945). Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.8, n.9, p.62250-62265, 2022. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/52006 Acesso 15/04/2025.

(7) RIBEIRO, Benedito Emilio. Povos indígenas e o Regime Vargas: tutelagem, resistência e agenciamentos, 16/05/2024. Disponível em: https://www.geledes.org.br/povos-indigenas-e-o-regime-vargas-tutelagem-resistencias-e-agenciamentos/ Acesso 06/04/2025.

(8) XAKRIABÁ. Povos Indígenas no Brasil. Disponivel em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Xakriab%C3%A1 Acesso 15/04/2025.

(9) O GLOBO - https://oglobo.globo.com/ - 27/07/2024. Disponível em: https://www.terrasindigenas.org.br/en/noticia/224888 Acesso 15/04/2025.

(10) MG – Povo indígena Krenak segue lutando por reconhecimento e demarcação total de seu território tradicional (atualização 04/08/2018). Disponível em: https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/mg-povo-indigena-krenak-segue-lutando-por-reconhecimento-e-demarcacao-total-de-seu-territorio-tradicional/ Acesso 06/04/2025.

(11) NAVARRO, Eduardo de Almeida. A toponímia indígena artificial no Brasil: uma classificação dos nomes de origem tupi criados nos séculos XIX e XX. Revista Letras Raras. Campina Grande, v. 9, n. 2, p. 252-267, jun. 2020. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/A_topon%C3%ADmia_ind%C3%ADgena_artificial_no_Brasil  Acesso 15/04/2025.

(12) BRASIL. Decreto-Lei nº 5.901, de 21/10/1943. Diário Oficial da União - Seção 1 - 23/10/1943, p. 15750. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5901-21-outubro-1943-415891-publicacaooriginal-1-pe.html Acesso 15/04/2025.

(13) ESTADO do Espírito Santo. Decreto-Lei nº15.177. Imprensa Oficial - Vitória - 1944. Disponível em: https://www3.al.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/Decreto%2015177%20de%201944.pdf Acesso 15/04/2025.

(14) JOENIA Wapichana é nomeada Presidente da Fundação dos Povos Indígenas (FUNAI). Disponível em:https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2023/joenia-wapichana-e-nomeada-presidente-da-fundacao-nacional-dos-povos-indigenas-funai Acesso 16/04/2025.

(12) MINISTÉRIO dos Povos Indígenas. Disponível em: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/acesso-a-informacao/institucional Acesso 16/04/2025.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Professor Mário Bittencourt: homenagem no cinquentenário do Colégio Rio Branco

Na foto: Maria das Graças do Couto, Luciano Bastos, Dr. Francisco Baptista de Oliveira, Maria do Carmo Baptista de Oliveira (D. Carmita), Mário Bittencourt, Dr. João José Assad, Vera Lúcia Barbosa Gomes Araújo.

No ano de 1970, o Colégio Rio Branco comemorou cinquenta anos de fundação, e diversas atividades foram realizadas. Entre elas, uma homenagem aos Ex-Diretores da escola, no dia 21 de setembro, que contou com a presença de ex-diretores, professores, funcionários, alunos e ex-alunos.

O diretor do Colégio Rio Branco, Luciano Bastos, deixou registrado:


"A Solenidade 

Foi iniciada pelo Dr. Luciano Bastos, que disse do significado do ato quando o Colégio Rio Branco presta justa homenagem a ex-Diretores que no passado tudo fizeram e deram de sim, com idealismo e amor, pela causa do Ensino e pelo educandário. Após, foram descerrados os retratos dos Ex-Diretores: Sr. Mário Bittencourt, pela sua neta Kátia Tavares Bittencourt; sr. Carlos Marques Brambila, pela sua sobrinha Emília da Conceição Brambila Kely; sr. José de Oliveira Borges, pela sua neta Maria Lúcia Borges dos Santos; saudoso sr. José Mansur pela sua filha Maria da Penha Mansur e finalmente o retrato do saudoso sr. Olívio Bastos, pelo seu neto Gino Martins Borges Bastos.

A seguir usou da palavra o sr. Mário Bittencourt, que emocionado relembrou saudoso os primeiros anos de fundação do Rio Branco, dizendo do pioneirismo do educandário, o primeiro a dar cadernetas de reservistas na região; o primeiro em abrir Escola de Datilografia; o primeiro em trazer bancas examinadoras do Colégio Pedro II, etc. Foi um pronunciamento eloquente e muito aplaudido por todos."

A Voz do Estudante, Agosto/1971


Discurso do Professor Mário Bittencourt

Ainda ecoam entre nós as maravilhosas comemorações do cinquentenário do Colégio, A “Voz do Estudante” homenageia a figura do sr. Mario Bittencourt, um dos fundadores do Colégio Rio Branco, publicando o discurso pronunciado pelo mesmo, no dia 21 de setembro de 1970, quando da inauguração da galeria de fotos dos ex-diretores do nosso educandário. Este discurso foi de improviso, estando o orador bastante comovido, e este registro é extraído dos arquivos do Colégio, onde contém a fita gravada da solenidade:

Em primeiro lugar eu tenho uma mensagem. Uma mensagem de carinho e de amor ao Colégio Rio Branco. Um abraço de saudade pelo cinquentenário, completando hoje. Um abraço daquela que trabalhou convosco, Colégio Rio Branco, que orientou os vossos passos durante a infância. Essa é a mensagem de minha senhora, a Doca, para vós, Colégio Rio Branco.

As maiores provas de amor são aquelas que as pessoas não a esquecem. E é por isso Colégio Rio Branco, nós que vivemos juntos há quarenta anos passados e em quarenta anos passados já é tempo bastante para dois companheiros de serviço esquecer perfeitamente um do outro. Mas só o amor, a amizade sincera, é que lembram e eu fui lembrado por vós.

Colégio Rio Branco, fostes o pioneiro da instrução neste torrão; fostes o pioneiro porque fostes o primeiro a dar à mocidade de Bom Jesus, diplomas de Datilografia; fostes o pioneiro porque fostes o primeiro em todo o território do município de Itaperuna a dar à mocidade de Bom Jesus, cadernetas de reservistas; e fostes o primeiro a conseguir Bancas examinadoras do Departamento Nacional de Ensino a vir aqui em nosso torrão, em nossa cidade, e fazer exames da mocidade bonjesuense e fostes o primeiro em todo o território do município de Itaperuna, na época, que enviastes alunos a exames no Colégio Pedro II e até Ginasios oficiais de Belo Horizonte. E fostes o primeiro porque nascestes, CRB, com uma estrela e esta estrela iluminou e tem iluminado o vosso caminho; o vosso espirito alcantilado pôde enxergar longe o caminho do dever, até que completastes hoje mais uma etapa de 50 anos de trabalho.

E o maior amor que tenho por vós é que não deixastes a bandeira que recebestes nos dias de 1920, esta bandeira que ainda empunhais até hoje: a bandeira do trabalho, a bandeira da honestidade, a bandeira do civismo, a bandeira de um Brasil melhor, de um Brasil pra frente, que é a bandeira da nossa paz.”

  (Jornal "A Voz do Estudante", Agosto de 1971)


Inauguração do Retrato do Professor Mário Bittencourt por sua neta Katia Tavares Bittencourt.


Confira a inauguração da galeria de fotos dos Ex-Diretores do Rio Branco em: https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2020/08/1970-colegio-rio-branco-comemora-seu_5.html

Breve histórico
O Colégio Rio Branco foi fundado em 1920, pelo Prof. José da Costa Júnior. Nesse período, mantinha os cursos em regime de semi-internato, internato e externato, para ambos os sexos.
A escola cresceu e em 1930 transferiu-se para o Alto de Santa Rita, hoje Praça Amaral Peixoto, no centro da cidade, sempre se desenvolvendo e ajudando Bom Jesus a se desenvolver. Em 2010 completou 90 anos de serviços educacionais no Vale do Itabapoana, encerrando em 2011 suas atividades.


Na foto, de 1923, estão ao centro os Diretores José da Costa Júnior e Mário Bittencourt, reunidos com alunos os alunos e professores do Colégio Rio Branco, em frente à antiga sede, na rua Aristides Figueiredo.



O PROFESSOR MARIO BITTENCOURT

O Professor Mario Bittencourt nasceu em 27 de setembro de 1895 na fazenda Maravilha, localizada na cidade de Macuco – RJ, berço da tradicional família Bittencourt, conhecida como “Uma família de educadores”.

Filho de José Victorio de Oliveira Bittencourt (Nhonhô) e Alice Siqueira Bittencourt, casou-se, em 1921, com Deolinda Costa Bittencourt e tiveram quatro filhos: Dr. Mario Bittencourt Junior, Dr. José Costa Bittencourt, Prof. Clovis Costa Bittencourt e a Profª Maria José Bittencourt Guimarães.

O menino Mário, apaixonado pela leitura, encontrou, nos livros, grande inspiração e entusiasmo para se tornar um educador. As salas de aula e uma vontade nata de ensinar, podemos dizer, o seduziram completamente. Homem de caráter ilibado, esposo dedicado e amoroso, pai digno e amigo, foi seu espírito empreendedor e sua determinação que se somaram à paixão pelo ensino para dar origem a esta grande obra que é o Colégio Bittencourt de Campos.

Iniciou seus estudos em Macuco. Já em 1914 fez cursos preparatórios no colégio Pedro II no Rio de Janeiro e, em 1916, iniciou o Curso de Direito na Faculdade de Campos. Faltando pouco para se diplomar, foi surpreendido com o fechamento da faculdade. Mas foi lecionando matemática que se tornou um mestre por excelência, levando-o a se render à arte do magistério e fazendo com que se dedicasse sua vida à educação.

Qualidade no ensino, competência e respeito aos alunos foram características marcantes desse grande mestre. Mais que transformar seus alunos em profissionais do futuro, procurou formar cidadãos que percebessem criteriosamente a realidade social, cientes dos seus direitos e responsabilidades, preparando-os para enfrentar e vencer os desafios da vida.

No dia 27 de dezembro de 1991, aos 96 anos, o saudoso mestre Mario Bittencourt nos deixou, ficando a sua obra como um imenso legado do grande educador que foi.
Fonte: https://issuu.com/colegiobittencourt/docs/100_anos




domingo, 12 de julho de 2020

Memórias do século XX: "Tangará e Andorinha"

Tangará e Andorinha: apresentação em Iconha (ES), 1960. 
Acervo particular: Dejanira Pettersen.

"TODO ARTISTA TEM DE IR AONDE O POVO ESTÁ"

Dejanira Pettersen nasceu em Cambuci e hoje vive em Bom Jesus do Itabapoana, estando às margens de um tempo centenário. Não há como escutar suas histórias sem viajar no tempo e no espaço: com elas voltamos ao século XX e percorremos terras fluminenses, capixabas e mineiras, viajando sobre os trilhos do trem, no constante prenúncio das alegrias do palco e na certeza de que a vida do artista é sempre ir aonde o povo está.

Dejanira Pettersen, em 2015

Em seu tempo de menina, Dejanira morava em São João do Paraíso, distrito de Cambuci, sonhando com uma vida em que pudesse percorrer o mundo e conhecer pessoas. Quando Geraldo Silva, de nome artístico "Tangará", chegou à cidade, junto com um grande circo, a vida da jovem começou a tomar o rumo que ela quis construir. O circo vai embora, mas tempos depois, após uma grande enchente da qual se recorda muito bem, Geraldo retorna à cidade, preocupado com a jovem. O casal se declara apaixonado e para Dejanira começa a experiência dos palcos. Em breve, assume o nome artístico "Andorinha", e assim nasce a dupla "Tangará e Andorinha".

Anúncio de show em circo, com participação de Tangará - a lápis: dia 2 em Bananeiras.

CANTORIA NAS ONDAS SONORAS DO RÁDIO


Campos: Dejanira conta terem feito apresentações aos domingos, cantando músicas a pedido dos ouvintes, na Rádio Cultura de Campos.  


Itaperuna: Durante três anos, na década de 1950, Tangará esteve a frente do programa matutino diário "Sertão em Flor", na Rádio Itaperuna Ltda - ZYM-2. Dejanira recorda que antes de iniciar o programa, este era anunciado por José Luiz com a seguinte chamada: “- E vêm aí os inimigos da tristeza! Sertão em Flor”.


Para a estreia de Andorinha na rádio, Tangará compôs a música A saracura em que ela teria uma pequena participação, para ir se acostumando ao microfone:


A saracura

Tangará: Você já viu a saracura dançar?
Andorinha: Não!!!
Tangará: Então você vai ver, você vai rir de escangalhar...
                A saracura quando dança lá no galho
                vira festa
                que os galhos chegam a quebrar


Como era comum na época, diversos artistas eram chamados a compor material que auxiliasse na divulgação de nomes políticos, em campanhas eleitorais. Tangará não foi exceção e um dos candidatos para quem compôs foi o bonjesuense Roberto Silveira, na época candidato a governador. 




No período em que Dejanira e Geraldo viveram em Itaperuna, sua moradia foi no Hotel Meirelles, no andar térreo. Foi nesse local que o músico preparou um cenário que pudesse acompanhar a dupla em suas viagens pela região: pintou em tecido uma cidade imaginária com muitos prédios. O cenário, assim, cabia em uma mala, podendo ser facilmente transportado e montado a cada apresentação.


O TEATRO MAMBEMBE SEGUE OS TRILHOS DO TREM

Após deixar o programa na Rádio Itaperuna, o casal passa a se apresentar em várias localidades. Seguir o roteiro da dupla é perceber a importância das linhas ferroviárias como meio de transporte e de comunicação entre as cidades durante grande parte do século XX no interior brasileiro, em especial na confluência entre os estados do Rio, Minas e Espírito Santo. E assim, Dejanira vai indicando uma série de lugares em que "Tangará e Andorinha" percorreram com suas apresentações teatrais, tais como: Pirapetinga, Patrocínio do Muriaé, Muriaé, Leopoldina e Juiz de Fora (MG); Murundu, Santa Margarida, Chave do Paraíso, Gargaú, Travessão de Campos, Baixa Grande, Santo Amaro, Saturnino Braga, Tocos, Capão, Chave Santa Maria, Usina Santa Izabel (RJ); Iurú, Mimoso do Sul e Iconha (ES). Nessa lista é possível perceber o nome ou local de muitas das estações ferroviárias que compunham as linhas da época.

Onde se apresentar? O primeiro lugar a buscar era o cinema, se não houvesse cinema, buscava-se um clube, ou um local em que se pudesse fazer o show, montando o cenário "portátil". No local, apresentavam um "Carta de recomendação" assinada por pessoas que haviam recebido os artistas em suas cidades. Em alguns casos, como em Iurú, a apresentação ocorreu na própria estação ferroviária, no salão da estação, por não haver cinema ou clube que pudesse recebê-los. Também era comum receberem convite para apresentação em algumas fazendas, em áreas rurais mais afastadas.

Apresentação de Tangará e Andorinha em Iconha, década de 1960, tendo ao fundo o cenário composto por uma pintura em tecido feito por Tangará e que era transportado pelos artistas em uma mala de viagem. Acervo particular: Djanira Pettersen.

Uma carta de recomendação era importante para facilitar a recepção da dupla em novas localidades.

A HORA DA PARADA

Quando Geraldo Silva começou a ter problemas de saúde, não foi possível manter a vida itinerante e os tempos de apresentações terminaram. Dejanira arrumou trabalho em uma fazenda em Batelão da Barra, São Francisco do Itabapoana, onde o casal viveu por alguns anos, antes de se mudar para Bom Jesus do Itabapoana. Hoje, viúva, Dejanira continua vivendo seu tempo de artista nos palcos da memória, onde os aplausos não param. Sempre disposta a nos brindar com suas histórias, essa mulher, que nasceu para a vida artística, nos transporta a um mundo onde o real e o mágico se entrelaçam, e da terra surgem vozes distantes nos contando de um tempo e de um lugar que, afinal, nos trouxeram até aqui.

O SONHO NÃO PODE PARAR

A doença impossibilitou Tangará a continuar em seu contato com o povo em apresentações teatrais. Em uma carta ao radialista, locutor e cantor Gilberto Lima, Geraldo se descreve como "compositor, cantor, violonista e humorista da Velha Guarda" e acrescenta "há 52 anos que realizo shows pelos sertões do meu Brasil". Seu sonho era ter um disco gravado com suas composições, e para isso chegou a enviar cartas solicitando apoio a prefeitos, governador e presidente.

Alguns dos títulos de suas músicas: Exaltação a Petrópolis, Sabiá e João de Barro, Mandamentos das moças, Sapo dentro do saco, Batizado da bicharada, Futebol dos bichos, A mulher e o automóvel, É bonito isso, Flor de maracujá, Ladrão de passarinho, O homem e o cão, Boi amarelinho, Cobra surucucú, Rio Muriaé, Crime de Muriaé, Vida de casado, Cigana, O tatu tá no buraco, Mulher não, Gavião, O vento vai, Alegria de caboclo, Tão lindo não há, Pato e o Marreco, Bicho doido, Por causa do marreco, Vou pra lua, O vento vai, Como é bonito ver, O sapo e o saco, Siri jogando bola, Totó apaixonado (1957), Como é bonito ver (1960), Fiel companheira (1970), Tristeza (1976), Bebê de proveta (1979), Faniquito (1980).

É só mentira (Tangará do Sul)
Geraldo Silva nasceu em Petrópolis (1917)
e faleceu em Bom Jesus do Itabapoana (1984).
Acervo particular: Dejanira Pettersen.

Ah meu compadre
Essa eu vou contá pro povo
Eu vi lá na fazenda
Galo véio botá ovo

A lua tá cheia  (Tangará do Sul)

A lua agora não fica vazia
Tem gente lá
morando noite dia
Pra lua agora
a coisa ficou feia
vai ter que andar
só cheia


Texto: Paula Aparecida Martins Borges Bastos

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domingo, 28 de setembro de 2014

Elicio Freitas, um poeta popular: "serei Homero?"

Elício Freitas nasceu em Campos dos Goytacazes, porém viveu muitos anos em Bom Jesus do Itabapoana, onde tinha uma banca de jornais. Muito conhecido na região, escrevia poemas, em especial sonetos, muitos dos quais se encontram publicados em jornais da época.

Em 25 de dezembro de 1981, no jornal O Norte Fluminense, Elício Freitas publica um artigo intitulado "Serei Homero?"

Nesse artigo descreve sua caminhada diária levando jornais à região, saindo de Bom Jesus até chegar à Santa Maria de Campos e retornar passando por Ponte do Itabapoana.

[...]
Meu roteiro: deixo a cidade de Bom Jesus, todos os dias, pela manhã levando jornais para outras localidades; passo pela antiga Usina Santa Izabel e vejo as suas ruínas, com a sua imponente torre, marcando um passado histórico que ficará em nossas lembranças passando de gerações a gerações. [...]
Vou passando de fazenda em fazenda, vejo os campos e vejo o gado de veiga em veiga [...]
Depois de passar por imensos canaviais, chego à Usina Santa Maria, um vulcão açucareiro com suas chaminés fumegantes, implantadas no solo fluminense. [...]
Chego à Santa Maria de Campos! Esta é uma terra de palmares onde cantam os sanhaçus! [...]
Vou andando e olho o céu. Céu de safira! Céu goitacá!
Eu caminho [...]
Eu caminho [...]
Finalmente piso no chão arenoso da Vila do Itabapoana [...]
Vila do Itabapoana! Vila dos sonhos! Vila das sombras! Vila das Flores!
[...]
O sol declinava! Eu cansado, muito cansado, sento à beira da sarjeta e pergunto à minha roupa rota, ao meu chapéu de palha, aos meus chinelos, aos meus farelos de pão: "SEREI HOMERO?"


Em 26 de junho de 1982, Edson da Souva Netto, da Academia Bonjesuense de Letras e Pedralva de Campos, escreve um artigo em resposta a Elicio Freitas, intitulado "Ulisses":

[...]
Você pode não ser Homero, mas é muito provável que seja um dos seus personagens. (...) Assim, amigo Elício, a sua peregrinação evoca a figura de ULISSES (Odisseis. em grego) na sua volta ao lar, a Patria, a Itaca, [...]
Mas ainda, assim como no poema do lendário HOMERO, você chegará ao seu destino: - a sua ITACA, onde também encontrará a paz. Tenha paciência e espere; não deve faltar muito.
Estendo-lhe a minha mão solidária ao fraterno aperto.




Pesquisa e texto: Paula Borges Bastos
Atualizado em 17/08/2020

segunda-feira, 23 de abril de 2012

PADRE ANTONIO FRANCISCO DE MELLO, O PADRE MELLO



                                                                      (atualizado em 19/04/2020)

Antonio Francisco de Mello nasceu na Ilha de São Miguel, no arquipélago português dos Açores, em 27 de abril de 1863.

A respeito da data e local de nascimento de Padre Mello, pesquisa realizada por Antonio Soares Borges indica seu registro de batismo na Igreja de Nossa Senhora da Anunciação: Antonio, filho de Marianno de Mello e Roza Maria de Pimentel, nasceu às 3 horas da manhã do dia 27 de abril de 1863, em Achada Grande, Concelho da Vila do Nordeste.



No ano de 1885 foi ordenado sacerdote católico, tendo vindo para o Brasil no mesmo ano.

Após passar um período em Sapucaia, foi transferido para Bom Jesus do Itabapoana no ano de 1899, chegando a essas terras acompanhado da irmã, Dona Maria Júlia de Mello (Dona Mariquinha) e de uma senhora portuguesa chamada Dona Cândida.

Sobre a chegada de Padre Mello a Bom Jesus, há interessante artigo de Osório Carneiro, publicado em O Norte Fluminense, em 23 de abril de 1972, e que reproduzimos a seguir:

UM NOME INESQUECÍVEL
Como chegou a Bom Jesus o saudoso Padre Mello

    A esta altura já não há quem ignore que o saudoso Padre Antonio Francisco de Mello era natural da Ilha de São Miguel, em Portugal, onde nascera no dia 27 de abril de 1862. Vivo pudesse estar, contaria agora, 110 anos de idade. Não dispomos de nenhum elemento, infelizmente, que possa comprovar a data certa de sua chegada ao Brasil. Sabemos, no entanto, que chegado ao nosso país, a primeira paróquia que lhe coube dirigir foi a de Sapucaia, município fluminense, onde serviu por vários anos, sendo dali, posteriormente, transferido para Bom Jesus do Itabapoana, aqui chegando precisamente no dia 18 de Junho de 1899, quando se processava, por sinal, um pleito eleitoral, achado-se bastante movimentado o antigo povoado.
      Há uma particularidade interessante, no entanto, que muita gente ignora. A viagem do virtuoso sacerdote não se processou diretamente. Veio ele por trem da Leopoldina até Ponte do Itabapoana, onde baldeou para um outro trem da nossa antiga estradinha de ferro, já extinta, vindo a desembarcar na estação de Boa Vista, hoje Apiacá, que era o ponto final da linha, onde não havia casa de hospedagem, ali pernoitando por gentileza, na residência do sr. Francisco Turco, comerciante no povoado. Mas não se achava só, o Padre Mello. Duas senhoras, também de nacionalidade portugueza, o acompanhavam na sua viagem. Uma era a sua irmã, d. Mariquinha Mello, e outra d. Cândida, que vieram juntos da ilha de São Miguel no mesmo transatlântico, sem que existisse essa senhora e os dois irmãos qualquer grau de parentesco. Eram apenas, em sua pátria de origem, vizinhos e bons amigos, muito unidos, formando por assim dizer, uma só família cristã.
       E assim é que, após haver dispensado todas as atenções aos seus distintos hóspedes, de maneira acolhedora, no dia seguinte, 18 de Junho de 1899, o sr. Francisco Turco os conduziu pessoalmente até Bom Jesus, de montaria, visto não haver, na época, nenhum outro meio de condução. Desde então o Padre Mello assumiu a condução espiritual de sua nova paróquia, onde serviu perto de meio século, nela permanecendo, como verdadeiro pastor de almas, até a sua morte, verificada a 13 de Agosto de 1947. A população, no entanto, jamais o esquecerá. Seu nome se acha, para sempre, ligado à história de nossa terra. A cada ano que passa mais a sua memória se agiganta na alma do povo, passando, assim de geração em geração.


Padre Mello foi vigário da Paróquia de Bom Jesus por 48 anos, tendo falecido em 13.08.1947, justamente durante os festejos que ajudou a instituir no município, e que deram origem à Festa de Agosto.


A Festa em louvor do Divino Espírito Santo era tradição na Ilha de São Miguel, e acabou sendo incorporada à tradição do município de Bom Jesus, no período de 13 a 15 de agosto.


Considerado por todos uma das figuras mais ilustres de nossa terra, Padre Mello não se limitou a sua atuação religiosa. Nas palavras de Luciano Bastos, em artigo intitulado "Bom Jesus, sua administração e Padre Mello", publicado em O Norte Fluminense, Padre Mello "teve papel importantíssimo no desenvolvimento da nossa terra, não apenas no setor religioso, mas no educacional, administrativo, social e em nossa emancipação política".



 Carta manuscrita escrita por Padre Mello no ano de 1941
destinada à Diretora do então Ginásio Rio Branco
Acervo: Espaço Cultural Luciano Bastos


Poeta e jornalista, Padre Mello foi o autor do Hino do Colégio Rio Branco, compondo Música e Letra.

Seus poemas refletem o interesse que teve em vida por diversos e variados temas. Aos temas religiosos, somam-se diversos outros que ajudam a compor uma parte da história de Bom Jesus na primeira metade do século XX.

A seguir alguns de seus poemas:

CARROS DE BOIS

Por caminhos da roça tortuosos
estreitos e cavados, vão passando
velhos carros de bois, estes cantando,
aqueles em gemidos lamentosos.

Mas sendo iguais e todos preciosos
os frutos da terra vão levando,
e se o destino igual os vai guiando,
por que vão cantando e outros chorosos?

Que diga o coração da humana raça
quão variadamente ele palpita
se é varia a onda que por ele passa.

De dores e de alegrias no transporte,
tal como carro, canta chora, grita,
conforme o aperto dos cocões da sorte.

***

CONTRASTE

                            A um sino que serviu nas senzalas adquirido há
                           tempos pela Liga Católica de Itaperuna

Quão diferente tua voz agora
Que tão suave ao coração nos fala
daquela que bem junto da senzala
às gerações servís falava outrora!

Ao pobre escravo ias dizer: Lá fora
uma enxada te espera: entre na ala!
E no entretanto pelos vãos da sala
não penetrava ainda a luz da aurora.

Hoje porém é outro o teu ofício:
ou nos congregas em união fraterna
ou nos chamas ao Santo Sacrifício.

E sempre a despertar, meu velho sino,
não os escravos da servil taberna
mas os escravos do Amor Divino

***

MORRER SONHANDO

Cedo, bem cedo, perderei a vida
Planta ferida no mimoso pé.
Teu desengano perecer me ordena,
Na idade plena de esperança e fé.

Porém a morte me é suave e doce
Como se fosse uma ilusão de amor;
Embora eu sinta que uma luz se apaga
Outra se afaga de eternal fulgor.

Morrer sonhando! Como é doce a morte!
Que vale a sorte que esta vida tem?!
A vida é sempre uma fugaz mentira,
A morte aspira a realidade além.

Morre este corpo de servil matéria.
Baixa à miséria do funéreo pó,
Porém minha alma sempre viva sonha
Vida risonha; não mereço dó.

Beijo-te a mão que me assassina e creio
Que ela me veio libertar ao fim.
Morrer sonhando é despertar na glória;
Eis a vitória. Morrerei assim.

***

O RELÓGIO DA TORRE

Já luz de noite o relógio
já o relógio tem luz,
já sabe a quantos se deita
o povo de Bom Jesus

Mas por que andava de noite
a torre na escuridão?
mil razões a gente dava
e ninguém dava razão.

Até se disse: "De certo
economia de luz".
Mas luz é que não faltava
nos fios de Bom Jesus.

A razão, razão suprema
com que ninguém atinou
foi que do cofre da Igreja
o dinheiro se ausentou.

(poema publicado em 1932, no jornal "O Momento")



***

Sobre Padre Mello, escreveu Delton de Mattos em artigo publicado no jornal O Norte Fluminense, em 25.12.1949


Padre Mello 


 Por Delton de Mattos

Estava esperando alguns vagares para escrever estas linhas sobre o Padre Mello, o grande bonjesuista (neologismo octaciliano), um dos maiores, talvez o de espírito melhormente malhado pela vida, na dedicação ao pensamento e ao trabalho, na sinceridade do ideal, e no intransigente sacerdócio dentro e fora da igreja. Já envelhecia comigo o documentário emprestado de Romeu Couto, que acabo agora de copiar. Enfim, que pode a gente fazer aos compromissos, quando cada vez aumenta, nos dias nervosos, o elemento relação, como diria o velho Einstein. 
Mas foi até bom esse retardamento, pois Bom Jesus anda evoluindo muito, e qualquer coisa que se diga no ambiente de hoje, tem efeito mais sensível. E desta cidade-cérebro a gente anda esquecido de escrever o que não toca ao proveito geral.

Lembro-me bem do que dizia o Padre Mello, de tão nobres que a mim criança me pareciam suas palavras. Nobres e profundas, com um quê de singeleza ligeiramente áspera, escondendo à furto, na boa pronúncia portuguesa, a nitidez das ideias e o pensamento oportuno, com uma invejável saúde de espírito. A princípio eu não podia penetrar no seu grande mundo interior, que eu nada entendia de coisa alguma. Depois passei a achar que um Padre Mello devia dizer coisas mais sábias e finalmente comecei a não querer falar e nem pensar no que ele dizia. Apenas ficava deslumbrado com sua facilidade de penetração, com seu verbo à flor dos lábios, e a universalidade de sua cultura. E aquelas historietas lusitanas que ele me contava, tão simples e insignificantes no começo, tornaram-se para mim de um delicioso sabor literário.

Mais tarde, os bucólicos portugueses completaram no meu espírito os quadros campestres que ele traçara, e que eu não conseguira assimilar em criança. Reconheci-os todos, que eram verdadeiros e reais. Um menino indo ao colégio montado num cão, a colheita das uvas e a caneca do vinho com pão de forno, a canção da moça que chorava o pássaro ferido, ou a tristeza do pastor apaixonado... Historietas que me transmitiam sentimentos iguais aos de Menina e Moça e Cristal. Eram as emoções evoluídas e simplificadas de Bernardin Ribeiro e Cristóvão Falcão...

Houve um tempo em que almoçávamos juntos no Hotel Bom Jesus; foi quase no fim. Eu encolhia-me diante de sua incomparável mocidade de espírito. Às vezes ensinava-me português, tão minuciosamente, como no caso do til. Às vezes se tornava humorista, fazia quadras explorando o ridículo, e dizia que eram dos velhos tempos de Universidade. Muito raramente ficava em silencio, e punha-se então a balançar a cabeça de modo afirmativo, mordendo os lábios para conter as frases. 

Padre Mello foi contemporâneo de Antero de Quental, lá na ilha. Ele costumava dizer que divergiam muito, mas eram amigos. Antero era meditativo, triste, ensimesmado. Padre Mello era alegre e jovial. Quando Antero voltou de Coimbra, já predestinado à angustia de pensar que o matara depois, Padre Mello se preparava para deixar S. Miguel, sem saber que carreira seguiria na famosa Universidade. O inquieto autor das Odes Modernas gostava de passar a noite a vagar pelas colinas mornas, fitando um céu muito baixo, e fazendo versos. 

Padre Mello saía da ilha para nunca mais rever o filósofo. Ele tinha nessa época muitas ilusões, que os primeiros contatos com o mundo civilizado da Europa destruíram completamente, conduzindo-o ao convento. Nascera com uma alma robusta, o bastante para não desafiar a vida brutal, diferente da que ele sonhava, mas o bastante também para não obriga-lo a fugir de si mesmo, do ideal artístico, das tendências literárias.  A ilha de S. Miguel apresentava uma paisagem que oprimia, como retrata D. Carolina Michaelis falando de Antero, com “montes vulcânicos de formação monótona demasiadas vezes envolvidos num tênue véu de vapor quente que, tornando baixa a abóboda do céu, e pesada a atmosfera, lhe entristecia a alma, ardente de sol já quando criança”. Um espírito como o do Padre Mello não poderia viver numa natureza assim, amante, mas incerta e restrita. Daí a saída para o Brasil, e para Bom Jesus, que identificou-se muito bem com ele. O tanto que ele amava Bom Jesus, o tanto que nós sabemos, nunca fe-lo esquecer a ilha distante, a Coimbra alegre.

Com esses relatos ligeiros podemos fazer uma ideia das causas de suas emoções literárias e cientificas, sempre tão jovens. Sua obra nunca teve o objetivo de ir além da cidade. Era como se um pouco do espírito da cidade, que ia fazendo bases proporcionais ao crescimento dela. Bases sólidas como as das casas anciãs, que hoje podem ser aproveitadas para grandes edifícios. 

Padre Mello é uma tradição de trabalho e pensamento. O que ele realizou em Bom Jesus representa um patrimônio espiritual considerável, alicerce de dias futuros. 

Quando empregamos todas as nossas energias a clamar por educação, a pedir ensino para todos os bonjesuenses, pondo o passado tranquilo em relação com o presente agitado e o futuro incerto, estamos tentando preservar o patrimônio legado por Padre Mello, patrimônio que é uma esperança, um orgulho e um estímulo.