Espaço Cultural Luciano Bastos - Bom Jesus do Itabapoana, RJ, Brasil
O Espaço Cultural Luciano Bastos foi inaugurado em 12/08/11, tendo sido idealizado como forma de preservar o rico patrimônio cultural que constitui o prédio do antigo Colégio Rio Branco e todo acervo existente em seu interior, disponibilizando para a comunidade o acesso a esses bens, e estimulando a cultura local através do desenvolvimento de diversas atividades culturais. Praça Amaral Peixoto, 13, Centro, Bom Jesus do Itabapoana E-mail: espacoculturallucianobastos@gmail.com Tel: (22)3831-1056
terça-feira, 1 de abril de 2025
ECLB recebe visita do Centro Educacional Rosa de Souza Pereira, de Bom Jesus do Norte, ES
Visita dos alunos da APAE ao ECLB
Programação do "Mês de Padre Mello" acontece durante o mês de abril
Em homenagem aos 162 anos de nascimento do Padre Mello, começa no dia 02 de abril o Mês de Padre Mello, evento cultural promovido pelo Jornal O Norte Fluminense.
Ao longo do mês de abril, o Padre poeta será homenageado em várias instituições: Espaço Cultural Luciano Bastos, na Escola de Música MusicArt, no Instituto de Menores Roberto Silveira e na Escola de Música JEMAJ, além da realização de Sarau da Academia Bonjesuense Infantojuvenil de Artes e Letras (ABIJAL) e apresentação do Grupo Folclórico de Dança "Imperial Português", de Conceição de Castelo. O encerramento será no dia 27 de abril, data do nascimento do sacerdote, na Igreja Matriz de Bom Jesus Itabapoana.
Confira a programação e venha participar!
Conheça um pouco da vida e obra do Padre Antonio Francisco de Mello:
https://espacoculturallucianobastos.blogspot.com/2012/04/padre-antonio-francisco-de-mello-o.html
segunda-feira, 31 de março de 2025
Lago José Neves: patrimônio natural de Bom Jesus do Itabapoana
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Lago José Neves, um dos cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, RJ. Foto: Paula Bastos. |
Um dos principais cartões postais de Bom Jesus do Itabapoana, o Lago José Neves, também é conhecido como “Laguinho”, “Lago do Trevo” ou, para os mais antigos, “Lago da UFF”, “Lago da entrada da cidade” ou mesmo “Lago da Pecuária”.
Localizado na área urbana de Bom Jesus, no Bairro Parque do Trevo, cruzamento da RJ 186 com a RJ 230, esse lago artificial, com suas várias décadas de existência, já foi incorporado à paisagem de Bom Jesus do Itabapoana, estando repleto de conteúdos afetivos em nossas memórias.
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A RJ 186 passa ao lado o lago, encontrando-se com a RJ 230 no trevo. Fonte: Google Maps, 2025. |
De formato arredondado, circundado por um calçadão e medindo aproximadamente 700 metros, o Lago José Neves é muito utilizado como pista de caminhada e aulas de educação física. Contornado por belíssimos coqueiros e uma vegetação basicamente constituída por gramíneas, com uma criação de peixes no local, o atrativo é visitado diariamente por grande número de cidadãos de Bom Jesus do Itabapoana e turistas (1)
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O "Laguinho", como é carinhosamente conhecido, é muito procurado para caminhadas e passeio. Foto: Paula Bastos, 2024. |
O lago é carregado de uma dimensão simbólica e afetiva, além de ser testemunha das transformações históricas decorrentes do crescimento urbano e das alterações das vias comunicacionais de transporte que foram se configurando ao longo do século XX em seu entorno. Se no início de sua existência estava localizado em um local distante e bucólico, o Lago está, atualmente, em grande medida, incorporado à área urbana, e mantém o seu status de principal cartão de boas vindas aos que chegam a Bom Jesus pela RJ-186.
O início: lago como bebedouro para gado
A história do lago caminha junto com as transformações que foram ocorrendo na área ao longo do tempo. O lago foi criado, provavelmente, durante o período de existência do Posto Agropecuário (ligado ao Ministério da Agricultura), em meados do século XX, como um bebedouro para mitigar a sede dos bovinos que pastavam ao redor. Em pouco tempo foi se convertendo em um ambiente paisagístico para todos que por ali passavam, especialmente depois que a estrada em frente ao lago foi asfaltada, no início da década de 1960.
As melhorias rodoviárias ocorreram sob a gestão do bonjesuense Roberto Silveira, Governador do estado do Rio de Janeiro, quando deu-se o asfaltamento da estrada que ligava Bom Jesus ao cruzamento de Itaperuna e dali a Campos, havendo também atenção para estruturar uma estrada ensaibrada ligando Bom Jesus a Santo Eduardo e Morro do Côco (2). Esses trajetos melhorados permitiram encurtar distâncias e facilitar o escoamento e chegada de produtos. Ambos se encontravam na chegada a Bom Jesus, em área próxima ao "Laguinho".
Margeado por coqueiros e vegetação rasteira, a área era delimitada por uma cerca de arame farpado, como é comum nas pastagens bovinas, e era apreciado por todos como um marco aos viajantes, que ali tinham sua referência de chegada ou saída de Bom Jesus.
Em 1970, o Ministério da Agricultura fez a transferência do acervo do Posto Agropecuário para o Município, passando a funcionar no local, "ao lado da rodovia para Santo Eduardo", o Colégio Técnico Agrícola de Bom Jesus, mantido pela Fundação Educacional de Bom Jesus. Logo recebeu o nome de Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB), em homenagem ao Presidente da Fundação, recém falecido. Em 1974, o município fez doação para que o CTAIBB passasse a integrar a Universidade Federal Fluminense, e toda a área, com o lago incluso, voltou a ser considerada de âmbito federal, após quatro anos municipalizada (3) (4) (5).
O lago era muito apreciado pelos jovens e adultos que frequentaram, nas últimas décadas do século XX, a churrascaria Pitucão e suas famosas serestas. O Pitucão, na época, funcionava justo em frente ao lago, do outro lado da estrada, próximo onde hoje funciona um posto de gasolina. Isso fazia com que os notívagos pudessem sonhar ao caminhar para casa, especialmente em noites de lua cheia, quando os raios prateados inundavam de sonhos os enamorados que contemplavam as águas plácidas do singelo lago.
Na década de 1990, com a transferência do Pitucão para novo endereço, passou a funcionar ali o Restaurante Terraço, mantendo serestas e eventos noturnos por muitos anos.
Uma nova ponte e um lago esvaziado
No final da década de 1980, a construção de uma nova ponte de cimento sobre o rio Itabapoana, em área próxima ao lago, significou mais um avanço no sistema rodoviário que passava por Bom Jesus. Anunciada como um importante ponto de ligação entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, a antiga estrada que passava em frente ao lago foi remodelada, ampliada e inaugurada como Rodovia RJ-186, partindo de Bom Jesus, passando por Santo Antônio de Pádua e indo até a divisa com Pirapetinga, em Minas.
Para viabilizar todas as obras previstas na região de Bom Jesus, ou seja, a nova ponte, a reforma e a ampliação da estrada no trecho Bom Jesus – Cruzamento para Itaperuna, além da instalação de um trevo rodoviário entre a RJ-186 e a RJ-230, o lago foi esvaziado, a fim de possibilitar a movimentação de máquinas e material ao seu redor. (6)
A ponte ficou pronta em 1988, porém os aterros de acesso de ambos os lados, capixaba e fluminense, demoraram a ser realizados. Em abril de 1989 os governos ainda estavam envolvidos com a concorrência das obras (7). Por fim, ficaram prontas a ponte e a rodovia, e a inauguração se deu, do lado capixaba e fluminense, nos dias 04 e 12 de março de 1991, respectivamente. Nos eventos estiveram presentes diversas autoridades, dentre elas os governadores Moreira Franco (RJ) e Max Mauro (ES), além de Tadeu Batista e Carlos Borges Garcia, prefeitos de Bom Jesus do Norte (ES) e Bom Jesus do Itabapoana (RJ), respectivamente (8) (9). Este último, durante o ato de inauguração, destacou a relevância da ponte para a população das duas cidades irmãs:
(...) esses dois povos, embora localizados em Estados distintos, têm uma história comum, uma história entrelaçada de tamanha identidade, uma afinidade cultural e espiritual tão consistente, que não se compreendia porque, por anos e anos, lhes tenha sido negado o direito de possuir mais uma via de união material (9)
Ponte nova sobre o rio Itabapoana: construída em fins de 1980 e inaugurada na década de 1990. Foto: Paula Bastos. |
Após a inauguração da ponte, a população aguardava para breve a recomposição do lago, cujas águas são provenientes de nascentes locais e já constituía um ponto de referência para toda a comunidade. Em junho de 1991, matéria jornalística intitulada "Lago não pode acabar", chamava a atenção para a importância do lago para os bonjesuenses, conclamando sua recuperação (6). O retorno, porém, não ocorreu rapidamente, e passado um ano, o lago continuava a ser reivindicado pela comunidade, passando a ser novamente notícia de jornal, com os dizeres “queremos o ‘lago’ de volta”. (10)
Um lago remodelado
Em 1994, o lago voltou a compor a paisagem, começando a tomar o contorno que permanece até os dias atuais. Através de convênio da UFF com a Prefeitura, o lago artificial, em remodelação, além de seu aspecto paisagístico, é planejado para ser incorporado como um espaço de uso pela população, ampliando sua significação afetiva, sendo “transformado em ponto turístico e de lazer”, pois, “além de destinar-se à criação de peixes, será um ponto de lazer para os bonjesuenses, com pista para cooper e outras atrações” (11). Vale lembrar que foi na década de 1990 que a sociedade brasileira teve ampliada a incorporação dos hábitos de atividades físicas, com as corridas e caminhadas passando a ser um grande atrativo para os que passaram a buscar um estilo de vida considerado mais saudável.
Lago recém remodelado e aberto para caminhadas. Foto: Paula Bastos, década de 1990. |
É nessa época que o lago recebe uma pavimentação ao seu redor, ficando definitivamente aberto ao público o acesso às suas margens, seja para piquenique, caminhadas e mesmo para apreciar os peixes, ali criados pelo CTAIBB-UFF, e que passaram a ser uma das atrações a mais do local, especialmente para as crianças, que vinham com os familiares para alimentar os animais no início e no final do dia.
Acompanhando os antigos coqueiros, uma nova fileira, agora de coqueiros-anão, foi plantada ao redor do pavimento. As mudas, originárias de Quissamã, foram doadas pela prefeitura daquele município (12).
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Jornal O Norte Fluminense, 25/09/1994 |
As duas fileiras de coqueiros convivem à margem do Laguinho: a mais externa foi plantada em 1994, com mudas oriundas de Quissamã, RJ. Foto: Paula Bastos, 2021. |
Atualmente, às duas fileiras de coqueiros que margeiam as águas lacustres, vem somar-se outras árvores frutíferas, algumas delas plantadas por moradores e apreciadores do lago, que, junto a todos que ali frequentam, compreendem o local com um patrimônio afetivo da população.
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Algumas árvores frutíferas compõem a paisagem do "Laguinho"... Foto: Paula Bastos, 2021. |
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...e dão sombra aos visitantes. Foto: Paula Bastos, 2021. |
O lago remodelado recebeu o nome de Lago José Neves, quando foi inaugurado em 1994, homenagem ao Auxiliar de Agropecuária que havia falecido recentemente. Antigo funcionário do Colégio Técnico Agrícola Ildefonso Bastos Borges (CTAIBB) – UFF, José Neves se dedicou por muitos anos às atividades de cuidado da terra, ao cultivo e à criação, trabalhando desde os tempos do Posto Agropecuário, junto ao Médico Veterinário Ildefonso Bastos Borges, antes mesmo da conformação do CTAIBB-UFF.
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Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto Paula Bastos, 2021. |
A partir da criação dos Institutos Federais, em 2008, deu-se a transformação do antigo CTAIBB-UFF em campus Bom Jesus - Instituto Federal Fluminense (IFF) (5). O convênio com a Prefeitura referente ao uso do Lago como área de lazer e turismo pela comunidade foi mantido e permanece ativo até os dias atuais, ficando ao encargo da municipalidade o cuidado com o paisagismo e a manutenção da limpeza da área.
Um patrimônio natural em área urbana
Observa-se, assim, que aliado à paisagem natural, já incorporada à memória afetiva da coletividade durante décadas, buscou-se instituir um espaço para lazer e contemplação, em que a presença humana passasse a se integrar à paisagem. A população acolheu de forma extremamente positiva a mudança proposta, e rapidamente o local se converteu em um dos principais pontos urbanos para práticas de atividade física ao ar livre ou simplesmente um passeio para contemplação da natureza. Encontros, piqueniques, brincadeiras infantis, registros fotográficos, leitura à sombra das árvores, variados são os usos que a população tem feito do Lago José Neves ao longo das últimas décadas.
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Área para caminhadas e práticas de atividades físicas atrai visitantes ao Lago José Neves. Foto: Paula Bastos, 2024. |
Entendendo que patrimônio natural é “parte da memória humana, pois adquire significado e sentido para os diversos grupos sociais, torna-se uma referência histórica e é inserido na memória social” (13), podemos considerar o Lago José Neves um patrimônio natural da área urbana de Bom Jesus do Itabapoana.
Passear às margens do Lago é poder contemplar amostras de algumas das possíveis paisagens do Vale do Itabapoana.
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Lago José Neves, Bom Jesus do Itabapoana. Foto: Paula Bastos, 2024. |
Em uma de suas extremidades, do lado capixaba, se vislumbra a reconfortante cobertura vegetal que desponta no Morro da Torre e montes adjacentes, em Bom Jesus do Norte; mais além, sobressaindo para os lados de Mimoso do Sul, os enigmáticos Pontões nos atraem em seu azul distante.
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A mata no Morro da Torre, em Bom Jesus do Norte (ES): sobranceira na paisagem. Foto: Paula Bastos, 2024. |
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Os Pontões, em Mimoso do Sul (ES), despontam na paisagem por sua altitude. Foto: Paula Bastos, 2021. |
Caminhando na direção oposta, na outra extremidade, para o lado fluminense, é possível descortinar ao longe montes característicos da região.
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Morros ao longe, lado fluminense. Foto: Paula Bastos, 2024. |
Em suas laterais, o "Laguinho" é circundado por dois morros que bem poderiam configurar uma alegoria de situação atual de nossa região. De um lado, um baixo monte de pasto, prometido como área de reflorestamento (14), apresentando, por enquanto, seus primeiros passos nessa direção, em processo ainda incipiente e tímido.
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Pequena área de reflorestamento foi iniciada no morro próximo ao "Laguinho". Foto: Paula Bastos, 2021. |
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Área de reflorestamento, em 2024. Foto: Paula Bastos. |
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Um morro recortado, terra vermelha e diversas lojas e galpões de serviço compõem o visual do outro lado da estrada RJ 186 que margeia uma das bordas "Laguinho". Foto: Paula Bastos, 2021. |
Sobre nossas cabeças, no fim da tarde, os pássaros sobrevoam em direção ao rio Itabapoana, esse rio cujas águas continuam rolando sobre as pedras e passam sob a segunda ponte, atualmente convertida em uma madura balzaquiana com seus mais de 30 anos.
Ao final do passeio, após toda essa contemplação, uma pergunta perpassa o pensamento: que paisagem verão as gerações futuras em suas caminhadas e passeio ao redor do Lago José Neves?***
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Referências
(1) LAGO José Neves (Laguinho). Disponível em: https://bomjesus.rj.gov.br/site/ponto_turistico/lago_jose_neves_(laguinho)/2 Acesso 29/03/2025.
(2) SERÁ INICIADO em breve o asfaltamento: ótima estrada ligará Bom Jesus a Itaperuna. A Voz do Povo, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1262, 23/01/1960.
(3) INAUGURADO o Colégio Técnico Agrícola. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1023, RJ, 08/03/1970.
(4) MINISTÉRIO da Agricultura entrega Posto Agro-pecuário ao município. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1026, RJ, 05/04/1970.
(5) 50 ANOS de CTAIBB e a efeméride a ser celebrada. Disponível em https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/50-anos-do-ctaibb-e-a-efemeride-a-ser-celebrada Acesso 30/03/2025.
(6) LAGO não pode acabar. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1864, 30/06/1991.
(7) UMA OBRA inacabada. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1791, 09/04/1989.
(8) INAUGURAÇÃO da nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, n. 1853, RJ, 03/03/1991.
(9) INAUGURADA a nova ponte sobre o Itabapoana. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n. 1854, 17/03/1991.
(10) O LAGO da UFF. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, 29/03/1992.
(11) NOVO visual Urbanístico da Cidade. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1944, 07/08/1994.
(12) O LAGO do Trevo. O Norte Fluminense, Bom Jesus do Itabapoana, RJ, n.1948, 25/09/1994.
(13) SCIFONI. Simone. Os diferentes significados do patrimônio natural. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v.10, p.55-78, 2006, p.75.
(14) ÁREA de reserva legal do IFF Bom Jesus recebe mudas nativas e exóticas por meio de parceria com UENF. Disponível em: https://portal1.iff.edu.br/nossos-campi/bom-jesus-do-itabapoana/noticias/area-de-reserva-legal-do-iff-bom-jesus-recebe-mudas-nativas-e-exoticas-por-meio-de-parceria-com-uenf Acesso 31/03/2025.